26.8.08

Passando pelas brasas


Fez ontem vinte anos que grande parte do Chiado foi devorada pelas chamas. Lembro-me de ser na altura um puto (agora sou apenas infantil) e pensar: "Epá, normalmente estas desgraças só acontecem noutros países. Será que isso quer dizer que hoje não há desenhos animados?". Como vêem, era uma criança matura, capaz de suavizar uma tragédia recorrendo a outra, neste caso a animação de leste que nos era proporcionada pelo Vasco Granja.

Não pondo em causa os danos e prejuízos de várias ordens que muita gente sofreu por causa do fogo, em certa medida o incêndio foi a "salvação" do Chiado. E isso passou essencialmente pela modernização da arquitectura, combinando fachadas antigas restauradas com uma planificação moderna, recuperando o que era viável e fazendo desaparecer o que já estava moribundo, mesmo antes do incêndio. Isso garantiu-nos que, hoje em dia, o Chiado seja uma zona "viva" rodeada de áreas moribundas, especialmente de noite, com a clara excepção do Bairro Alto, pelas razões óbvias.

O fogo está acima da lei e, tirando o incoveniente de ser o amigo favorito dos pirómanos, fez aquilo que políticos e interesses não permitem - Criar uma base para requalificar áreas fulcrais de Lisboa. Quem viver em Lisboa sabe certamente que, abaixo do Chiado, a Baixa à noite é fantasma onde, na maior parte dos casos, só residem idosos em habitações degradadas e onde não se vê vivalma ou às vezes se deseja que não se visse vivalma.
Lojas, serviços, restaurantes e pastelarias fecham maioritariamente às 20h e a partir daí, o cenário é para esquecer, especialmente no Inverno, em que só as luzes de Natal disfarçam o estado do morto-vivo. Se a baixa ainda é o coração da cidade, então é melhor fazer como em relação à Amy Winehouse e ir escrevendo o obituário, porque o pacemaker do Chiado não serve para tudo.

Puxar um fósforo nunca será uma solução válida, mas que às vezes apetece, apetece.

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