30.7.07

A tragédia da comédia

Gosto de rir, principalmente da desgraça alheia, mas não sou dogmático ao ponto de não o conseguir fazer por motivos mais triviais. No entanto, tenho uma deficiência social grave que me impede de rir por obrigação, o que poderia ser muito grave, não fosse eu um hábil manipulador (inserir riso sinistro em background).
Tendo em conta este cenário, e juntando-lhe um sentido de humor altamente egoísta, daqueles que faz com que não me preocupe minimamente se há mais alguém além de mim a achar piada a algo (que outra razão poderia estar na base da sobrevivência deste blog), pode dizer-se que o género comédia é um claro desafio para mim, especialmente no cinema.
Primeiro que tudo, não posso ir ver filme nenhum a pensar que vai ser uma barrigada de riso. Um critério apertado e uma expectativa elevada não correspondida podem dar origem a um ar enfastiado que alguns podem entender como pedante, mas é amargura por ver cinco euricos mandados ao lixo.
Segundo, o melhor é sempre ser surpreendido pelo humor onde não se espera. Rir às bandeiras despregadas em filmes como Philadelphia, Alien ou A Lista de Schindler, mostra-me de facto que sou uma pessoa muito especial, mas também me complica a tarefa de arranjar companhia para ir ao cinema.
Terceiro, tenho alguns atritos com as pessoas (e os seres semelhantes) que como vêem comédia escrito no género do filme, batem recordes de riso, gargalhando copiosamente do apagar da luz ao acender da mesma. Acredito piamente que é possível uma pessoa divertir-se com pouco, quase nada mesmo (não imaginam as horas de diversão que a frase “Gostas do meu corpo” e uma lista de extensões do local de trabalho podem proporcionar), contudo continuo a preferir conviver com pessoas que riam pouco mas com critério do que com gente que ria muito sem critério algum. E esta premissa tanto é válida para o cinema, como para a generalidade das coisas.
Tudo isto para dizer que fui ver os Simpsons, série com que cresci e que sem deificar, sempre apreciei. Não fui ver com a expectativa do El Dorado da risota, mas sim como uma extensão de um episódio, bom para descontrair sem pensar muito (para as pessoas que pensam é claro, doença de que não sofro). O objectivo seria cumprido, não fosse uma família do Entroncamento duas filas abaixo, que não previ quando evitei centros comerciais e outros antros para ir ver o filme.
O fedelho mais novo ria alarvemente, comentando o filme da mesma forma que ria e em volume elevado. Pensei que estaria safo, quando a mãe disse “Cala-te pá”, coisa que ele cumpriu...durante 10 segundos. Nesse intervalo, fui apresentado ao filho mais velho, na fase de mudança de voz, que se ria num timbre que oscilava entre o horrivelmente estridente e aterradoramente ribombante. Visto que aquilo se mantinha constante, pensei que a coisa não poderia piorar, até que aquilo que pensei ser um filho ainda mais velho envergonhado e bem nutrido, deu um ar de sua graça. Já não era uma criança, era um homem, não era um filho, era o pai e, foi fácil perceber a quem saiam os filhos. Eram os deuses que me castigavam, gargalhando na minha presença, com Homer em pano de fundo, dando-me um background dos “Três Terrores em concerto em riso maior”.
Sendo este um dos raros cinemas ainda com intervalo, verifiquei que não era só alucinação minha. Alguns dos outros espectadores já queriam pegar em archotes e barras de ferro, outros mudavam de lugar para se afastarem do Gargalhódromo. Essa parte achei divertida.
O resto do filme manteve a bitola, ah-ah-ah, oh-oh-oh, mesmo quando o ecran estava a negro. Não tivesse eu preguiça e ainda abria uma vaguita para esta família no contentor da semana. Será que esta família era uma personificação dos Simpsons? Terei a resposta quando morrer, visto que do Inferno aquela gente não se safa.
Concluo, apelando ao vosso bom senso, se é que têm algum (haja fé na Humanidade). Da próxima vez que pensarem ir ver uma comédia ao cinema, pensem duas vezes, vão ver um thriller russo de inspiração mongol. Podem arrepender-se, mas pelo menos é só do filme e não da audiência. Se, por outro lado, acham piada a tudo e são cópias chapadas daquela família, também não vão levar a mal se eu disser que são uns atrasados mentais de primeira. Encarem isto como uma cena gira tipo elogio.


