29.3.07

O trocadilho é uma faca de dois legumes

Tal como respirar, dançar polka ou assoar-me às mangas da camisola, trocadilhar é algo que faz parte do meu ser. Não consigo evitar, sai-me naturalmente e é válido 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 (ou 366) dias por ano e outros formatos de data que não se enquadrem no calendário juliano.
O que me deixa descansado é que eu não faço do trocadilho um concurso de popularidade, pelo que não fico triste quando depois de mais uma bojarda, só se ouve uma sonora gargalhada (por sinal a minha). Não quer dizer que não aprecie encontrar jovens sofredores do mesmo mal e encetar conversas das quais as pessoas mais lúcidas fugiriam a sete pés.
Se és adepto do trocadilho sabes certamente ao que me refiro, cada sequência de trocadilhos encadeados traz a mesma satisfação que um membro do PNR teria ao fechar 50 emigrantes num contentor de carga ou a fazer 200 telefonemas a votar no profeta de Santa Comba Dão.
Como já referi, não me afecta o repertório e compreendo perfeitamente que haja quem não tenha queda para o trocadilho, nem sequer paciência para os compreender (os que são passíveis de ser compreendidos). No entanto, entristece-me o sucesso do humor boçal, da bojarda que entra a ferros, da grosseria mascarada de piada, enfim do facilitismo humorístico.
Por isso, nem que seja uma vez por dia, se não és trocadilheiro e me estás a ler, saca um dichote rebuscado do baú e di-lo sem medos em voz alta. Pode não servir de nada para aumentar a tua popularidade, mas se a coisa correr mal, sempre podes dizer que a culpa é de um gajo que tem um blog com a mania que é engraçado (aproveitas e dás o link, para se sacar mais um visitante).
É que a culpa pode não morrer solteira, mas ninguém disse nada sobre ir divorciada.

27.3.07

Riot Starter

Este anúncio tem cerca de dez anos e por várias razões nutro por ele uma grande afeição. Isto apesar de achar que aquela tanga não me assentava da melhor maneira... Já a caraça ficou que nem ginjas.

No entanto, tem uma falha grava e aceito teorias nos comments, aqui não avanço nada para não estragar.

26.3.07

Livra, que já não posso com tanto livro!


Depois de este fim de semana ter dado uma volta por alguns antros onde se vendem livros, cheguei a uma triste conclusão: em Portugal, escrever um livro é cada vez mais fácil, isto é, qualquer débil mental o faz.
Digo triste conclusão, porque aquele ideal mítico que persegue boa parte das pessoas que gostam de escrever, nas quais me incluo, de um dia escrever um livro (entenda-se livro como conceito interessante e não como fast food encadernado), agora não passa de uma expectativa ridícula e pouco ambiciosa. Ridícula, porque hoje em dia escrever um livro já não tem a ver com talento para a escrita ou criatividade literária, mas sim com modas, tendências e satisfação do voyeurismo do público, que gosta é de uma boa escandaleira ou de um bom tema picante.
Quem me conhece, seja por intermédio destas linhas ou da experiência horripilante que é a vida real, sabe que tenho as aspirações intelectuais de um pescador de estrelas do mar da Samoa Ocidental, mas dificilmente quero ser posto no mesmo saco que quatro ou cinco strippers, três ex-prostitutas (com e sem blogs e/ou doenças venéreas), 252 jogadores da bola, treinadores, árbitros, dirigentes, amantes de dirigentes, empregados do hotel onde ficaram dirigente, tipas que cruzaram olhares furtivos com dirigentes durante dois segundos, taxistas que já transportaram dirigentes ou com os 128 mil bloggers que converteram o seu espaço na net, em espaço nas prateleiras de uma qualquer livraria. Posto no mesmo saco que esta gente toda e com as pessoas que efectivamente, na maior parte dos casos, lhes escreveram os livros é claro.
Sim, eu sei (para além da história que tudo são recordações), há um critério comercial por detrás da publicação de um livro. Há anos que oiço essa lógica também em relação à televisão nacional relativamente à programação nacional que nos oferece e, de facto, as coisas têm melhorado brutalmente...
Por isso, mantendo ainda firmes os propósitos de ter um filho e plantar uma árvore, vou começando a pensar se essa história do livro pode ser comutada num argumento para um filme porno ou numas obscenidades escrevinhadas num qualquer WC público. Sempre é mais entusiasmante.


