28.4.08

Espera aí que o bus já vem.

Há já algum tempo que o pessoal da Carris achou que os transportes em si não eram motivo suficiente para gozar com a malta. Vai daí que, depois de alguns almoços da administração alguém avançou uma ideia, entre duas garfadas de doce da avó: “Então e se aproveitássemos para lhes atanazar a vida, até mesmo antes de eles entrarem num autocarro e lhes vendêssemos a coisa como um benefício”.

E foi assim que nasceram os placards com o tempo de espera até ao próximo autocarro. Não é preciso ser um génio para ver que o tempo é algo de muito relativo para aqueles placards. Dois minutos podem ser na prática dez e oito minutos de repente transformam-se em 1 minuto e logo em seguida em desilusão quando vemos que o autocarro que passou afinal não era aquele que pretendíamos e enquanto olhávamos para o motorista, o placard voltou a doze minutos.

É engraçado ver como muito mais gente fica mais dócil enquanto espera, quando tem um marcador para olhar, mesmo que este tenha a fiabilidade do Santana Lopes. Pelo que posso deduzir, o funcionamento da coisa tem a ver com uma estimativa da distância que separa o autocarro da paragem convertida em tempo de percurso. Ora, se isso até pode funcionar em condições óptimas, coisa que em Lisboa sucede com a mesma frequência da visita do Cometa Halley, nas situações comuns implica que dois minutos possam ser na realidade quinze, já que o Bus pode estar ali ao virar da esquina, mas o motorista ainda está a ser espancado por dois indígenas ou a tentar descolar um idoso da grelha da frente do veículo.

Por mim, dispensava a ajudinha. Gosto de me sentir enganado à moda antiga, sem suportes digitais.

Quanto a ti, leitor que há muito faz do cu tremido uma arte e sabes tanto de transportes públicos como de literatura afegã, deixo-te uma metáfora que sintetiza sumariamente a coisa: Sabes aquelas pessoas que chegam sempre atrasadas e te telefonam de dois em dois minutos a dizer: “Estou quase aí”, “Falta pouquinho” ou “Estou mesmo, mesmo, mesmo a chegar” e entretanto quase que já deu para ver um filme do Manuel de Oliveira? É a mesma coisa, mas sem teres que dares beijos ou abraços quando se encontram.

Sala de Espera - The animals, We gotta get out of this place

2 comentários:

  1. A mim por acaso ofereceram-me um best-seller de uma "escritora" afegã, mas continuo no mesmo nível de conhecimento da literatura deles... Mas gostasse eu de dramas da vida real sobre Burkas e abrangia os dois campos! :-P

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  2. Pela proximidade na hora de ponta, abraças, abraças...

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