Em alta voz: I Started a Joke - versão Faith No More (estive para pôr Bee Gees, mas achei que tanta comédia num só post era demais)

27.7.07

Esta semana mandava para o fundo do mar:

Não sou uma pessoa de ódios. Para começar, nem sequer sou uma pessoa, mas pronto não é por aí. No entanto, tenho um estômago sensível e há muita coisa que me dá a volta ao mesmo. Não me fiando muito em medicamentos, este blog funciona então como terapia e purgante, por isso mesmo, até que a minha saúde melhore, reservarei as 6as feiras para invectivar tudo o que perturba o equilíbrio.

Esta semana, mandava para o fundo do mar assim bem selado num contentor:

- Gajas com voz de cama: Nada tenho contra mulheres com voz sedutora, antes pelo contrário. Mas, quando levado ao exagero publicitário de ter uma gaja cujo tom de voz quer dizer “Si, si, muy caliente” e uma mensagem que quer vender crédito, frigoríficos, ar condicionado, atum em lata ou moto-cultivadoras confesso que me sinto usado.
- Mika – Esse ia bem amarradinho e amordaçado para não fazer estragos. Irrita-me o personagem e as suas cantilenas. No meu livro o que havia de bom para ser feito e chamar-se Mika já foi inventado. Chama-se Mikado, não faz barulho e entretém, coisa que o outro estróina não faz.
- Pequenos saguins guinchadores – Não se fala aqui de qualquer espécie esquecida do Bornéu. Refiro-me a crianças que temperam as manhãs de quem viaja em transportes públicos com guinchos capazes de fazer inveja a qualquer gajo do tuning com 200mil milhoes de megawatts no carro. E, visto que não se tratam de bebés, mas crianças já com tamanho para levarem uns correctivos, as mãezinhas seguiam-nos na viagem até ao fundo do mar, já que ficam apenas a olhar embevecidas enquanto as crianças furam os tímpanos a cidadãos respeitáveis como eu.
- Especialistas – Cada vez existem mais especialistas sobre toda e qualquer coisa. Desde gajos que vão à televisão especializados no consumo de repolhos, a especialistas sobre o trânsito de trenós nas cidades, a especialistas clínicos sobre unhas prensadas em portas, a especialistas em exercício feito com olhos vendados, a especialistas em matérias espirituais e futebol israelista até a especialistas em dietas com línguas de gato e enfeites decorativos feitos com caspa. A todos eles fica o meu apelo: Vão se mas é todos especializar para o âmago da vossa progenitora.
- A terminar, não porque a lista seja assim tão restrita, mas porque escrever sobre isto já me está a afectar o fígado: Peditórios de beneficiência e pedintes diversos.
São já de todas as maneiras e feitios: artistas e mutilados, corteses e mal-educados, barulhentos e silenciosos, asseados e mal cheirosos, arrumadores de carros e ex-consumidores de charros, escuteiros e defensores dos pinheiros, protectores de criancinhas e abusados enquanto criancinhas, associações de gente “especial” e simplesmente anormais. Bottom line, fosse eu a dar a um quinto da gente que me pede e ao fim do dia era eu a mostrar os meus dotes pelas ruas de Lisboa em troca de umas moedinhas.

Depois disto, desejo-vos um fim de semana cheio de paz, amizade, amor entre os homens (não no sentido abichanado da coisa, a não ser que vos dê gozo) e tudo de bom. Eu pelo menos já me sinto melhor.