PS1 – Se algum dia alguém vir um livro meu nos escaparates, podem ter a certeza que a primeira coisa que farei é engolir literalmente as minhas palavras, ou seja, comer a folha A4 onde estou a escrever isto.

Acordei esta manhã...

E achei que o meu futuro poderia ser brilhante se fosse um dos personagens da série cuja banda sonora está agora aqui em rotação.

Não é difícil de adivinharem, tem tudo a ver comigo e, se discordam, fiquem sabendo que os acidentes acontecem...


Alabama 3 - Woke up this morning

23.3.07

Faro apurado

Segundo um estudo da Universidade de Sniffing, há uma grande probabilidade de pessoas excessivamente curiosas se tornarem toxicodependentes.

É o que dá andarem sempre á coca...

22.3.07

Prepare for shutdown

Consta que é já este domingo, 24 de Março, que vai ter lugar uma iniciativa que visa que a malta não ligue ou desligue tudo quanto é máquina durante um dia. Pela poupança de energia, pela não subserviência à tecnologia, etc e tal, eis o: Shutdown Day.

Por mim tudo bem, vou só avisar o avô para respirar bem fundo para ver se aguenta 24 horas sem o ventilador...

21.3.07

Hindu eu, hindu eu...

Será que os budistas de vez em quando também gostam de ir pintar a mantra?

20.3.07

Alarve a quanto obrigas

Lamento informar a quem pense o contrário, mas cheguei à conclusão que somos todos alarves. Pois que haverá quem deite as mãos à cabeça e que diga que sempre se teve na conta de sensível, ponderado e outras bichanices semelhantes, mas lá no fundo sabe bem que há um alarve dentro de si (junto à moeda que engoliram quando tinham seis anos).
Que não se julgue que apenas só é alarve quem comer duas doses de feijoada, arrotar sonoramente, mascar pastilha elástica de boca aberta ou fizer comentários grosseiros sobre o sexo oposto. Paradoxalmente, há toda uma complexidade em volta do conceito de ser básico (vulgo alarve), que como é natural a maior parte dos alarves não atinge, sendo eu a excepção que confirma a regra.
Pode-se ser alarve em relação ao trabalho: engolindo tudo o nos é imposto sem estrebuchar, pagando miseravelmente e achando que tudo faz sentido desde que se conduza um topo de gama, se façam férias na neve e se trate os filhos por você ou até mesmo tendo um apego alarve a regras e regulamentos, como desculpa para fazer tudo para não fazer nada.
Mas, nem só de trabalho vivem os alarves, pois se há coisa que um alarve gosta de fazer é divertir-se, desde que seja em excesso é claro.
Aí temos o alarve da noite, que considera o dia um hobbie e faz a festa por qualquer motivo, mesmo que seja por nenhum. Temos também o alarve da adrenalina/recreacional, que desde a escalada de postes de electricidade às regatas de mini-caravelas na banheira experimenta tudo o que há para experimentar e, se puder pôr a sua vida em risco e de mais uns quantos, então investe com alarvidade redobrada.
No meio de tanta emoção e actividade, não nos podemos esquecer que um alarve não vive sozinho, tem necessidades emocionais que em cerca de 120% das vezes não consegue gerir decentemente, tornando-se por isso um alarve emocional. Nesta variante, o alarve devora emoções, podendo tanto ser um alarve da instabilidade, fazendo da sua vida uma pista de carrinhos de choque e usando cada impacto para ganhar balanço para o próximo, sem reparar que tanto a pista como a própria Feira Popular podem já ter fechado há uns tempos.
No outro lado do espectro, temos o alarve da estabilidade, da segurança, da constância, que funciona como aqueles alarves que só gostam de um prato, comendo-o incessantemente até ao fim dos seus dias. Basicamente é o tipo bife com batatas fritas.
A alarvidade emocional não se fica pelas relações pessoais, pois as compras, a tecnologia, as viagens, a cultura e tudo o que seja passível de ser consumido, é passivel de ser alarvizado. Basta escolherem uma ou, se forem um alarve supremo, escolher todas. Estes foram meros exemplos, porque a lista é no mínimo do tamanho da dos envolvidos no processo “Apito Dourado”.
Não sendo eu uma “identidade” superior (até sou, mas a modéstia impede-me de dizer isso abertamente), não pretendo referir-me como um “não alarve”, até porque logo a começar por estas alarvidades que escrevo não tenho hipóteses de me auto-excluir.
Mas também fiquem descansados, ninguém se safa, nem sequer os santos (esses alarves da bondade e das boas acções) ou até mesmo Deus e o Diabo (indivíduo que crie o mundo numa semana tem de ser um alarve divinal, tal como um tipo que se diga o responsável por todo o Mal, é um alarve das grandezas).
Por isso, eu desde já me assumo como alarve militante, persistente e displicente. Não sejam vítimas de uma timidez alarve e assumam-se também.

