6.12.07

Natalidade mortal

Caso ainda não tenham reparado através da publicidade desmesurada, da iluminação exagerada ou do cheiro a consumismo desenfreado, eis uma grande novidade: o Natal está aí à porta. Pela minha parte, o sacana bem pode morrer de frio à espera que eu a abra, porque para esse peditório eu já dei.
“Epá, mas esta época do ano é tão linda!” dirão vocês, enquanto escolhem um bonito papel de embrulho com ursinhos para as vossas prendinhas e ajeitam com carinho a corda no pescoço ao olhar para o saldo bancário. A verdade é que, segundo um estudo desta empresa de pinguins consultores, em média cada português torra 600 euros no Natal, entre prendas, festas e 1001 maneiras de encher o bandulho.
Se isto fosse a Suécia, para além dos benefícios que isso poderia trazer em termos do preço do salmão fumado e da % de loiras naturais, este facto não me chocaria muito. Mas, num país onde deve haver mais pessoas endividadas do que com a instrução primária completa, a coisa anda perto dos limites da insanidade.
Possivelmente o erro também vem de uma interpretação errada do conceito “O Natal é uma época de valores”. Tenho em mente que a coisa se referia a outros valores que não os da carteira, mas provavelmente custa mais ser boa pessoa do que dar boas prendas, daí a interpretação livre.
Hipócrita como sou, é certo que também já escrevi ao Pai Natal, mas suponho que o badocha finlandês não perceba insultos e ameaças de morte na língua de Camões. De qualquer maneira, serviu para aliviar o stress antes de ir fazer as minhas compras. Sim, porque o ano passado tentei oferecer os verdadeiros valores de Natal, na forma de abraços, profundas palavras de amizade, cartas amorosas e sinceridade ofuscante e tudo o que ganhei foi uma sentida retribuição. Sentida essencialmente no meu corpo, tal foi o enxerto de porrada de familiares e amigos que levei, onde até a árvore e as decorações de Natal serviram como arma.
Por isso, apesar de contrariado lá vou antecipar o calendário pascal e cumprir já o meu Calvário, penando nas compras de Natal. É que posso ser parvo, mas aprendo depressa.


Ringing my bell - Wham - Last Christmas (i gave you my heart)

4 comentários:

  1. Só não percebo porque é que eu sendo ateia tenho de ir todos os anos à festa de aniversário do Jesus, para a qual não quero ser convidada...ah, e levar prenda!

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  2. Ah como eu te compreendo!Todos os anos digo que é o ultimo e que não volto a ceder ao stress e à pressão de oferecer por obrigação mas o medo do rótulo de "unha de fome" é sempre mais forte...Todos sentimos o mesmo e todos acabamos por cair na esparrela. É gordo, velho, veste-se mal mas tem um poder do caraças.Oh oh oh os tomates.

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  3. Porque é que não fazes vouchers de tempo? Eu adoraria (se nos conhecessemos) receber um a dizer "Vale 4 horas de baby sitting, sem molestar as crianças". (também dá para substituir as crianças por animais domésticos, se for o caso) Para os avós "Vale duas horas como motorista (se tivesses carta e carro) para ir ao médico ou jogar canasta" Para os pais: "Vale a presença, sem trombas, nem discussões, a 3 almoços (aniversários e festas não vale!)Para a namorada: "Vale uma semana de massagens sem fazer má-cara e fingir-se de esquecido e 3 slows em privado" O nosso bem mais precioso e o que mais nos falta é o tempo! Oferecer tempo é um acto impagável e de extrema generosidade (por isso é que prefiro gastar dinheiro em presentes)

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  4. esses portugueses são finos demais, nos 300 e nos chineses há coisas bem boas. lol

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