Butthole Surfers - Pepper

24.7.07

Se és da 5a Dimensão, dá-me um desconto

É certo que ao longo desta vida, caso não tenham decidido por viver como eremitas isolados do mundo (e neste caso, que fazem a ler este blog seus marotos), estamos destinados a cruzar-nos com pessoas estranhas. Nalguns casos isso fará sentido, porque estamos num país estranho ou no Martim Moniz, noutros casos seremos surpreendidos, pois o que aparentam ser pessoas normais à primeira vista, são na realidade fenómenos do Entroncamento.
Foi a essa experiência que fui submetido, quando depois de um jantar com amigos, onde constavam algumas pessoas que não conhecia tão bem, me vi em pleno Bairro Alto, no meio de uma conversa surreal. Estava perante um jovem amigo de um amigo de um amigo que, apesar do seu ar ligeiramente alucinado, era capaz de manter um discurso coerente, pelo menos foi isso que pensei. Tendo sabido que estava a viver em Londres, arrisquei:
- Então, estás a viver em Londres. A estudar ou a trabalhar?
- Bem... – O jovem olhava para mim como se tivesse dúvidas na resposta a escolher - ...eu trabalho, mas não foi por isso que fui para Londres...
- Ah não? – comecei a imaginar que podia haver gaja/gajo/animal por trás dos seus motivos – Então?
- Epá, eu emigrei por causa das drogas – respondeu com um sorriso de iluminado.

Nesta altura, fiquei à espera de uma punchline, de uma piada com medicamentos, de uma confirmação sentida de uma desintoxicação, mas nada. Nem sequer me surgiu uma resposta pronta, coisa que me é habitual, pois na minha cabeça, estávamos a entrar noutro paralelo dimensional. Vendo o meu ar estupefacto, o jovem avançou:

- Sim pá, foi mesmo por causa das drogas. Tu não imaginas, começas a conhecer os circuitos e, de repente, estás em casa à 2a à noite e estás aborrecido folheias uma revista e tau, já sabes que no Clube X há pastilhas e mais isto e aquilo, que no outro consegues comprar umas gramas mais baratas porque há menos movimento...
- Ahhh... – foi a única coisa sofrida que consegui articular, enquanto procurava um ponto de fuga ou alguém que trouxesse um pouco de sanidade à conversa.
- Mas não penses que passo as noites em clubes – afiançou-me, decerto para que eu não pensasse que estava perante um folião – quando conheces as pessoas certas, quase que nem precisas de sair de casa para teres acesso a drogas.
- Mas...afinal trabalhas em quê? – tentei levar a coisa para uma zona mais real, embora temesse uma resposta do género “Ah, sou prostituto, mas é só um hobbie”.
- Faço uns trabalhos simples, para não gastar a mioleira (qual mioleira?). Cenas que me garantam dinheiro, sem ter que me lixar todo (pois, há coisas mais importantes à espera) – E depois acrescentou, baixando a voz como se o resto da conversa tivesse sido banal – Além disso, tive sorte, a minha vizinha da frente é uma junkie (coisa estranha para ele...) e volta não volta, aparece lá à porta para vender um ipod ou uma televisão ao preço da chuva, que depois vendo na boa com lucro.

O facto de esta última frase ter sido dita com o orgulho de quem se sabe mexer no mundo dos negócios e desconhece a palavra/conceito de escrúpulos, fez-me ver que o meu combustível para viajar na 5a Dimensão estava a acabar. Assim, utilizando um ardil muito comum de “Olha quem está ali, é o Padre Frederico!” e aproveitando a distracção criada para fugir, dei por terminada a minha lição sobre “Drogas e emigração – A way of life”.
Respeito a liberdade pessoal dos outros, desde que a mesma se situe na mesma dimensão que a minha. Por isso, se por acaso nos conhecemos em pessoa e têm histórias desta mesma cepa para partilhar comigo, por favor esperem até eu estar alcoolizado para as divulgarem. É que assim o meu subconsciente, no dia seguinte, pode dizer-me que foi tudo um sonho e estas pessoas não existem, ao passo que assim tenho de viver atormentado por saber que eles estão no meio de nós ou, na melhor das hipóteses, a viver em Londres por causa das drogas.

Clássico do Baú – Dr. Alban – No drugs (pessoalmente, preferia o Hello Africa, mas este era mais adequado).

