31.1.08

Ponto de fuga – Perspectiva de um tigre

Certamente já toda a gente ouviu falar do episódio ocorrido ontem na zona da Azambuja, em que uma população inteira aterrorizou dois tigres que, por azar, resolveram aproveitar de maneira diferente a folga concedida pelo circo Chen.
Sem querer melindrar os moradores da região, é preciso ver que estavam seis tigres na jaula que alguém abriu, só pelo regabofe, enquanto o motorista do camião ia buscar umas águas e umas bifanas para os bichanos, que esperavam pela assistência em viagem. Quando quatro tigres preferem ficar numa jaula com vista para uma vida de cativeiro ultrajante no circo, em vez de ir explorar o mundo lá fora ou, em alternativa, a Azambuja, isso quer dizer alguma coisa.
Quanto aos dois ursos, perdão tigres, que efectivamente decidiram conhecer a Azambuja, cedo sentiram no pêlo a desilusão. A oferta cultural não era muita, o museu Sebastião Mateus Arenque e a Biblioteca Municipal ficaram um pouco aquém das expectaivas dos dois tigres e a Routa dos Mouchões exigia uma preparação física que a vida de circo não lhes proporcionou.
Ainda pensaram em ir ao Carregado, dar um salto ao Campera em época de saldos, mas a perspectiva de encontrarem leoas famintas de preços baixos e ursos parvos à procura de grandes promoções desmotivou-os, assim como a fraca rede de sinalização viária.
Depois de constatarem que, ao invés de uma zona chique como a Expo, a liberdade lhes tinha dado uma prenda envenenada em forma de Azambuja, para os pobres tigres a solução era óbvia ainda que humilhante, regressar e serem alvo da chacota dos quatro felinos mais avisados.
Um deles, atento às notícias, resolveu comprar um maço de cigarros num quiosque local, cujo dono estranhou apenas que os desfiles de Carnaval começassem tão cedo e foi fumar para um café local. Rapidamente foi apanhado, já que a ASAE entrou em acção, autuou o café, o dono do quiosque por vender tabaco a um menor de 18 anos, o motorista do camião jaula por ter ido comprar água num recipiente não licenciado e o dono do Circo, por não ter uma jaula com extracção de ar para tigres fumadores.
O outro, desiludido ao extremo pela amargura da liberdade e também pela arquitectura urbana desta região ribatejana, tentou suicidar-se de modo moderno, auto-mutilando-se em arame farpado, como tinha visto uns miúdos fazerem numa reportagem da Sic Notícias. Não só falhou miseravelmente, como ainda teve que aguardar que o INEM, os bombeiros da Azambuja, a Protecção Civil do Ribatejo, a Câmara Municipal e o Zoo de Lisboa decidissem, através de um jogo da malha, quem é que o iria buscar, coisa que só aconteceu depois da ASAE multar toda a gente por jogo em zona ilegal e o dono do Circo, por não ter embalado o sangue perdido pelo tigre em sacos de plástico devidamente identificados.

Termina-se esta parábola com um aviso a todos os animais selvagens de bom porte e um ou dois racionais que passem por aqui. Caso pretendam fugir, escolham um concelho passível de vos dar (e nos dar) o entretenimento que merecem. Menos do que isso e quem sai a ganhar são sempre os mesmos: a ASAE.

Fuga em frente - Kula Shaker-Hush

1 comentário:

  1. Realmente foi um acontecimento peculiar!

    Esta imagem também diz muito retrata bem o incidente ahahah

    http://www.caoazul.com/loja/popup_image.php?pID=1116

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