27.12.07

Ainda o Furacão Nicolau

Então esse Natal? Muitas prendinhas? Não precisam de responder, não é uma questão de interesse ou cortesia, foi apenas uma attitude reflexa, já que é com estas duas perguntas que vou ser metralhado até à próxima 4a feira, altura em que serão substituídas por mais dois grandes exercícios de originalidade: “Então essa passagem de ano? Grande festança?”.
Para lidar pela última vez com este fenómeno natalício, ficam os apontamentos devidos à época, para vos iluminar sobre factos que certamente desconhecem:

- As pessoas comem até rebentar, especialmente doces, para compensar ou punirem-se de uma de duas coisas: despesismo desmesurado em prendas ou amargura desenfreada pela bosta que receberam no sapatinho.
- Antigamente havia o postal de Natal foleiro e o (raro) postal de Natal engraçado. Hoje em dia, existem toneladas de sms de Natal tão engraçadas que não sei porquê me parecem todas foleiras.
- Ainda as sms. O esforço bacoco de enviar uma mensagem igual à que 10 pessoas enviaram nos últimos 20 minutos não valoriza os 2 cêntimos que se gastaram nelas e não faz pensar quão extremosa e afectuosa e dedicada é a pessoa que se deu a esse trabalho.
- Papel de embrulho, o desperdício final. Ponto um, se a prenda é surpresa o efeito funciona se a trouxer desembrulhada ou, vá lá, num saquinho festivo ou do Leroy Merlin se quiserem causar sensação. Ponto dois, se não é surpresa, para quê criar uma falsa expectative através do papel de embrulho.
- O Noticiário de Natal. Não há muito para dizer na véspera e no dia de Natal. Por isso, se não há eventos de maior, para quê mostrar-nos os top20 de acidentes de Natal ou espancamentos de padres em Alijó. Mais valia dizer, amanhã há mais, hoje passamos já ao circo ou ao filminho da praxe que é para não aumentar ainda mais o risco de congestão.
- A terminar, apesar de ainda haver muito mais para vomitar sobre o assunto: a caridade. Eu preferia que a malta fosse caridosa e solidária o ano inteiro, reservando 15 dias em Dezembro para fingir que não é consigo, que não sabe de nada e que tem mais do que fazer. A maioria prefere o contrario, siga para bingo.

Jingle Bells – Off / Gotan Project – El Capitalismo Foraneo - On

19.12.07

Eu não Metro lá os pés

Com um ligeiro atraso de cerca de dez anos, abre hoje a ligação da linha azul do Metro ao Terreiro do Paço e Santa Apolónia. Para além de providenciar acesso directo ao Lux por parte dos cidadãos da Pontinha, Carnide e Amadora, traz de novo a Lisboa a promessa de diversão dos parques aquáticos, algo que caiu em desuso depois da tragédia do Aquaparque.
Podem vir ministros dizer que era nesse túnel que se iam esconder em caso de terramoto, podem demonstrar-me que a dupla cofragem é praticamente invulnerável, mas o facto é que num país em que boa parte dos projectos derrapam e metem água até serem concluídos, porquê testar a sorte e ir enfiar-me dentro de um que o fez literalmente durante muitos e bons anos…

E tu, pensas ir conhecer a fauna marítima do Tejo no novo percurso do Metro?


Som de fundo (do rio) - Smoke City - Underwater Love

17.12.07

10 Aleluias para sobreviver ao Natal

Pode parecer obsessivo, mas para qualquer lado que eu olhe parece-me que vejo o espírito de Natal a olhar para mim nas suas 10 mil manifestações. Como eu não aprecio olaria nem me chamo Demi Moore e acho que ele não se chama Patrick Swayze, pode dizer-se que não há assim grande amor entre nós.
Mas, sendo obrigado a conviver e a lidar com isso mais uma semana, data em que o espírito de Natal cede o seu lugar ao não menos enjoativo frenesim de Ano Novo, tomei a liberdade não de providenciar Ferrero Rocher, mas sim de debitar umas linhas para quem também tenha de fechar os olhos e rezar para que isto passé depressa:

1 – Faça as compras de Natal com headphones. O facto de perder alguns momentos de sentido convívio com lojistas e um ou outro familiar que o insista em acompanhar não vale aquilo que poupa à sua audição em termos de medleys de Natal duvidosos e a habitual selecção musical criteriosa das lojas modernas de roupa.