20.7.07

Chamem-lhes nomes que eles gostam

Se é uma verdade universal que o que não faltam por aí são ideias imbecis, uma das que mais me complica o sistema, a par das alças de silicone para soutiens ou dos discursos robóticos de call centers, são os segundos nomes.
Antes de mais, uma clarificação: este texto não é produto de anos de recalcamento por um segundo nome como Hermenegildo, Eustácio ou Isidoro. Das poucas coisas boas que tenho é o facto de não ter segundo nome, apesar de os apelidos não serem famosos, mas pronto com esses lido bem.
Os segundos nomes são idiotas porque na essência só servem para causar embaraços, dar origem a mal entendidos e semear a discórdia. Na sua génese, podem ser fruto de uma solução de compromisso entre pais, do género eu quero Venceslau, tu queres António, pronto fica Venceslau António, mais tarde Veto para os amigos. Ou então, fruto de gente indecisa que depois de dias com esta cassete:

- “Ah não sei querido, Olga ou Diana”
- “Oh querida, com o cão foi tão fácil. Diana ou Shakira?”
- “Ah fofo, Shakira não, mas Colômbia era engraçado. Colômbia ou Argentina?”
- “Agora que falas, Maria Dona, que te parece, tipo o gajo da bola?”

No fim, fica Penélope Anabela, mas será conhecida também por ser a miúda que matou os pais com um cutelo, depois de perceber a dimensão da anormalidade do processo de escolha do seu nome.
Depois, também temos os casos de gente que devido a ter dois nomes desenvolve dupla personalidades, sendo conhecidos nuns meandros por um dos nomes e noutros pelo outro, causando a confusão de quem passe por elas nos dois. Por exemplo, tomemos o Majó (sim combinações de dois nomes são praga derivada e o Mário Jorge é uma vítima) que tem saído com a Carla. Durante o dia, o Majó e a Carla trabalham numa livraria e, depois de ter superado o boato sobre a sua homossexualide, o Majó até acha que há um clima entre eles.
Uma noite, depois de a deixar no seu apartamento na Encarnação, onde Carla vive com o seu irmão MiJó (Miguel Jorge no BI), Majó é desviado por Cabé (Carlos Alberto no BI) e acaba a noite num bar de strip, gerido por Brocas (Bruno Carlos no BI). De repente, apesar de a bebida já ser intragável há muito tempo, Majó cospe violentamente o resto da mesma, quando repara que a Verónika q faz as delícias de dois empresários da construção civil é, nada menos nada mais que a doce Carla da secção infanto-juvenil. Sete meses de terapia mais tarde, Majjó conta a Cabé que o seu psicólogo, Dr. Mendes (Zé Tó para a malta da Ordem) lhe disse em confidência que Carla Verónika já era sua paciente desde a adolescência e que soltar a franga em bares de strip, foi a única maneira de lidar com a duplicidade que os dois nomes lhe causavam.
Como vêem, dramas destes há por toda a parte, mas não ficam por aqui. O segundo nome como arma de arremesso também é um dos feitos históricos desta praga.
Que as mãezinhas de cada um utilizem o artifício que criaram para nos fazerem sentir sempre pequenitos é natural, embora ver marmanjões de 40 anos a serem tratados por “Pedro Fernando não fales assim comigo” seja sempre algo surreal. O problema é que, e aqui acho que isto é sindrome feminino, quando se vê na rua um casal em que ela só lhe falta puxar uma orelha, enquanto diz “Bruno Filipe, não te quero a ler a MaxMen nem mais uma vez ouviste”, ao mesmo tempo que pensa “Se eu tenho de ser Filipa Alexandra, o mundo também há-de saber que sofres do mesmo”. Acredito que também existam uns quantos gajos que tenham o hábito irritante de usar dois nomes para chamar os outros, mas a raça humana é assim mesmo, sujeita a anomalias genéticas...
É simples minha gente, para acabar com a praga é preciso muito pouco, embora para outros possa ser pedir muito: é ter bom senso. Se ainda por cima há gente que já viaja no BI com 200 apelidos, porquê acrescentar mais dois. Sejam concisos, procriem, treinem para procriar, façam tudo o que é suposto para prolongar a existência humana, mas escolham apenas um nome. Não é difícil, não é o 13º trabalho de Hércules, é uma questão de serem coerentes e minimamente preocupados com o futuro da criança.
Vão ver que mais tarde, quando eles já forem crescidos, se vão virar para vocês e dizer:
“CaDu meu pai e PaXa, minha mãe, obrigado por apenas ter um nome. É que se Eleutério já é uma bela merda, nem quero pensar no que seria o segundo”.

