5.11.07

Falha, mas não tarda


Poderia contar muito sobre o meu périplo por Londres e arredores (leia-se Oxford e Clapham Junction, onde aprendi muito sobre ligações ferroviárias). Mas, por agora, sabendo que a capacidade de absorção de informação do comum leitor é assim para o reduzido, fiquemos pelo apontamento cultural que me deu a oportunidade de mostrar que, artistas somos todos.
Indo eu à Tate Modern simplesmente porque tinha escrito num papel “Ir à Tate Modern para depois poder dizer que fui à Tate Modern”, reparei numa exposição de Arte Moderna de uma madame colombiana de seu nome Doris Salcedo. Sabendo que, na Colômbia, para além de futebolistas de corte de cabelo duvidoso abunda a droga (fonte de aspiração para muito artista), decidi ir ver.
O nome da exposição “Shibboleth” dizia-me muito, mas como não percebia o que ele dizia fui saber o significado, que passo a transcrever “A shibbolleth is a custom, phrase or use of language that acts as a test of belonging to a particular social group or class. By definition, it is used to exclude those deemed unsuitable to join this group.".
Chegado ao sítio da mesma, vi-me perante o cenário de não a conseguir encontrar, tendo no entanto achado suspeita uma falha no solo que ia de um lado ao outro de uma sala, para aí com mais de 150 metros. Resolvi perguntar a um dos funcionários onde era a exposição, respondendo-me ele com um sorriso: “Está a olhar para ela”.
A falha foi minha, mas antes de o ser já era da Doris Salcedo, que fez dela uma exposição. Não tenho aspirações artísticas, embora consiga fingir muito bem, mas senti-me um pouco enganado. Não pela falha, que essa era o que era, mas pelo facto de isto da arte moderna ser sempre uma questão de contexto/intenção do artista.
Sim, porque eu acho que vi uma, quanto muito interessante, forma de interagir com o público que tenta avidamente procurar significado ou ver se só há mesmo a falha, havendo até alguns ursos que, como eu, ficam na dúvida se aquilo é arte ou danos estruturais na galeria. Já a Doris viu que “it represents borders, the experience of immigrants, the experience of segregation, the experience of racial hatred. It is the experience of a Third World person coming into the heart of Europe.”
Ok, tudo bem o trabalho é dela, apesar de já ter visto muitas réplicas do mesmo em muitos prédios de Lisboa. O que me chateia nisto do conceptual é que eu, olhando para as migalhas do meu pequeno almoço posso pôr-lhes uma placa ao lado a dizer “Despojos do dia – Esta obra representa a atitude imperialista e a soberba dos países mais abastados, que fazem dos seus excedentes uma dádiva para os que necessitam, partilhando apenas o que desdenham e não o que valorizam”.
Não me custa nada, não vale de muito e, o mais triste de tudo, é que ninguém me vai dar uma galeria para eu encher de migalhas e fazer uns cobres pelo meio. É mais uma falha minha para eu juntar à da Doris...

A rodar, sem falha – Devo – (I can’t get no) Satisfaction

3 comentários:

  1. A propósito disto lembrei-me de uma vez que fui fotografar uma exposição do Pedro cabrita Reis a Serralves. Entre outras, bocados de tijolos cimentados a uma parede, um barracão de guardar ferramentas, etc, etc. Ao chegar á saida ia fotografar um circulo de cimento no tecto, ao que o funcionário que me acompanhava, me explicou que naquele caso se tratava de uma reparação do tecto, e não de arte. Até hoje me pergunto qual era a diferença... E acho que a única diferença é o autor ser o Pedro Cabrita Reis ou um mero trolha! Mas a "arte" era igual.

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  2. Antes falhas no chão do que fazer uma exposição onde se deixou um pobre animal morrer de sede e fome...começa-me a parecer que os artistas sul-americanos deviam ir todos levar naquela "arte"...

    (já cá faltava a defesa dos animais)

    PS-Mak, como não se paga para entrar, o que em Londres dá jeito, nem tudo é mau...

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  3. A Arte contemporânea precisa de etiquetas e de tectos! Galerias que nos asseverem que aquilo que vemos é mesmo arte e etiquetas que descrevam os objectos. Caro Mak perdeste foi uma oportunidade imbatível de fazeres um post sobre rachas (foste prudente, ao escolher a palavra'falha'). Vejo que a viagem te deixou mais wise e menos brejeiro.

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