2 – Não se sinta tentado pela caridade. Com a chusma de organizações, peditórios, desgraçados, sem-abrigo, com-abrigo mas à rasca, gente doente, gente que parece estar doente, refugiados e artistas de ocasião que lhe vão aparecer pela frente, há fortes possibilidades de no fim de ajudar metade desta gente seja a sua vez de começar a pedir ajuda.

3 – Use a contra-informação para lançar o caos entre os seus entes queridos e dar algum gozo à quadra. Fingir que se sabe a prenda que alguém vai receber, dar opiniões sobre o que alguém pensa dar e semear a dúvida nas mentes de quem está mais adiantado do que você nas compras de Natal não vai resolver os seus problemas, mas faz com que não se sinta tão sozinho nos mesmos.

4 – Em caso de dúvida, compre uma coisa que a pessoa já tenha. Não se esforce, poupe as suas energies e compre algo que tenha a certeza que a outra pessoa já tenha. Assim, em vez de oferecer uma merda qualquer, dá à oportunidade de ser a outra pessoa a ter o trabalho de ir procurar aquilo que quer quando for trocar a sua prenda.

5 – Vá às compras sozinho. Tudo bem que vai ter que suportar a sua própria companhia sem ajuda, mas também não tem de triplicar o tempo que anda às voltas porque os seus amigos têm 200 sobrinhos para apaziguar ou ter que ver olhares reprovadores quando troca os preços das canecas no Continente para oferecer à sua avó.

6 – Seja racional, não deseje Feliz Natal na loja dos chineses. Eles só o celebram em termos de facturação, porque de resto a época não lhe diz nada e além disso a poupa a irritação de cidadãos que, como eu, pretendem escolher calmamente a prenda para a mãe.

7 – Tente limitar o volume de compras para não pôr em causa a integridade física das pessoas com quem se cruza. Pense bem na sua figura, quando tenta carregar 48 prendas ao mesmo tempo, incluindo a árvore de Natal prateada que achou o máximo para ficar ao pé dos seus cães de loiça na sala. Não só parece um repositor de hipermercado, como pode causar fracturas expostas e escoriações graves naqueles com quem se cruza, mas os quais não vê e apenas ouve devido aos gritos de dor.

8 – Não fale das tormentas que já passou para comprar a prenda para o seu xipitipu ou a sua xipitipinha. Todos sofremos à nossa maneira, não precisamos de agonizar também com a sua história.

9 – Não se gabe do dinheiro que gasta no Natal. Ninguém o vai valorizar mais por isso e apenas vai aumentar o gozo dos restantes quando lhe vierem arrestar os bens em Fevereiro, devido aos dez créditos mal parados que coleccionou nos últimos anos.

10 – Escapatória de leste. Caso não suporte mesmo fazer compras no Natal, diga que é católico ortodoxo e ganhe mais 20 dias para fazer as compras pós buliço, já que esta malta celebra o seu Natal sensivelmente a meio de Janeiro. Para além de ser uma boa desculpa, ainda lhe permite avaliar bem o valor das prendas que recebeu e agir em conformidade.

Quem é mais melhor bom que o Pai Natal quem é?

Para lutar com o stress das compras - Paul Anka - Eye of the tiger

13.12.07

Momices da nossa língua

Quando fui convidado a fazer parte deste espaço, na sequência de uma dívida de sangue do autor para comigo, disseram-me que este era um espaço literato, onde users de espírito distinto confraternizavam sob o tecto dos mais interessantes temas.
Tendo a clara noção de que tudo isso era, como dizem na minha terra, um chorrilho bárbaro de mentiras, resolvi aceitar à mesma pois, apesar de não ser mulher, tenho a convicção de que sou capaz de fazer a diferença para tornar algo melhor, ainda que seja mais fácil cumprir a premissa em relação a um blog do que a um homem.
Mas, o que me traz aqui hoje são dúvidas que não falam dos sexos opostos, mas sim sobre dois temas que me são caros: lingua portuguesa e animais, enquanto entidades distintas que se cruzam.
Assim sendo, alguém me explica a origem ou lógica das seguintes três expressões:

- Cair que nem um patinho - Há alguma razão para os patos sofrerem maiores desequilíbrios que os outros animais? Será porque cedem facilmente a entrar na banheira com pessoas nuas?