17.7.07

Filhos da mãe

Sim, é um facto, os acessos de bondade têm em mim o mesmo efeito que os reembolsos do IRS - quando dou por eles já desapareceram. Por isso, quero apenas acrescentar neste fim de tarde que abomino toda e qualquer pessoa que comece as suas conversas com “Ó filho” ou “Mas filho”. Para elas, terei sempre um lugar guardado numa qualquer camioneta frigorífica com viagem marcada para o fundo do Tejo.
E, mãezinha, se me estás a ler não penses que te safas...

16.7.07

Até um Mau tem bons fundos (infelizmente, não monetários nem de investimento)



Comecei, de há uns tempos para cá, a notar que corre um rumor sobre a minha pessoa. Diz-se que, possivelmente corrompido por uma infância em que dar uns abanões a uns escuteiros ou fazer-me passar por diabético para ter lugar nos transportes eram passatempos habituais, me tornei frio e insensível, incapaz de apreciar o que de bom há nas coisas, salientando apenas o que de mau há no mundo.
É verdade. Se estavam aqui há espera de um desmentido veemente, de um choradinho sensível daqueles que se vêem em blogs de gente com sentimentos e essas coisas peganhentas, esqueçam. Aqui não há espaço para isso, a não ser que me paguem. Aí sim, prometo fazer-vos relatos de bondade, beleza e sentimentos leais como nem no saudoso “Ponto de Encontro” havia (um dia conto-vos como foi a minha única experiência na plateia dessa Twilight Zone com Henrique Mendes como Rod Serling). Até lá, só ironia requentada (não confundir com requintada) e bitaites de índole duvidosa.
Mas, até porque sou humano (numa vertente abrangente), estou sujeito a falhas e, como tal, tenho que confessar que, até se encontrar cura para isso, sou acometido de boas sensações de quando em vez e dá-me vontade de apreciar a vida.
Assim, posso dizer que a semana passada calhei a apanhar um eléctrico em noite de Verão, quase vazio, sempre a abrir na 24 de Julho, de janelas abertas e comigo de guedelha ao vento. Não fazia isso há muito tempo e soube-me bem. Infelizmente, os planos de ficar engripado para não ir trabalhar o resto da semana, falharam miseravelmente e, tendo-me distraído em Alcântara, aproveitaram que levava o braço de fora para me gamarem o relógio.
Decidi também à última hora a ir um festival que pairava entre o Coliseu e os Portões do Inferno (nome carinhoso que atribuí em tempos à Estação do Rossio, em virtude dos destinos de luxo que unia a Lisboa). Teve os seus momentos interessantes e foi um serão agradável, no qual gostaria de destacar o facto de três ET’s aos dez minutos do primeiro concerto terem resolvido dar numa de aspiradores de coca mesmo à minha frente, tendo um deles lançado a moda de dançar de costas para o palco enquanto o seu neurónio coquinado visitava o planeta Zorg. Isto sim, é malta que sabe o que são as coisas boas da vida. Redescobri também que o caminho mais rápido entre o Coliseu e o Rossio pode dar alguma dor de cabeça no dia a seguir, mas quero acreditar que não tem nada a ver com diversas paragens para beber um refresco de ginja, que sabe-se lá porquê tinha um pequeno travo a álcool.
E, finalmente, achei que passar parte do meu tempo livre a escrevinhar maledicências em blogs não era suficiente, que precisava de algo mais para me elevar como ser humano. Daí ter descoberto uma nova paixão, ilustrada na foto acima que, certamente, muita da gente maldosa que por aqui passa já classificou de abichanada. Mas, antes de passarem à caixa de comentários toda essa acutilância maldosa em ebulição, pensem um pouco (sim, é muito para uma segunda de manhã eu sei) e vejam se arranjam maneira de lidar com isso. Para mim, foi contemplar borboletas, para vocês pode ser ponto de cruz, pescar na Cruz Quebrada ou assediar idosos nos transportes. Depois digam-me o que escolheram, desde que não seja punível po lei...