PS – O que tem isto a ver com a mini maratona de domingo? Tudo e se não perceberem porquê, é porque também não percebem nada, daí não precisar de explicar.

19.3.07

Em passos largos

Tal como prometido, fica aqui um rescaldo da corrida. Atingi a única meta a que me tinha proposto. Também não foi difícil, era a única que havia...

Amanhã, falarei de um típico espécime nacional do qual vi muitos exemplos no domingo: o Alarve. E por alarve não me refiro aos ajos que vão passar muitas férias a Laos.

17.3.07

Vou partir...naquela ponte


Cumprindo um dos meus hábitos mais regulares (a seguir a passar rasteiras a idosos), vou agora entrar em estágio para mais 8kms de mini maratona na Ponte 25 de Abril.
"Porquê 8kms e não 21 minha lontra?", dirão alguns dos que conhecem o meu porte atlético e dedicação a tarefas por norma consideradas idiotas.
A resposta é simples: ainda não paguei os impostos e tenho de manter as reservas de energia, para fugir ao Fisco, caso seja necessário.

Como tal, contarei mais tarde como decorreu a também chamada "Convenção Nacional do Fato de Treino 100% Polyester".

Entretanto, fiquem com esta de um visionário da música (sim, a piada foleira é intencional).

Ray Charles - Hit the road Jack


PS - Não vale a pena procurarem-me na foto. Quando estas lesmas passaram na ponte já eu e uns quenianos comíamos uns pasteis de Belém...

16.3.07

Fill in the the blanks

Como já dei a entender em posts anteriores, mantenho uma relação de amor-ódio com os transportes públicos. Sou utilizador regular, acho que podiam funcionar cerca de dez mil vezes melhor, mas têm neles pormenores impagáveis, especialmente se forem gente socialmente alerta (vulgo coscuvilheiros) com uma imaginação fértil, como eu.
Hoje de manhã, no meu trajecto habitual de 15 minutos de 27 até ao estaminé profissional, apanhei metade de uma conversa ao telemóvel da senhora de trás, que também não se esforçava minimamente para a disfarçar. O tom não era irritado, mas era tenso e revelava que não era sobre a descoberta da cura do Ébola aquilo de que se falava nesta conversação.
O melhor para mim, mais do que a parte que eu ouvi, é poder imaginar o que estaria a ser dito do outro lado. É um simpático exercício de criatividade e distrai-nos da visão do episódio de dois idosos atropelados na passadeira, que está a ter lugar logo ali ao lado.

Versão A (o que eu ouvi)
(toque de telemóvel)

Elemento X - ?
Senhora do 27 - Já te passou a birra?
Elemento X - ?
Senhora do 27 - Porque é que ontem não disseste nada?
Elemento X - ?
Senhora do 27 - O que é que pretendes de mim?
Elemento X - ?
Senhora do 27 - Ah, então é de mais...é bom saber que pensas isso.
Elemento X - ?
Senhora do 27 - Veremos.

Dedução lógica – Oh, temos arrufo. Será?

