25.8.08

Atletas modelo

Depois de quinze dias acabou o regabofe. Depois de já se terem começado a formar pelotões de linchamento prontos a fazer “Atleta Português à Pequim”, na sequência de novos recordes nacionais de desculpas esfarrapadas alcançados em catadupa, bastou um salto de categoria para apaziguar as massas e levar de novo ao contentamento nacional.

A grande medalha de ouro do jovem Évora, somada à prata da Vanessa (que só pelo facto de ter o pai a berrar ao longo do percurso olímpico merecia uma medalha) serve para equilibrar a balança dos “Na caminha é que é bom”, “Os estádios cheios bloqueiam-me”, “Este não é o meu tipo de competição”, “Elas pareciam que treinaram só para me lixar” ou “Aviei o tipo que me roubou a namorada, já fiquei satisfeito”. Pelo meio fica gente que deu o litro, mesmo sem ter ganho medalha, e que fica na zona sombreada da fotografia. A malta precisa de herois e vilões, tudo o resto fica sempre para segundo plano.

A mim chateia-me o facto de sermos sempre simpáticos e resignados, mesmo quando perdemos. A satisfação de conhecer a muralha da China e a antecipação de grandes manobras sexuais para compensar uma eliminação precoce não devia anular completamente a sensação de “mau perder”. Ele houve atletas coreanas de andebol a ficarem meia hora em campo em protesto pela derrota, ele houve lutadores suecos a tentarem agredir juízes e a atirarem medalhas ao chão, para não falar do artista do taekwondo que aliviou a sensação de derrota usando a cabeça do árbitro como piñata ou a perseguição a ginastas chinesas de idade duvidosa. Em suma, houve resmas de artistas de gabarito na arte do escasso espírito olímpico. E nós? Só choramingas e bons rapazes e raparigas...

Já que tivemos de nos contentar com um honroso 45º lugar na tabela das medalhas (sim, anda aí gente feliz a usar o termo medalheiro mas para trocadilhos lastimáveis, já me bastam os meus) ao menos podíamos ter atletas destas para compensar a moral – Leryn Franco, paraguaia de 26 anos, competiu no lançamento do dardo. Em vez de fazer a barba, bater no marido ou fazer corar de inveja alguns estivadores graças à sua largura de ombros, Leryn ocupa os seus tempos livres de outra maneira. Uma vez que o Comité Olímpico Paraguaio não nada em dinheiro, esta jovem faz trabalhos de modelo para financiar o seu programa de treino e, ao que parece, a coisa tem resultado. Pelo menos na área da moda, já que infelizmente a jovem não passou das eliminatórias. Mas, verdade seja dita, poucos estavam a olhar para onde caía o dardo...



Mas pronto, a festa acabou e tanto a China como alguns atletas portugueses podem suspirar de alívio porque os focos vão para outro lado. Desta já estão safos, valha o Nélson e a Vanessa a uns e o Beckham aos pontapés a outros.

Triple Sound Jump – Audioslave, Nothing left to say but goodbye

1 comentário:

  1. Quer dizer, na prática foram 3 bons saltos...:)

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