7.7.08

Auto ajudem-me


Ter problemas é normal. Aliás, alguns dos maiores anormais que conheço é gente que parece não ter problemas de qualquer espécie. No entanto, não consigo compreender esta febre dos livros, cursos e teorias de “Auto-ajuda”, que a mim me parecem versões eruditas dos Professores Bambos e afins, mas em que o autor nem se dá ao trabalho de assumir parte da tarefa. Ou fazes tu ou não vais a lado nenhum.

Comecemos pelo nome que é auto-explicativo, embora a mim me faça sempre lembrar uma garagem que havia no bairro onde cresci, forrada a posters de qualidade e requinte que muito me auto-ajudaram a querer descobrir mais sobre o corpo feminino. Divagações à parte, o nome “livro de auto-ajuda” é auto-explicativo na medida em que muito provavelmente o autor escreve o livro para se ajudar a si mesmo.

“O ex-Segredo”, “Gordo é quem te fez as orelhas”, “Passe de rato a leão na cama” ou “Jesus liga-me porque eu não tenho saldo” são exemplos de obras que na sua grande maioria podem ter um fundo de verdade, assente no pensamento positivo e na vontade de lutar por um objectivo, coisas que qualquer amigo com dois dedos de testa vos podia aconselhar. Mas, acima de tudo, esta devoção pelo misticismo e a procura de gurus que têm quase sempre uma história trágica convertida em sucesso (alguém me mostra um autor desses que não tenha sido alcóolico, vivido na miséria ou perdido uma perna a caçar ursos) parece indicar que as pessoas consideram muito mais fácil olhar para o exterior à procura de soluções do que olhar para si próprias. E há sempre alguém com a solução, mesmo ao virar da prateleira.

É certo que nem todos podem ser trastes auto-confiantes como eu, que poderia viver numa barraca forrada a pacotes de leite por causa de dívidas de jogo e, mesmo assim, considerar que foi preciso ter coragem para abdicar da vida mundana com que a maior parte das pessoas se parece contentar. Contudo, procurar nas páginas de um livro que abusa dos pontos de exclamação ou num curso da Alexandra Solnado mais do que uns momentos de relax é um pouco como jogar dardos com os olhos vendados.

Essencialmente, não acredito nestes livros na medida em que também acho que nunca foi preciso alguém ler um livro “Auto lixe-se” ou “Arruine a sua vida em 30 dias” para conseguir isso mesmo. Se temos essa capacidade inata para um lado, também a devíamos ter para o outro.

Agora, auto ajuda a sério é votarem neste espaço de entrenimento ali no concurso da Superbock. Vocês sentem-se bem porque ajudam uma pessoa que sofre e eu sinto-me bem porque vos ajudei a fazer, pelo menos uma vez na vida, uma boa escolha.

Sons motivantes - Depeche Mode, Personal Jesus

4 comentários:

  1. Excelente post, tema muito pertinente, opinião que partilho totalmente e suprema banda sonora!!!

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  2. Concordo plenamente, Mak! Quais livros da tanga, quais quê! Não há nada como uns bons comprimidos para nos ajudar...

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  3. Eu costumo apostar num Auto-Bushmills-me. É de um autor irlandês, faz maravilhas, sobretudo dp de meia garrafa, recordo-me sempre daquele cão-guru Antonio Espera (em inglês) que diss: I rather prefer a bottle in front of me than a frontal lobotomie!"
    Tenho dito...bem, não fui que não sei falar Nglês, mas pronto.

    Aquela parte da banda sonora é que eu não estou muito de acordo, mas se quiseres, tenho disponibilidade para nos sentar-mos, em modo de auto-ajuda, eu-sirvo-o-meu-tu-serves-o-teu, e discutir o assunto.

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  4. Isso nem era preciso a campanha eleitoral... Mas, enfim, aceitam-se subornos tais como o adicionar-nos à concorrência pós-moderna de qualquer maneira. Isto há que respeitar os sintomas terceiro-munditas no que toca a votos, estamos em Portugal!

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