Versão B (o que eu imaginei)

Armindo – Dona Elisabete, é o Armindo do talho
Senhora do 27 – Já te passou a birra?
Armindo – Não diga isso, a senhora viu que eu estava desorientado com tanto cliente
Senhora do 27 – Porque é que ontem não disseste nada?
Armindo – Porque não tive tempo até sair e ainda tive de põr as carnes na arca.
Senhora do 27 - O que é que pretendes de mim?
Armindo – A senhora pediu dois quilos de costeletas, um borrego e três quilos de febras. Como o borrego é grande, penso que três quilos de febras são de mais.
Senhora do 27 - Ah, então é de mais...é bom saber que pensas isso.
Armindo – Ui, ainda lhe vai sobrar muita comida.
Senhora do 27 – Veremos.

Alucinação ou mundo paralelo? Nunca saberemos.

Versão C – Deixo ao vosso critério

PS – Posso apenas acrescentar que a senhora, depois de desligar, ligou para uma pastelaria a encomendar um bolo de aniversário, mas sem nozes na cobertura e em vez disso, a palavra “Parabéns”. Pode ser que ajude à vossa imaginação.

15.3.07

Dia do consumidor - Celebre aqui

Apesar de saber que aqueles que por aqui vão passando consomem obviamente alguma coisa (muito provavelmente ilegal ou comprada em Aveiro), resolvi agraciá-los com umas informações para consumo rápido que vão certamente influenciar o vosso destino, pelo menos nos próximos 3,8 segundos:

- Consta que o dia de hoje já está a ser comemorado com eventos tão majestosos como a abolição do pagamento do aluguer de contadores da água, gás e electricidade ou a grande efeméride de teres o dinheiro que depositas em cheque disponível no máximo até um ou dois dias depois, em vez os bancos poderem brincar com ele durante cinco dias e eu ter de dormir em bancos de jardim para evitar os credores durante esse mesmo período.

- Paradoxalmente, em relação a ontem “Dia Mundial da Incontinência Urinária”, parece que toda a gente se esteve a cagar para isso, tirando dois ou três idosos que urinaram numas árvores em frente a S.Bento em sinal de protesto, coisa que passou despercebida, pois já o fazem todos os dias.

- António Lobo Antunes irá receber o Prémio Camões em 2007. “A "mestria em lidar com a Língua Portuguesa" e a "capacidade de descortinar os recessos mais inconfessáveis dos homens, transformando-o num exemplo de autor lúcido e crítico da realidade literária" foram os principais argumentos para tal feito, segundo o júri lusófono reunido no Rio de Janeiro. Fico muito satisfeito, porque assim parece-me que devo ter estado na shortlist final e que, a continuar a este ritmo, para o ano os 100mil euricos podem muito bem cair para este lado.

- Se andas em Lisboa e conduzes um jipe, muito possivelmente és rico ou labrêgo, havendo fortes hipóteses de seres um híbrido, ou seja, um lâbrego com a mania que é rico ou um rico lâbrego. Seja de que forma fôr desampara-me a loja e vai lá compensar esses complexos de tamanho para outras faixas.

- A terminar, porque não temos livro de reclamações e continuamos a não acreditar no pluralismo, esta é a vossa oportunidade de aproveitar uma benesse. Se não tens link aqui no estaminé e até és consumidor regular do chorrilho de asneiras que por aqui grassa (utilizar a palavra grassa tem a sua piada) diz de tua justiça e pode ser que passes a constar da nossa galeria de ilustres. Isto é claro depois de testarmos se essa história do dinheiro ficar disponível mais depressa é mesmo verdade.

13.3.07

Ardeu...

Segundo consta, diversos lotes da mítica pomada Halibut estão a ser retirados do mercado devido a uma anomalia detectada. É sem dúvida uma decisão que vai deixar muitos portugueses em brasa...