Massive Attack - Butterfly Caught


PS – Não, não me chamo António Costa, nem fui festejar ontem.
PSS – Não, não me chamo Telmo Correia e fui afogar as mágoas ontem, estando ainda a ressacar

11.7.07

Don’t believe the hype

Para além de “hype” ser a palavra utilizada por alguns velhotes para definir qualquer marmanjo de cabelo comprido e barbas que pareça ainda preso nos anos 60 e 70, ela tem também outro significado. Aviso já que estou longe de querer ser a Edite Estrela do bairro, até porque me recuso a pintar o cabelo em tons alourados e, pior do que isso, ter aspirações a autarca.
Assim, em traços largos, o que me interessa do hype é o facto de ser um exagero, uma grandiosidade atribuída que ultrapassa as qualidades reais do que quer que seja, algo criado, algumas das vezes não de forma organizada, para elevar algo ou alguém a um pedestal de forma artificial. E acreditem, numa sociedade que cada vez mais da imagem e de percepções, o que não faltam são coisas overhyped.

Vejamos exemplos (e dentro dos mesmos, confesso que estão coisas que me agradam, embora não as ponha nos píncaros):

- Bandas modernas, trendy, sofisticadas, de inspiração revivalista ou afins. Arcade Fire é um bom exemplo. São bons de facto, mas não inventaram a roda, nem estão propriamente a fazer algo que nunca tenha sido feito. Ver gente à minha frente quase a chorar depois de eu dizer isto e ler críticas musicais que parecem ter descoberto que Cristo voltou à Terra disfarçado de vocalista da dita banda só reforça a minha teoria.

- Telemóveis de 3a geração e Palmtops – São os acessórios de moda do momento e os brinquedinhos dos meninos grandes. Por um lado vejo gente que gasta mais dinheiro a mudar de telemóvel do que em coisas que realmente precisa, sem que saiba tirar mais proveito do dito do que mandar fotos aos amigos e fazer chamadas por motivos idiotas. Por outro lado vejo indivíduos em elevadores a comparar palmtops, como se fossem crianças a mostrar quem tem a melhor consola (coisa que muitos dos meninos grandes também fazem). Burro devo ser eu, que ainda penso que o telemóvel serve para telefonar e, vá lá, tirar uma foto ou outra.

- O endeusamento de séries televisivas – Eu sou fã, eu vejo, eu gosto, mas é fácil cair no exagero. Da mesma forma que há por aí muita e boa gente que tornou a sua vida uma dramatização do Sexo e a Cidade, creio que por exemplo o número de médicos coxos com um sentido de humor ácido também vá aumentar exponencialmente. Eu gosto do House, o Laurie está fantástico, mas 80% dos episódios seguem um ciclo exactamente igual, coisa que se constata mais facilmente se se virem três ou quatro episódios seguidos. Ide e contemplai séries, mas lembrai-vos há um mundo real aí fora, não alucineis demasiado.

- Para terminar, embora pudesse continuar eternamente- o Bronze. Não o metal, mas o da praia. Alguém explica a umas quantas pessoas que parecer uma torrada esquecida na torradeira não é bonito. Que tudo bem que a época das pessoas alvas como a cal serem um padrão de beleza já passou, mas que não há necessidade para a cidade parecer uma Unidade de Queimados ambulante. É bonito e tal, mas dentro de um certo limite, é como um doce dever ser doce, mas se for doce demais torna-se enjoativo. E se é para entrar no noticiário da TVI como vítima do cancro da pele, sejam mais criativos, isso já foi feito


Em rotação: Screamin' Jay Hawkins - I Put a Spell on You (a versão teatral ao vivo no Youtube é interessante)


PS – Esta última não é fruto da inveja. Eu com 3 dias de praia pareço turco e não é por causa do bigode.

