2.1.08

Entradas a pés juntos

Eis que começam mais 365, perdão 366 dias (que este ano é bissexto) de regabofe. E, porque de doces, cumprimentos bacocos, descrições fastidiosas de passagem de ano e mensagens foleiras já estamos todos fartos, nada como um bom azedume para desenjoar.
Assim sendo, visto que nesta altura é comum falar-se de boas entradas, pensei que seria interessante falar de portas, mais propriamente uma bonita invenção que se chama Porta65. Que o Estado é pródigo em inventar coisas que na teoria servem para ajudar, mas que na prática só complicam já era do conhecimento comum. No entanto, agora parece que alguém resolveu dotar essas mesmas coisas com algo a que se chamam requintes de malvadez.
A especulação imobiliária, que se vê tanto nas vendas como também nos alugueres de imóveis sempre foi delirante e com esta história do Porta65, verifica-se que o delirio já alastrou ao “apoio” ao arrendamento jovem. “Apoio” entre aspas, porque segundo as novas normas é mais fácil assaltar um banco do que conseguir essa “ajuda” nos grandes centros urbanos.
Começa pelo facto de agora todo o processo de candidatura ser realizado online. É óptima a simplificação via novas tecnologias, mas também afunila um processo novo e cheio de particularidades, garantindo ao interlocutor (Estado) um refúgio para não ter que ver e lidar directamente com a rapaziada em estado de choque quando começa a perceber o logro da Porta65.
O cruzamento com a identificação das Finanças é compreensível, para evitar os esquemas do costume por parte da canalhada, mas não foi contemplada uma opção para evitar os esquemas do costume por parte do Estado, o que para mim é uma falha estrutural grave.
Embora na Covilhã, Condeixa ou Penamacor os arrendamentos possam ainda estar num limite real, 340 Euros por um T1 em Lisboa não me parece ridículo, apenas porque ridículo é uma palavra limitada demais para tamanha irrealidade (a título de curiosidade, 550 euros é o limite máximo para t2-t3 e 680 Euros para t4-t5). Já que o intuito é ajudar, o Estado também podia fornecer um directório de habitações onde os jovens poderiam encontrar essas rendas, sem ser num t0 na cave de um armazém nos arredores da Amadora.
O mais engraçado é que quando não é pelo valor da renda, o jovem ainda pode ser tramado pelos seus rendimentos, já que a taxa maxima de esforço permitida é de 40%, ou pelo facto de não viver acompanhado (conheço um exemplo em que alguém depois de conseguir o milagre de arranjar um T1 por 340 euros, através de 30 esquemas e 800 rezas, deve ficar de fora da Porta porque vivendo sozinho só poderia concorrer a um T0 nas condições disponíveis.
Com tanta benesse junta, não é de admirar que o limite seja de dois anos consecutivos, que os beneficiários sejam obrigados a renovações periódicas e que o apoio possa ser cancelado no caso de irregularidades, como na volta ter água canalizada e esquentador em casa.
De facto, só depois de ler um bocado sobre isto é que percebi a criatividade mórbida do nome Porta65. O 65 refere-se à idade com que um jovem consegue sair de casa dos pais, graças a fenómenos como os juros do crédito habitação sempre a subir e a incentivos destes a bloquear a porta.

Música sem abrigo – Madness / Our House

2 comentários:

  1. Eu acho que nessa altura os papás do menino ou da menina já viraram terra para adubar os vasos do cemitério.
    Então imagina eu que ganho um pouco mais que o rendimento mínimo! Só tenho a independência ao 99 anos de idade e é para ir direitinha para a "caixinha de madeira".

    Bom ano minha gente!

    ResponderEliminar
  2. Coisas destas só mesmo em Portagal!...

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.