O campino e o cigano - Parte II

Chegamos hoje à conclusão de uma fábula que tem encantado gente por todos os lados, nomeadamente dois reformados no Beato, um empregado de mesa em Algés e dois fiscais da Emel na zona das Avenidas Novas.
Deixámos o campino, vulgo eu e o cigano, vulgo Zorro, na zona do Rato a dirigirem-se para as Amoreiras à hora de almoço, uma zona pouco movimentada onde um campino e um Zorro passam despercebidos, especialmente a interagirem com a malta como era suposto fazermos.
Com a minha resposta pronta, paciência de santo e o facto de na altura telemóveis com máquina fotográfica serem uma raridade, pensei que não ia haver problema e aquela hora ia passar num instante. Daí que bitaites como “Ó campino, perdeste o cavalo?” eram respondidos entredentes com “Sim, foi dar uma volta com a vaca da tua mãe” ou “Onde é que eu posso comprar uns calções de cetim como esses?” com um simpático “No mesmo sítio onde adquiriste essa cara de parvo” e a coisa ia sendo suportada.
Contudo, quando vi o cigano, vulgo Zorro, que estava 50 metros a minha frente a esconder-se no meio de alguns ciganos dos verdadeiros numa paragem de autocarro, calculei que vinha aí problema. Não me enganei, já que cinco segundos depois vi surgir caminhando na minha direcção um par de miúdas lá da universidade, daquelas cujas alcunhas poderiam ser claramente “Correio da Manhã” e “24 Horas”, tal era a rapidez com que espalhavam notícias.
Pensei como um campino e resolvi enfrentar a lide que me aguardava, não sem antes enterrar o barrete até perto do nariz. Como o melhor truque para passar despercebido, mesmo naqueles preparos, é não fugir, aguardei que as jovens passassem, olhando para mim de lado, presenteando-as com um convite e deixando-as seguir. Até aí tudo bem, mas uma delas vira-se para trás de repente, no preciso momento em que eu ajeitava as minhas meias de renda. Eh lá, isto não augura nada de bom, pensei eu, mas disfarcei e a coisa passou-se.
3000 Bocas, 200 sensações de desconforto e dois elogios depois, a tarefa estava concluída e regressámos à base com o dinheiro no bolso e a ideia de que se calhar vender o corpinho a idosas possivelmente não era uma alternativa assim tão descabida.
A prova final veio no dia seguinte, na faculdade. Uma das raparigas com quem tinha tido o encontro imediato campino de 3º grau, a tal que se tinha voltado para trás, vem ter comigo e pergunta:
- Ouve lá, quais são as hipóteses de eu te ter visto vestido de campino à porta das Amoreiras ontem?
- Completamente verdade, mas hoje entrei no programa espacial da Nasa por isso tive de abdicar do posto de campino. Mas tu drogas-te é?
- Ahhhh, desculpa ....eu ia jurar que...se calhar confundi...
- Pois é, e eu fico ofendido com essas barbaridades. Mas tudo tem solução, pagas-me o almoço e está feito.
- Pronto, está bem.

E assim ganhei um almoço, contrariando a teoria de que não há almoços grátis, tudo isto graças ao dia em que fui campino. Moral da história, o Zorro pode ser confundido com um cigano, mas não há cigano maior do que um campino de aluguer, vulgo eu.

O bar está aberto

Mudando de som, numa onda bar lounge, tasco sombrio, elevador groove e ode ao alcoolismo dos desesperados, está a rodar:

We have all the time in the world - Fun Lovin Criminals (Copacabana Version)

12.3.07

O campino e o cigano - Parte I

Se há coisa que adoro, a par de mirtilos, são fábulas. Mas não fábulas daquelas sensaboronas onde efectivamente se aprende alguma coisa, mas daquelas modernas onde muito pouca gente percebe a sua intenção, mas diz que adorou para não ficar mal visto. É isso que espero que aconteça neste caso, especialmente porque eu faço parte da história.
Reza a lenda que, na minha época como estudante universitário, resolvi rentabilizar financeiramente o meu tempo fazendo exactamente o mesmo que fazia nas aulas: trabalho de figurante. E é aí que começa esta fábula, mais precisamente numa acção para os 100 anos do cinema em Portugal.
Não tendo eu aspirações a ser o novo Joaquim de Almeida (nem o velho por sinal), aceitei logo a proposta para esta acção a troco de uma centena de euros, sem antes perguntar do que se tratava. Fui com um amigo meu, e ao chegar logo nos explicaram:

- Ah, vão andar a ser filmados por Lisboa encarnando alguns personagens clássicos do cinema e, em determinados locais, vão distribuir informação sobre a festa que vai ter lugar hoje à noite.