- Ficar como boi a olhar para palácio – Embora o mais próximo que tenha observado tenha sido um politico a olhar para um palácio, não percebo o porquê deste animal simbolizar o espanto nesta expressão, em vez de por exemplo, “como um rodovalho a olhar para um palácio”.

- Bem podes tirar o cavalinho da chuva – Se eu quero convencer alguém de alguma coisa, porque raio é que levaria um cavalo comigo para o fazer. É uma cena de fetiche? E, se o interessado sou eu, que me faz diferença se o cavalo não tem garagem para ficar com o mau tempo… Ainda assim, nos dias de hoje, não valeria mais a pena dissuadir alguém com “Bem podes tirar o Fiat Punto do parque” ou “Bem podes ir mas é comprar uma Bimbi”? Deixem lá os equídeos em paz.

Despeço-me com a seguinte notícia: o New York Times, na sua lista de lugares a visitar em 2008, colocou Lisboa em segundo lugar. Depois do Euro2004 e do Mundial2006, é triste verificar que mais uma vez morremos na praia ou, neste caso, no Laos. O único consolo é que ficámos à frente de gregos e franceses, algo que vou comemorar bebendo o mesmo que os tipos que fizeram artigo beberam ao fazer a classificação.

A ouvir em 2008 ou qualquer altura - Calexico - Close Behind

11.12.07

Nem tudo o que é Bueno é bom

Depois de um fim de semana de profunda reflexão, em que este blog ficou dominado por uma aura mista (não confundir com mística) de bondade e lirismo, cortesia do nosso novo colaborador The Gud, é chegada a altura de responder à escumalha que nos rodeia.
Diziam os antigos, Kinder é Bueno e Bueno é bom. Talvez pela sua inocência se chamem mesmo “os antigos”, já quem em tempos modernos este tipo de Kinder é tudo menos Bueno e, como tal, ainda menos terá algo de bom.
É a vida” intitula-se o caldeirão onde despeja a sua verborreia, com assomos delirantes de grandeza, manchando de vergonha os que com ele partilham o espaço. De facto, a expressão “é a vida” resume na perfeição a tolerância a que somos obrigados para, dia após dia, ir lendo a sua verve insane que faz da Internet um lugar pequeno para nos tentarmos abstrair do fedor que emanam as suas palavras.
Sem entrar no capítulo da ofensa pessoal, este anormal diverte-se sugerindo gadgets profanos para o Natal, olhando de baixo para cima ao gozar com pessoas de parca estatura e tentando atentar de forma tonta a quem lhe dá protagonismo ao permitir neste espaço um link para o seu blog, mais por respeito aos seus colegas do que pelo fel que destila.
Não Sr. Kinder não me baixo ao seu nível para lhe dar uma resposta com o mesmo teor de barbaridades que utilizou para tentar manchar o meu nome. Essencialmente porque a rectidão da minha coluna vertebral não mo permite, mas também porque não tenho o hábito de passear nos esgotos. Aliás, não é surpresa Kinder que esperava mais cedo ou mais tarde esta reacção, pois o Natal desperta o que há de melhor nas pessoas e sei que certamente o que escreveu é o mais alto a que pode aspirar.
Sossegue a pedra que tem no lugar de coração, pois a sua sorte é que não tenho o desprazer de me cruzar consigo numa base diária, coisa que infelizmente não se verifica em termos bloguísticos.

Um grande bem haja,

Mak

Música que diz muito sobre si - Rollins Band - Liar

7.12.07

Hoje

Há dias que são pequenos demais para conseguir escrever sobre tudo o que quero. De maneira inversa, há outros que são grandes demais para serem descritos em palavras. Este é um deles.


