6.3.08

A (in)validez do palavreado

É certo que a língua portuguesa evolui (ou regride) com o passar do tempo. Nalguns casos essa mutação é de estilo Chernobyl, noutros é simplesmente um adequar de expressões e palavras aos tempos modernos. De qualquer forma, nem sequer querendo entrar no acordo ortográfico para a unificação da língua portuguesa, incomodam-me certas “modas” que fazem com que determinadas palavras se tornem um must ou até mesmo top of mind, o que nos levaria ao passo seguinte que é o abuso de anglicismos desnecessários. Mas isso, for the time being fica em standby.

A palavra que me tem feito mais comichão do que as palavras do ministro Jaime Silva fazem ao Paulo Portas tem origem nos transportes colectivos. Antigamente, quando eu era pequenino, fascinava-me o termo “valide o seu título de transporte”. Dava assim um certo ar cerimonial a uma coisa que os comuns mortais motoristas traduziam por “pica lá o módulo pequenote ou ponho-te lá fora”.

Pois, tal como eu cresci, também o termo “validar” ganhou nova dimensão e é hoje um gigante na linguagem empresarial, uma espécie de Belmiro de Azevedo das palavras do mercado nacional.
Nada se faz sem ser previamente validado e tudo é inválido se a validação não corre bem. Os termos “confirmar”, “vê se está tudo bem” ou “verificar” perderam claramente quota de mercado e ponderam alguns deles concorrer à reforma antecipada. Se esta for validada é claro.

Para mim, “validar” continua a ser linguagem histórica de autocarro, eléctrico ou Metro. Aplicá-lo como se não houvesse amanhã na conversa de escritório ou no palavreado profissional para mim tem a mesma “validade” de uma porteira que ande todos os dias a lavar as escadas envergando vestidos Versace. Ou seja, é possível, mas claramente despropositado.

Como tal, surpreendam-me com termos inusitados, invalidem as minhas palavras à bruta, estilo malho da Feira Popular nos joelhos, mas poupem-me a “validar” argumentos. Para esse peditório eu já (invali)dei.

11 comentários:

  1. Não há como usar os termos 'accionável' e 'endereçar', para ficar bem visto..;)

    ResponderEliminar
  2. Há uns anos atrás, quando trabalhava na PT, "validar" era a palavra de ordem. Creio que esse tipo de terminologias vieram para Portugal à boleia com certas e determinadas empresas de consultoria e auditoria, cujo modus vivendi passa por fazer um brainwash pelos seus funcionários para depois invadir o mercado. Daqui a uns anos, vai acabar por ser uma espécie de "esperanto empresarial".

    ResponderEliminar
  3. Vocês falam falam mas de barriga cheia. Se estivem a trabalhar num sítio onde termos como "despacho", "ofício", "mandato", "estatuto", "regulamento", "requisição", "boletim" fazem furor, aí eu queria ver se denegriam "validar" com esta ligeireza!...

    ResponderEliminar
  4. O carnaval já passou...

    ResponderEliminar
  5. bem visto, eu é q sou um bocado duro de ouvido :)

    ResponderEliminar
  6. Acho que temos aqui um "boy of the job" entre nós.

    ResponderEliminar
  7. Eu até concordo com o que ali está escrito, Mak. Mas... "invalidem as minhas palavras à bruta, estilo malho da Feira Popular nos joelhos", parece-me um tanto ou quanto violento.

    ResponderEliminar
  8. Sou dado ao dramatismo e, ocasionalmente, à filatelia. É o meu fado...

    ResponderEliminar
  9. Eu, que tb já trabalhei na PT, confirmo que validar está lá (seguido de duas pancadas com o punho no peito)...:)

    ResponderEliminar
  10. Aliás, colaborador que não use anglicismos numa conversa com o Zeinal vai logo para o olho da rua no dia seguinte.

    ResponderEliminar
  11. Depois há aqueles termos e expressões específicas de cada sector/ramo de actividade. Como que se cada profissional especializado reclamasse para si a arte do seu mister puxando de um palavrear próprio e exclusivo, que o distingue do resto da escumalha:

    Na empresa de telecomunicações, telemóvel passa a "equipamento";
    na boca do informático, computador passa a "máquina", para o homem do café, torradeira passa a "infra", para o músico, um disco chama-se "trabalho" e uma música chama-se "tema" ("tocar ou cantar uma música" é o que dizem os parolos. Os músicos a sério dizem "fazer um tema"); na lojista do pronto-a-vestir, as calças são "calça", os sapatos nunca "servem", "calçam bem"; para o chef, uma frigideira (ou sertã) passa a "sauté", para um homem que trabalhe com cores (do homem que põe a alcatifa ao alfaite), cinzento é "antracite", para o electricista, volt é "lampada" (220 lampadas).

    Se entrarmos nos dominios da gestão, então a lista torna-se infindável...os algicanismos são de rebolar.
    (Nas senhas de autocarro sempre me encantou muito o "obliterar")

    Abraços!

    Mendes
    www.oblogdomendes.com
    www.viriatoebarcelos.com
    www.partemtudo.com

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.