Pensei logo, que personagem irei ser? Um Indiana Jones, um Darth Vader ou até mesmo o Conde Drácula? Andei muito perto, porque quando a senhora trouxe a minha indumentária, vi que era a de um campino...
Ainda meio abalado pelo choque, vi que ao meu amigo lhe tinha calhado o Zorro, com tudo a que tinha direito, desde a calça preta à camisa, ao colete preto, à capa, ao chapéu e à mascarilha e à espada. Sendo ele bem mais baixo do que eu, ainda pensei recorrer à violência para trocar as indumentárias, mas pelo tamanho não dava, por isso resignei-me.
Seguimos então por Lisboa, tentando eu compensar o facto de estar a usar calções de cetim, meias de renda brancas até ao joelho, camisa branca, colete e gravata vermelha, com o gorro de campino enterrado até ao meio da cara. Depois de algumas filmagens fomos divididos em duplas, ficando eu e o meu amigo Zorro, com a zona do Rato e das Amoreiras para distribuir os convites para a festa.
Estávamos perto do Verão e o calor começava a apertar, mas resisti à tentação de despejar os convites no lixo e dar a tarefa por concluída. Ao abordar uma idosa para lhe dar um convite, recebi uma rejeição original: “Não obrigado, o cigano já me deu.”, “O cigano?” perguntei eu. “Sim Sr. Campino, o cigano ali na outra rua”.
Intrigado, fui ter com o meu amigo e perguntei-lhe:
- Ouve lá, andaste a dar convites a algum cigano para distribuir?
- Cigano??? Não, só dei uns convites a umas velhotas. Porquê? – respondeu-me.
- Porque...

Ao olhar para ele, de repente fez-se luz. Com o calor ele tinha tirado a mascarilha e o chapéu e tinha uma barba de 3 dias, todo vestido de preto. Tirando o Zorro, pensem lá que tipo de personagens se apresentam assim... Mistério resolvido, cigano descoberto...
Amanhã, se se portarem bem, conto-vos o resto da fábula...

9.3.07

Dia do Xico Esperto

Tirando de mim próprio, por norma não gosto de gente que tem a mania que é inteligente. Aproveitando para fazer uma analogia com este “Dia da Mulher” que está agora a chegar ao fim, considero que quem precise de estar a mostrar ou a puxar galões por alguma coisa, normalmente é porque está a compensar algo. No caso do dia da gaj... perdão da mulher, é apenas fruto de um lobbie para escoar umas flores entulhadas algures. Para mim (agora é o momento em que evito ser apedrejado virtualmente pelas visitantes do espaço) o dia da mulher é todos os dias, não há cá dias especiais, isto se exluirmos o dia da Criança no qual ainda tenho sempre uma secreta esperança de receber prenda.
Assim sendo, muito provavelmente este dia foi criado por alguém que efectivamente não tem as mulheres em grande conta, mas tem a mania que é esperto. Vejo até o diálogo no Gabinete onde se criam os dias de tudo e mais alguma coisa:

- Ora bem, já temos o da Árvore, o do Livro, o do Atum enlatado, o da Libertação do Chispe, o da Vizinha de cima que me dá suores no elevador, ó Zé vê aí o que falta, que temos aqui uma falha a 8 de Março...
- Epá assim, assim de repente....já temos o do Fato de treino de polyester?
- Não é oficial, mas todos os domingos contam para esse efeito...
- Ah, ok. Olha estava a pensar e se criássemos o da Mulher?
- Da mulher??? Não se criou já tanta coisa boa a pensar na mulher, como o avental, o lava loiça, as revistas sociais e o cabeleireiro?
- Sim claro, mas repara: tenhos os gajos todos das floristas a chatearem-me o juízo, que entre outros, os quéfrôs com as flores, as tiaras, as varinhas de condão e outros gadgets lhe estão a arruinar dias como o dos Namorados.
- Pois, vendo bem as coisas, a minha Emília até fica mais receptiva quando lhe levo flores. É que com esta história das novelas até às tantas, não consigo tirá-la da sala antes da uma e isso lixa-me os ciclos do sono todos.
- Lá está. Então, que me dizes, 8 de Março – Dia da Mulher?
- Põe aí no caderno. Ah, mas vê lá se arranjas uns factos históricos mais credíveis para comprovar a escolha, que da outra vez aquela história do Dia do Orgasmo Mundial pela Paz ficou muito mal contada...