Para ouvir de olhos fechados - Ritchie Valens - Sleep Walk

6.12.07

Natalidade mortal

Caso ainda não tenham reparado através da publicidade desmesurada, da iluminação exagerada ou do cheiro a consumismo desenfreado, eis uma grande novidade: o Natal está aí à porta. Pela minha parte, o sacana bem pode morrer de frio à espera que eu a abra, porque para esse peditório eu já dei.
“Epá, mas esta época do ano é tão linda!” dirão vocês, enquanto escolhem um bonito papel de embrulho com ursinhos para as vossas prendinhas e ajeitam com carinho a corda no pescoço ao olhar para o saldo bancário. A verdade é que, segundo um estudo desta empresa de pinguins consultores, em média cada português torra 600 euros no Natal, entre prendas, festas e 1001 maneiras de encher o bandulho.
Se isto fosse a Suécia, para além dos benefícios que isso poderia trazer em termos do preço do salmão fumado e da % de loiras naturais, este facto não me chocaria muito. Mas, num país onde deve haver mais pessoas endividadas do que com a instrução primária completa, a coisa anda perto dos limites da insanidade.
Possivelmente o erro também vem de uma interpretação errada do conceito “O Natal é uma época de valores”. Tenho em mente que a coisa se referia a outros valores que não os da carteira, mas provavelmente custa mais ser boa pessoa do que dar boas prendas, daí a interpretação livre.
Hipócrita como sou, é certo que também já escrevi ao Pai Natal, mas suponho que o badocha finlandês não perceba insultos e ameaças de morte na língua de Camões. De qualquer maneira, serviu para aliviar o stress antes de ir fazer as minhas compras. Sim, porque o ano passado tentei oferecer os verdadeiros valores de Natal, na forma de abraços, profundas palavras de amizade, cartas amorosas e sinceridade ofuscante e tudo o que ganhei foi uma sentida retribuição. Sentida essencialmente no meu corpo, tal foi o enxerto de porrada de familiares e amigos que levei, onde até a árvore e as decorações de Natal serviram como arma.
Por isso, apesar de contrariado lá vou antecipar o calendário pascal e cumprir já o meu Calvário, penando nas compras de Natal. É que posso ser parvo, mas aprendo depressa.


Ringing my bell - Wham - Last Christmas (i gave you my heart)

4.12.07

Sinais de fumo? Só se for incenso...

Ao que consta, falta cerca de um mês para que o número de pessoas nervosas a arrancar cabelos e a roer unhas dentro de espaços fechados aumente drasticamente. De facto, com todo o burburinho que espero que esta implementação da lei do Tabaco vá causar, até a mim tenho impressão que me vai dar vontade de começar a fumar tranquilamente um cigarrito enquanto vejo os fumadores inveterados a entrar em “tilt”.
Sádico insensível? Por favor, alguma contenção, até porque coro com elogios, mas depois de anos a chegar a casa vindo do trabalho, das aulas, da noite ou da creche sempre a cheirar a fumo de uma tal maneira que deixaria qualquer artista da charcutaria de fumeiro orgulhoso, há em mim uma certa satisfação maligna. Dirão os mais pessimistas: “Ah, vai ficar tudo na mesma, é só fachada”, ao que eu contraponho: “Isso era antes de existirem os super-heróis da ASAE”, instituição que veio revolucionar a actividade da caça à multa, desde que o automóvel foi inventado para suprir a falta de fundos das polícias. Quem multa velhinhas a venderem nogás à entrada do Metro, desaloja famílias de baratas do Galeto e enche feirantes de alegria pelo país inteiro, não vai deixar passar oportunidade (ou arranjar uma agência da família para o fazer) de fazer uns cobres valentes à conta dos fumadores.
Pela minha parte, proponho até a criação da Linha do Denunciante, onde cidadãos atentos podem ligar a avisar que está um gajo escondido na casa de banho a fumar ou que viram duas beatas de ar suspeito a rondar o centro comercial. Aposto que, na pior das hipóteses, ia diminuir o número de chamadas falsas para o INEM, já que a malta gosta muito mais de lixar pessoas que conhece.
Por isso, caro leitor fumador, aproveita para fumar com pujança em locais públicos nestes vinte e tal dias que faltam até final do ano e não percas tempo a irritar-te com estas linhas. É que te vai sobrar muito tempo para te irritares com tudo já a partir de Janeiro.

PS – Para quando a proibição de utilização de perfumes rascos ou em doses excessivas em locais públicos? É que mais umas viagens de elevador com a madame de hoje e o meu olfacto entra em vias de extinção.

Poluindo as ondas sonoras – Mark Ronson & The Tigers – Toxic (belo cover)