16.11.07

Ordem na sala

Que a malta gosta muito de encher o peito (não é uma piada sobre silicone, mas podia ser) e de usar, por exemplo, as abreviações Dr.-Eng.-Prof. como equivalente a título nobiliárquico não é segredo nenhum. Aliás, a história do corporativismo não é coisa do passado meus caros, ele existe mas agora já não é visto como um inimigo a abater, mas sim como uma consequência natural da sociedade moderna.
Se formos a ver, Ordens de tudo quanto é profissão de estatuto social (ou elite intelectual) ainda existem aí a pontapé, De Advogados a Engenheiros, de Farmacêuticos a Arquitectos, só para citar alguns, não faltam por aí casos desta espécie de sindicatos para copinhos de leite. Como apontamento, ainda ontem ouvi o Bastonário da Ordem dos Médicos dizer que nem sequer põe a hipótese de ser alterado o Código Deontológico da Ordem para ficar em conformidade com a lei do aborto. Ou seja, sim senhor a malta cumpre a lei porque é obrigada, mas no nosso recreio quem manda somos nós.
Numa perspectiva genérica, a sociedade de classes da época medieval ao fim ao cabo ainda existe, só que se trocaram por letras e por uma escala menos estanque (alta-média-baixa) aquilo que antigamente se chamava simplesmente clero-nobreza-e gajos que servem de saco de pancada para todas as ocasiões. O que dantes se pagava de dízimo em couves, cereais ou trabalho, paga-se hoje em honorários pelos serviços dos senhores ou até mesmo favores sexuais, nos casos em que a primeira não seja possíveis ou mediante acordo prévio (ou posterior) entre as partes.
Não indo eu à bola com ordens, sejam elas com “O” pequeno ou grande, custa-me um bocado a digerir esta história de clubinhos privados que não tenham como propósito alguém tirar a roupa (de maneira artística) lá dentro. Por isso, cada vez que vejo um Bastonário a debitar professoralmente sentenças nos media apetece-me redecorá-lo, de modo apropriado, à bastonada.
Além disso, ocorre-me sempre uma questão pertinente: porque é que nunca ouvimos na televisão ou na rádio o Bastonário da Ordem dos Templários a dar as suas opiniões? Ver um tipo numa cota de malha, de escudo e espada, opinando sobre os conflitos globais, o regresso dos tons metálicos às passerelles ou até das hipóteses de Portugal nos JO de Pequim na categoria de esgrima, isso sim seria de louvar.
Mas infelizmente, só se vêem os “doutores” do costume, que muitas vezes não contentes em terem uma Ordem só para eles brincarem, ainda têm outros grupos para usarem apertos de mão secretos, aventais como uniformes ou juntando-se a pandilhas de nome em latim que rimam com a palavra gay. Um autêntico regabofe da criançada.
Quanto ao resto da malta que não tem essas aspirações, ou deixa crescer umas patilhas valentes (o bigode já não é ícone) e usa uma camisa de xadrez aberta até meio para se juntar a um sindicato clássico, ou escolhe uma profissão técnica de requinte que possa lixar a vida aos gajos das Ordens, só para não se ficarem a rir.
Creio que não me enquadro em nenhum destes cenários, mas se for preciso um Bastonário da Ordem dos blogs idiotas, estou disponível.

Música da ordem: New order – Blue Monday

3 comentários:

  1. Tanto azedume logo pela manhã de segunda-feira é, no mínimo, revigorante! Esta semana promete!

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  2. Minha cara, este já é azeduma de 6a. O de 2a está mais acima...

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  3. Não interessa quando se escreve, interessa quando se lê...

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Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.