6.3.07

Insanidade Temporaria

Era tão convencido que foi convidado a deixar o judo, porque não era capaz de dar o braço a torcer. Desiludido, foi então que decidiu ter aulas de capoeira, mas as coisas correram mal, pois assim que lá chegou começou a cantar de galo...Já em desespero tentou a sorte na luta greco romana, mas cedo desistiu quando viu que não era capaz de voltar as costas à luta.

4.3.07

Eu gosto é do varão

Consta que as aulas do chamado pole dancing ou dança do varão estão cada vez mais em voga entre as mulheres portuguesas. Eu, que desconfiei sempre de benesses como essa, até agora pensava que isso era mais um mito urbano, até conhecer efectivamente quem esteja a tirar umas aulitas e não tenha como local de trabalho um estabelecimento de nome afrancesado que funcione em horário nocturno.
Nada tenho contra esta notícia, antes pelo contrário, acho até que pode dar outro glamour e sensualidade quer a quem queira animar as coisas lá em casa ou até no metro, cheio de varões ali à mão de semear e muita falta de animação para quem, como eu, o utiliza todos os dias. Por isso, jovens dançarinas, se me estão a ler e gostam de um bom desafio, recomendo a linha amarela no percurso Saldanha-Entrecampos ao fim da tarde ou no sentido inverso por volta das 9 e tal da manhã (mais difícil, por estar mais cheio) para mostrarem que ali, no varão do metro, também há talento.
Para que não se enganem, vou tornar a coisa mais fácil: eu vou ser o gajo de chapéu de côco com um “tijolo” ao lado a passar ininterruptamente o “You can leave your hat on” desse trambolho a que se convencionou chamar Joe Cocker.

2.3.07

O Derby da Bol(s)a

Por toda a Lisboa já se sente a agitação que precede o grande confronto de hoje à tarde. As roulottes estão já montadas nas imediações do Centro de Congressos de Lisboa e já começa a pairar um cheirinho a chamuça com caviar e, para delícia dos mais rústicos, o aroma a entrecôte como só o estaminé da Brasserie sabe preparar. As grades acumuladas de Moet&Chandon e Chateau Lafitte deixam ainda antever um derby que se vai prolongar pelo dia e quiça pela noite, dentro e fora do recinto de jogo.
Os adeptos já se estão a reunir nos pontos de encontro previamente definidos (Fórum Picoas e cabine telefónica ao pé do Elefante Branco para a PT, Continente da Amadora e Kentucky Fried Chicken da 2a Circular para os da Sonae). Ouvem-se já alguns cânticos ensaiados para o embate que, a partir das 15horas, vai decidir o futuro da OPA que tem apaixonado o país. Não será difícil ouvir nos instantes decisivos palavras como: “Sonae, Sonae vai fazer OPA’s p’rá p... da tua mãe”, “Ninguém pára o Belmiro, ninguém pára o Belmiro, ninguém pára o Belmiro oéoooooooo”, “E quem não salta, é Granadeiro!!” ou “Nós só queremos a OPA a arder, a OPA a arder a OPA a arder”.
Os títulos dos jornais da especialidade também não escondem o interesse à volta do derby. O Jornal de Negócios avança com uma capa que tem as vedetas de ambas as equipas, Henrique Granadeiro e Paulo Azevedo numa imagem de frente a frente com o título “A Bolsa ou a vida – Duelo de titãs decide-se hoje”. Já o Diário Econômico prefere uma perspectiva global com todos os principais envolvidos e apoiantes de ambas as partes colocados ao estilo Padrão dos Descobrimentos e um título épico “Chamada final para a batalha das Linhas”.
Em declarações ao nosso magazine, os já referidos capitães de equipa não se quiseram alargar muito sobre estratégias, mas avançaram com algumas palavras em antevisão. Granadeiro preferiu abordar a parte táctica dizendo “Quando eles virem o sketch que pedimos aos Gato Fedorento sobre os perigos das desblindagem de estatutos, até tremem, É que mete chaimites e o Ricardo a fazer a rábula com uma pronúncia algures entre o Belmiro e o Salazar”.
Paulo Azevedo, do clã Azevedo (não confundir com McLeod) foi mais lacónico nas suas declarações: “Damos o melhor o ano inteiro para atingir os objectivo que o pápá, perdão o Mister, traçou. Não é uma OPA que decide o campeonato, é um campeonato que se decide numa OPA e o Paulo está interessado em ganhar todas as OPAS em particular e esta em geral”.
Os dados estão lançados, as emoções estão ao rubro e aconteça o que acontecer, ganhe quem ganhar, Portugal não vai voltar a ser o mesmo e expressões como: “Queres vir a minha casa para eu te desblindar os estatutos?” vão marcar a moda nos próximos anos.
E se não estão de acordo, experimentem lançar-nos uma OPA.

