É certo que a língua portuguesa evolui (ou regride) com o passar do tempo. Nalguns casos essa mutação é de estilo Chernobyl, noutros é simplesmente um adequar de expressões e palavras aos tempos modernos. De qualquer forma, nem sequer querendo entrar no acordo ortográfico para a unificação da língua portuguesa, incomodam-me certas “modas” que fazem com que determinadas palavras se tornem um must ou até mesmo top of mind, o que nos levaria ao passo seguinte que é o abuso de anglicismos desnecessários. Mas isso, for the time being fica em standby.
A palavra que me tem feito mais comichão do que as palavras do ministro Jaime Silva fazem ao Paulo Portas tem origem nos transportes colectivos. Antigamente, quando eu era pequenino, fascinava-me o termo “valide o seu título de transporte”. Dava assim um certo ar cerimonial a uma coisa que os comuns mortais motoristas traduziam por “pica lá o módulo pequenote ou ponho-te lá fora”.
Pois, tal como eu cresci, também o termo “validar” ganhou nova dimensão e é hoje um gigante na linguagem empresarial, uma espécie de Belmiro de Azevedo das palavras do mercado nacional.
Nada se faz sem ser previamente validado e tudo é inválido se a validação não corre bem. Os termos “confirmar”, “vê se está tudo bem” ou “verificar” perderam claramente quota de mercado e ponderam alguns deles concorrer à reforma antecipada. Se esta for validada é claro.
Para mim, “validar” continua a ser linguagem histórica de autocarro, eléctrico ou Metro. Aplicá-lo como se não houvesse amanhã na conversa de escritório ou no palavreado profissional para mim tem a mesma “validade” de uma porteira que ande todos os dias a lavar as escadas envergando vestidos Versace. Ou seja, é possível, mas claramente despropositado.
Como tal, surpreendam-me com termos inusitados, invalidem as minhas palavras à bruta, estilo malho da Feira Popular nos joelhos, mas poupem-me a “validar” argumentos. Para esse peditório eu já (invali)dei.
6.3.08
A (in)validez do palavreado
Rasgo alucinado de
Sérgio Mak
at
10:59
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Não há como usar os termos 'accionável' e 'endereçar', para ficar bem visto..;)
ResponderEliminarHá uns anos atrás, quando trabalhava na PT, "validar" era a palavra de ordem. Creio que esse tipo de terminologias vieram para Portugal à boleia com certas e determinadas empresas de consultoria e auditoria, cujo modus vivendi passa por fazer um brainwash pelos seus funcionários para depois invadir o mercado. Daqui a uns anos, vai acabar por ser uma espécie de "esperanto empresarial".
ResponderEliminarVocês falam falam mas de barriga cheia. Se estivem a trabalhar num sítio onde termos como "despacho", "ofício", "mandato", "estatuto", "regulamento", "requisição", "boletim" fazem furor, aí eu queria ver se denegriam "validar" com esta ligeireza!...
ResponderEliminarO carnaval já passou...
ResponderEliminarbem visto, eu é q sou um bocado duro de ouvido :)
ResponderEliminarAcho que temos aqui um "boy of the job" entre nós.
ResponderEliminarEu até concordo com o que ali está escrito, Mak. Mas... "invalidem as minhas palavras à bruta, estilo malho da Feira Popular nos joelhos", parece-me um tanto ou quanto violento.
ResponderEliminarSou dado ao dramatismo e, ocasionalmente, à filatelia. É o meu fado...
ResponderEliminarEu, que tb já trabalhei na PT, confirmo que validar está lá (seguido de duas pancadas com o punho no peito)...:)
ResponderEliminarAliás, colaborador que não use anglicismos numa conversa com o Zeinal vai logo para o olho da rua no dia seguinte.
ResponderEliminarDepois há aqueles termos e expressões específicas de cada sector/ramo de actividade. Como que se cada profissional especializado reclamasse para si a arte do seu mister puxando de um palavrear próprio e exclusivo, que o distingue do resto da escumalha:
ResponderEliminarNa empresa de telecomunicações, telemóvel passa a "equipamento";
na boca do informático, computador passa a "máquina", para o homem do café, torradeira passa a "infra", para o músico, um disco chama-se "trabalho" e uma música chama-se "tema" ("tocar ou cantar uma música" é o que dizem os parolos. Os músicos a sério dizem "fazer um tema"); na lojista do pronto-a-vestir, as calças são "calça", os sapatos nunca "servem", "calçam bem"; para o chef, uma frigideira (ou sertã) passa a "sauté", para um homem que trabalhe com cores (do homem que põe a alcatifa ao alfaite), cinzento é "antracite", para o electricista, volt é "lampada" (220 lampadas).
Se entrarmos nos dominios da gestão, então a lista torna-se infindável...os algicanismos são de rebolar.
(Nas senhas de autocarro sempre me encantou muito o "obliterar")
Abraços!
Mendes
www.oblogdomendes.com
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