4.3.08

De boas intenções está a arte cheia

Apesar de ter desistido da carreira de leiloeiro de obras de arte cerca de três minutos depois de ter pensado em começá-la, o meu interesse por esta temática encontra rival apenas no Subbuteo.
O que me fascina na arte, especialmente na contemporânea/moderna é o facto da premissa ser cada vez mais focada na “intenção” do artista. Se o episódio do lavatório rachado que também era obra de arte, cujos bocados foram posto no lixo de uma galeria por uma empregada da limpeza é conhecido por muitos e ainda hoje me faz rir, o processo como esse lavatório se transforma em obra de arte será também porventura risível.
Não pretendendo pôr em causa o valor de instalações inovadoras, incluindo a famosa “Racha” de Doris Salcedo, sobre a qual já divaguei lá mais para trás, não são as peças em si que me chateiam, são as intenções.

Digamos que um artista resolve começar a fazer instalações com peças de fruta com a marca de uma dentada. Ok, estranho mas aceito, pode ser inusitado além de dar dores de barriga. O jovem decide dar uma intenção à obra, classificando-a como “O desperdício de recursos pelos povos abastados, que preferem deitar fora os seus excedentes e inutilizá-los com a sua marca, ao invés de partilhá-los com aqueles que deles têm falta”. Aí o caldo já começa a entornar, pois é tão fácil dizer isto como por outro lado alegar que são “Os danos infligidos pela humanidade à Natureza, que fazem com que seja impossível voltar atrás, rumo à destruição progressiva do meio que nos garante a sobrevivência”.
Nos meus circuitos algo danificados a questão passa por isto: é mais fácil criar uma intenção, de forma a fazer com que as pessoas se identifiquem com uma peça, do que deixá-la simplesmente ser e cada um que decida o seu valor/interesse. Nem toda a arte tem que ser coerente digo eu e se existem coisas nesta vida que podem ter valor sem ter significado concreto, porquê trivializá-las com conceitos que qualquer mafarrico com imaginação pode inventar na hora.

No entanto, visto que me assumo como mafarrico com imaginação e fechando o círculo em relação ao tema dos leilões de arte e à fortuna pessoal que pretendo acumular, deixo uma proposta. Se és artista e pretendes dar significado aos potes de cerâmica ligeiramente defeituosos que fabricas no forno da tua avó ou fazes bonitas obras com aparas de lápis mas não fazes porra de ideia do que aquilo pode representar, contacta-me. Vais ver que tão facilmente vendo os meus princípios, como as tuas obras vão começar a sair como pãezinhos quentes, assim que a tua intencionalidade se reflicta como “A forma como a ausência de transmissão do conhecimento de geração em geração, faz com que a imagem do que é tradicional seja cada vez mais deformada pela falta de envolvimento das novas gerações” ou “Os despojos, a floresta e o homem. O cruzamento do progresso com os materiais que em tempos constituiram a riqueza da Natureza rumo a um futuro sem forma”.

Como vêem é fácil, diria até muito mais fácil do que dar a qualquer post deste blog uma intenção que lhe confira algum valor acrescentado. Nesse aspecto, acho que não há arte nem engenho que me valha.

6 comentários:

  1. Bravo em todos os aspectos, pôs em palavras o que muitas vezes tenho dificuldade em exprimir. É que nem são as obras, mas se alguns destes artistas estivessem calados...a obra até falava sozinha...assim, nem um nem outro. Da coerência na [obra de] arte, dava uma bela tese. Os artistas sim, têm q ser coerentes, as obras...

    "Nem toda a arte tem que ser coerente".

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  2. Essa do lavatório.. Tss, tss. :)

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  3. Esse tipo de arte tb me irrita.
    É uma arte preguiçosa que tenta fazer do observador, parvo.
    Vi num museu (de arte contemporânia) em Barcelona um video de x minutos só com imagem de uma faca de cozinha em grande plano (havia filas de cadeiras em frente e tudo), na sala ao lado tinha outra tela só com um cão a ladrar, sem falar nuns auscultadores onde se ouvia uma luta de gatos. A não ser k aquilo fosse para os apanhados, é difícil reconhecer mérito.
    Há ainda os artistas conceituados que acham (e têm razão) que qualquer coisa que façam vai ser admirado, tipo este quadro de Juan Miró intitulado "cabelo perseguido por 2 planetas" http://photos1.blogger.com/blogger/2476/2243/1600/miro7.jpg
    Granda Miró!

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  4. São todos uns grandes artistas, é o que é..;)

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  5. Bom, "esse tipo de arte" não me irrita nada. Só me irrita, por um lado, uma certa irresponsabilidade de [in]competências, por outro, a sensação de que me "estão a dar baile", que me querem enganar.
    Só para desmistificar, pelos vistos, a ideia q ficou da minha opinião.

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  6. Eu acredito q nem tudo é feito com uma consciência "enganadora", mas também penso que tal como disse, é muito fácil atribuir um significado a algo, mediante um dado interesse.

    Mais difícil é definir um conceito antes de começar e depois materializá-lo.

    Mas pronto, não é um campo imutável.

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