Desde a antiguidade ou, pelo menos, desde que um indivíduo de barba, sandálias e fama de milagreiro foi condenado, é comum ouvirmos uma frase proferida por muitos suspeitos de crimes – “Acredito na Justiça” ou, para o arguido dotado de maior vocabulário “Acredito plenamente na Justiça”.
É certo que esta bonita frase tinha na sua génese uma premissa bastante simples – Fui acusado, mas estou inocente. Sendo a justiça, como o nome indica, justa, basta-me acreditar nela, para saber que vou ser ilibado.
Tudo isso é muito bonito, mas o criminoso, que pela sua natureza é indivíduo dado a trafulhice, rapidamente percebeu “Espera, se eu, mesmo culpado até ao tutano, disser que também acredito na justiça, pode ser que pensem que estou inocente, incluindo a senhora da balança e dos olhos vendados.
Como é óbvio, perdeu-se o critério. Qualquer indivíduo acusado ou suspeito a primeira frase que diz mal lhe põem um microfone à frente começa por “acredito ou confio” e acaba em “justiça”. Quem se lixa são os juízes que, para além de mal pagos, são agora obrigados a desiludir gente que deposita total confiança nas suas decisões, desde que estas digam que são inocentes.
No entanto, em Portugal algo está a mudar. Há mais honestidade por parte dos realmente culpados, que agora podem dizer de forma completamente franca que acreditam na Justiça. Não porque sejam inocentes, mas porque sabem que a Justiça portuguesa há de arranjar maneira de os absolver. Seja por prescrição, escuta ilegal, facto inadmissível, catástrofe natural ou porque os acusadores são queixinhas, vale a pena acreditar na Justiça, porque ela é a melhor forma de sair em liberdade.
Visto isto, quem está agora lixado é o inocente que seja acusado ou dos lesados por crimes. Porque a estes também só lhes resta dizerem o mesmo que o verdadeiramente culpado, acender uma velinha e sujeitar-se ao olhar de desdém deste “Olha, já viram a lata destes. A usarem os mesmos truques que nós, depois não admira que demoremos anos a ser ilibados”.
Jovem crédulo e inocente que sou, eu também ainda acredito na justiça, mas ponho-a na mesma categoria que os casinos. É certo que há quem consiga sair a ganhar, mas são muitos mais os que ficam a perder. É tudo uma questão de sorte.
Transitando em julgado - Curtis Mayfield, Superfly
4.4.08
Justiça Postiça
Rasgo alucinado de
Sérgio Mak
at
11:16
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Provavelmente não vou ser original a dizer isto, mas escreves realmente muito bem. Chapéu!
ResponderEliminar@ macaca - Agradeço o comentário com uma pequena vénia e esticando um chapéu para recolher alguns trocos :)
ResponderEliminar@ restantes - O comment anterior não se deveu a suborno ou acto malicioso tipo oferta de cacho de bananas.
Eu acredito, plenamente, na justiça do comentário...
ResponderEliminarainda se fosse justiça castiça..;)
ResponderEliminarMak - Às vezes a oferta de uma só banana tem mais sucesso que um cacho..:)