1.3.07

Hora de saída



Que não se pense que este título é um epitáfio para este blog, depois do nosso momento de glória (link comercial). Até porque do ponto de vista intelectual este blog morreu à nascença e de resto vai sobrevivendo ligado à máquina.
O título em causa tem a ver com uma das coisas que mais dá alegrias aos portugueses e não me refiro à selecção nacional de corfeball: a hora de saída. Seja no emprego, nas aulas ou em saraus de poesia, nada dá mais gozo do que ver chegar a altura de nos pormos a andar.
É claro que alguns vão protestar: “Ah, eu até gosto de ficar depois da hora de saída”, mas tudo bem, todos sabemos que os downloads de pornografia demoram o seu tempo, que as “relações” alunos/professores são cada vez mais comuns e que não são raras as lesões cerebrais e motoras nos frequentadores de saraus de poesia.
Na verdade, existem algumas diferenças entre as abordagens à hora de saída, especialmente no meio empresarial, aquele que actualmente conheço mais de perto e sobre o qual vou tecer algumas considerações:

- Ao contrário do que se diz, os funcionários públicos também olham de lado para os colegas que saem a horas. Visto que saem todos mal bate a hora certa, é a única forma de se certificarem que não fica ninguém para trás.
- Em empresas mais liberais, indivíduo que saia a horas, mesmo que com o trabalho todo despachado, é considerado um calão. Já quem fique até às tantas depois de passar o dia no café, a assediar colegas, no msn, ao telemóvel, a evitar ir ter com a família e afins, a evitar ter que lidar com o facto de não ter família e afins, a usar Cera Búfalo no patrão, etc, tem boas hipóteses de ser considerado trabalhador exemplar.
- Também em relação à hora de saída, existe o chamado seguidismo. Com a particularidade de se referir a gente que fica sempre no seu posto até cerca de cinco minutos depois de o seu chefe sair.
- Os motivos para sair horas também são por vezes exemplos de paradoxos. Gente que diz odiar futebol, mas tem que sair porque gosta de ver os grande jogos. A senhora que passa o dia aos gritos ao telemóvel com o seu respectivo, mas depois sai a correr porque comemoram hoje mais um aniversário. O tipo que tem uma saúde de ferro, mas vai a cerca de 3 consultas por semana, todas elas marcadas em cima da hora.

Estes são meros exemplos, porque não pretendo fazer um compêndio na matéria, Mas o facto é que a hora de saída continua a ser tema de conversa em qualquer empresa. Toda a gente gosta de sair a horas, muitos têm vergonha de o fazer, outros de o admitir, os que não saem fazem piadas sobre os que saem, os que saem dizem que os que não saem é que são uma anedota. Traço geral, como em muitos outros capítulos, somos basicamente assim: atrasados.