26.2.08

Este país não é para alguns velhos

Como o título indica, começo o texto com um pequeno apontamento cinematográfico. Tem a ver com o facto de os senhores da TVI não perceberem muito bem para que serve um compacto dos “Óscares”. Por norma, um compacto é um resumo do essencial da cerimónia, transmitido para que ratos como eu, que abandonam o barco do directo às primeiras horas da madrugada, possam ter a satisfação requentada de ver o que toda a gente já sabe no dia seguinte.
Transmitir esse compacto à uma e meia da manhã é idiota, não só porque não serve os meus propósitos, mas também porque se um directo até às cinco da manhã ainda seduz alguns, um compacto até às três e tal… Por isso, obrigadinho ó Moniz e desejo para ti e para os teus um penteado igual ao do Javier Bardem no filme premiado no certame. O que, para alguns, ainda deve ser uma clara melhoria.

Noutro registo, este título tem a ver com o facto de nas próximas chuvas diluviais eu estar disposto a juntar uma carrinha de eternos insatisfeitos com tudo e mandá-los para a ribeira mais raivosa que se destacar.
Quando Moisés caminhava junto às águas, o Senhor falou-lhe dos transportes colectivos e deu-lhe algumas regras básicas para o funcionamento dos mesmos, que Moisés apontou nas costas do seu cartão Lisboa Viva. Não sabendo muito sobre religião, sei que um dos mandamentos dos transportes diz:
“Mandarás pararar o autocarro que se aproxima, se nele desejares viajar”.
Se é verdade que muito mudou, esse princípio continua em vigor, pelo que tive dificuldades em perceber um episódio a que assisti ontem. Estava eu numa paragem, quando se aproxima um autocarro, em marcha lenta. Não me interessando o destino do mesmo, permaneci imóvel, tal como o resto do pessoal na paragem. Só quando o dito cujo já vai a passar a paragem é que uma senhora entradota e anafada, portadora do típico botim a la Robin dos Bosques, decide parar de galhofar e fazer um gesto, seguida por outra que decide saudar a traseira do autocarro, levantando-se. Como é óbvio, ficaram à espera do próximo.
Até aí tudo bem, tirando que pelos vistos a senhora dos botins era tia do Carvalho da Silva. Toca de começar a dizer que era uma vergonha, que só lhe tinha faltado pôr debaixo do autocarro para ele parar, que já não havia respeito e eu a ver que ela já estava a tirar uma pá da mala para desenterrar o Salazar logo a seguir.
Apesar de pensar que todos tinham visto que, neste caso, a culpa era mesmo da distracção das velhotas, levantou-se o óbvio burburinho típico destas ocasiões, em que o que é preciso é linchar verbalmente alguém para animar o dia. Só a velhota que se tinha levantado tardiamente permanecia calada. Pensei, coitada, esta que até está caladinha na volta é a que mais transtorno lhe faz e não está a reclamar, nem que fosse para aquecer. Pensei cedo demais…
De repente, como se possuída pelo espírito de Chucky, o utente dos transportes públicos diabólico, a velhota levanta-se novamente e começa a vociferar alto e bom som:
“O problema é que eles são mal amados em casa e depois vingam-se nas pessoas. As mulheres não lhes dão o que eles querem e depois quem paga somos nós. Não souberam escolher, são mal amados e vêm para a rua desforrar-se”.
Silêncio na paragem, atmosfera Freudiana ao rubro e tudo a entrar à pressa no próximo autocarro, tendo eu ideia que muitas pessoas nem se preocuparam a ver para onde é que este ia.
Ficou apenas para trás a velhota Chucky. Que num ano em que tanto vilão foi destacado nos Óscares, tinha potencial para ombrear com qualquer um. E mostrar-lhes quem é que é mal-amado à bruta…

6 comentários:

  1. Transportes públicos à parte, gostaria de perguntar porque é que este filme teve este reconhecimento todo?! Ok, eu vi e gostei. Mas apenas isso. Agora ser o melhor filme do ano...

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  2. lolllllllllllllllllllll
    Nunca tinha ouvido uma argumentação dessas por parte de utentes zangados!Mas é uma boa argumentação. Essa e a de não terem sido amamentados em bebéss, que deve ser o caso dessa senhora.

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  3. @ sff - Depois do Titanic, qualquer credibilidade em destacar filmes "do ano" passou à história.

    @ leididi - É essa capacidade de inovar e criar novos conceitos entre utente que me mantém fiel aos transportes públicos.

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  4. Mak, mas já viste o filme? O que achaste mesmo?

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  5. bom, já sabemos quem será a actriz convidada para a continuação da saga "este país não é para velhos"


    (dizem que é só violencia)

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  6. Sempre foi muito dos portugueses "mandar vir" em vez de reclamar com razão, ou sequer importar-se o suficiente para fazer qq tipo de crítica construtiva. Esse episódio na paragem é tipico, já assisti a semelhantes na fila do centro de saúde, na fila das finanças, na fila da segurança social...talvez o melhor que o governo podia fazer para calar o "Zé Povinho" era abolir todas as filas para evitar o ajuntamento de cidadãos descontentes que poderam potenciar possiveis manifestações expontaneas, sem que para tal se tenha que gastar dinheiro em correntes de sms mobilizadoras!!

    Infelizmente parece que o governo é o pior reflexo da real sociedade Portuguesa. Reinam os estúpidos apenas porque são mais... é triste.

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