9.7.07

A oitava maravilha do mundo ou, como fazer publicidade descarada sem ter vergonha nenhuma

Se têm tempo para perder aqui, então deixo-vos um site onde pode perder tempo e no fim ficar com a sensação que ganharam alguma coisa, o que é uma mais valia em relação aqui ao burgo. São peças cinco estrelas a descair para as seis, para o menino, para a menina e para o ser que hesita entre estas duas últimas hipóteses.
Ide, Ide, que é boa gente, coisa que não se pode dizer do indivíduo que vos escreve estas palavras.

A Pergunta básica: Quanto é que eu ganho de comissão? Não sejais materialistas jovens blasfemos, faço-o simplesmente pela bondade que brota do meu coração (sim, estou a pô-la daqui para fora de uma vez por todas).

PeanutOak




Ainda estão aqui?

Maravilhoso, maravilhoso, só mesmo o coração na música do Marco Paulo

Sou totalmente a favor de ser do contra, algo que faço com a regularidade que a minha ausência de espinha dorsal permite. Por isso, irritou-me um bocado esta história das Sete Maravilhas, tanto as de Portugal, como as do Mundo e, como sempre, não necessariamente por essa ordem.
Primeiro, nada me faz deixar de pensar que isto foi tudo um belo esquema para alguém encher de forma maravilhosa os bolsos, basta ver por exemplos o valor da “festa” de sábado passado, que certamente dava para pagar a uma transportadora para trazer para cá uma das maravilhas eleitas.
Segundo, se uma das maravilhas da antiguidade ainda subsiste, só se deviam eleger seis e mais nada. Isto das pirâmides passarem a ser uma maravilha honorária é um bocado como aquele gajo que é reformado compulsivamente numa empresa, mas dão-lhe um cargo para ele pensar que ainda é importante. As pirâmides, só por terem resistido à humanidade este tempo todo, deviam ter lugar cativo.
Terceiro, embora ache que deixar à escolha popular o destino das novas sete maravilhas não seja uma grande ideia (vide a maravilha que deu os Grandes Portugueses), traço geral acho que as novas escolhas não são muito chocantes, tirando uma. Creio que o Cristo Redentor, apesar do seu claro valor arquitectónico, simbólico e até religioso não é da mesma liga que as outras seis, tal como por exemplo a Torre Eiffell, a Estátua da Liberdade ou a Ópera de Sidney também não seriam. Daqui a 500 ou mil anos, se ainda lá estiver, tudo bem. Assim, é apenas fruto de uma boa campanha de promoção, do orgulho de um povo (justificado), do apelo religioso ou de isto tudo junto.
Quarto, sete maravilhas de Portugal???? Ó mãe, aqueles meninos também têm, por isso eu também quero. É um bocado isto que isto me faz lembrar, juntamente com o referido no primeiro ponto. Se há coisa que não gosto é a malta que vai sempre atrás do que os outros fazem, tirando é claro no aspecto de cascar nas sete maravilhas. Além disso, ver ao longo de meses cada autarca, velhinha, transeunte ou até ceguinhos a dizer “O meu castelo é que é”, “O meu mosteiro é melhor que o teu” ou “Comparada com a minha, mete a tua torre no...” é um bocado deprimente. Mas pronto, lá ficámos com sete eleitos, para delícia do nosso Portugal.
Quinto, fez-me pena ver que o Ben Kingsley se esqueceu dos óculos para ler e ninguém lhe deu uma abébia. Dos quinze minutos que vi da cerimónia, era ver o jovem de olhinho cerrado em sofrimento a tentar descortinar o teleponto e dar umas broas pelo caminho. Nem que trouxesses os óculos que usaste no Ghandi pá, sempre eram uma ajuda.
Sexto, ainda na transmissão televisiva do evento. Pôr Júlio Magalhães e Marisa Cruz a apresentar maravilhas é um bocadinho como pôr o Croquete e o Batatinha a apresentar os Nobeis. Pode ser engraçado, mas não bate certo e pode tornar-se irritante.
Sétimo, só para chegar a este número mítico, maravilha, maravilha é ver que Portugal consegue perder com um país chamado Gâmbia no mundial de sub-20. Fosse o Couceiro arquitecto e não havia maravilha no mundo que resistisse.

2.7.07

Soestorvamus - Os profetas do apocaleunãotedisse



Existe uma expressão que define, em traços gerais, o que é ser português. São quatro palavrinhas curtinhas que, se alguém me disser que nunca as ouviu, eu só acredito se isso me for dito em linguagem gestual. Traduzem-se elas na mítica expressão “Eu não te disse”.
Estas quatro palavras são como que uma simbologia cósmica que no nosso Portugal, tal como um bom vinho, vão bem com tudo, bastando variar o tipo de expressão facial, como acompanhamento (reprovador, carinhoso, professoral, amargurado, etc).
Há algo dentro de nós, não no sentido do filme Alien, que nos faz tentar ser proféticos e capazes de prever o futuro, maioritariamente de forma pessimista, de longe em longe dados a alegrias exacerbadas (tipo montanha russa emocional), mas sempre desdenhando dos que efectivamente dizer ser profissionais do ramo da profecia ou equivalentes, lote onde se incluem personagens como o Oráculo de Bellini, a Abelha Maya, a vetusta Alcina Lameiras ou o Paulo Cardoso, isto para não falar no Professor Bambo e no vasto colégio de doutores e professores africanos.
É certo que por vezes há a tendência para camuflar esta expressão com variantes, “Eu já sabia”, “Eu vi logo” ou “Não é nada que eu não estivesse a ver”, mas a génese é a mesma, nós conhecíamos o futuro e, ou optámos por só o revelar depois de ele acontecer, certamente para não chocar almas mais sensíveis, ou como dizemos sempre o mesmo já ninguém nos liga, por isso toma lá um “Eu não te disse” só para aprenderes.
O que eu gosto nesta faceta profética, não é apenas o aspecto camaleónico que a torna válida tanto para o lado sentimental, como para o lado profissional ou outro lado qualquer desde que envolva duas pessoas e pelo menos uma dela tenha a mania que é esperta. O que eu gosto mesmo é o facto de as pessoas, hoje em dia, já nem sequer se darem ao trabalho de dizerem o que é suposto dizer, para que depois faça sentido dizerem “Eu não te disse”. Confuso? Talvez, mas se fossem pessoas iluminadas, também não andavam aqui a fazer nada...
É que dantes as pessoas ainda faziam um esforço para depois poderem pôr a cerejinha no topo do bolo, que é virarem-se para alguém que não está nos seus melhores dias e dizerem “Eu não te disse”, só para ouvirem “Sim, é verdade tu disseste-me”. Esse sim, é gozo supremo do profeta de ocasião, a confirmação dos seus dotes mediúnicos, nem que seja no facto de o bife não ser uma melhor escolha que o arroz de gambas. Mas, com a falta de tempo e a abundância de superficialidade, hoje é mais fácil dizer apenas “Eu não te disse”, mesmo que na realidade não se tenha dito porra nenhuma. As hipóteses de ouvir “Não, não me disseste” são reduzidas, porque quando alguma coisa corre mal, as pessoas querem, na sua maior parte, colinho e festinhas e é mais provável tê-lo de um profeta satisfeito do que alguém irado por lhe dizerem que é tão normal como outra pessoa qualquer e não a Allison Dubois ali da esquina.
Por isso, os três que ainda não desistiram de ler isto até aqui, para depois poderem dizer “Eu não disse que este gajo tem problemas graves” que evitem andar por aí a repetir frases deste género junto daqueles com quem convivem. Acreditem, vão ser certamente menos odiosos e não me vão dar o gozo supremo de, cada vez que disserem “Eu não te disse”, terem a certeza que algures eu vou estar a dizer o mesmo sobre o facto de não irem conseguir evitar dizê-lo.