8.11.07

Destas não te libras

Embora não tenha aspirações a tomar algum dia o espaço do Professor Marcelo, a não ser que se refiram ao espaço bancário, considero oportuno deixar umas notitas finais sobre esta pequena passagem por terras de Isabelita e seus súbditos.
Não se pense com elas que vou ser daqueles indivíduos que diz que em Portugal é tudo mau e lá fora é tudo bom, já que isso seria uma incoerência de carácter (se eu o tivesse). A realidade é esta, digo mal de tudo em todo o lado, mas sou acima de tudo uma espécie de Indiana Jones em busca de curiosidades perdidas, só que sem charme e sem chapéu.

- A arrogância britânica é sobrevalorizada. Na verdade, procurei ser vítima de arrogância em vários lados, desde pubs a supemercados, lojas de marca ou pedidos de informações aleatórios e não consegui ver o meu desejo de vitimização satisfeito. Tenho a vaga ideia que em Portugal teria menos trabalho, com a desvantagem de não conseguir praticar o meu inglês.

- “Hora de almoço” é sinónimo de “Come trampa e bebe para esquecer o que comeste”. Algo que já me tinha apercebido em visitas anteriores e comprovado nesta é que na “Bifolândia urbana” almoçar em dia de trabalho é uma experiência diferente. Basicamente, o prato corrente é “Pints a murro em cama de qualquer trampa pouco substancial deglutida enquanto o diabo esfrega um olho”.

- Simpatia que se vê no fim do mês. Uma coisa que me intrigou foi o facto dos motoristas dos comuns autocarros se despedirem afavelmente das pessoas quando elas saem do seu bus, muitas vezes, agradecendo ainda por cima. Pensei que ali havia truque ou uma compensação emocional desajustada, até que soube quanto ganhavam – cerca de 400 contos. Vou tirar a carta de pesados de passageiros e passar a vida a sorrir sem preocupações.

- Espaços verdes. Entre Londres e Oxford apercebi-me que os senhores, em termos de parques e jardins enquanto espaços enquadrados numa cidade, dão-nos goleadas monumentais. Creio até que há ingleses com mais verde nos dentes do que jardins em Lisboa.

- Cosmética e a teoria do bolo de anos. Se de facto se tem uma certa noção que as mulheres londrinas e afins tentam cuidar na sua imagem, também é justo dizer que se é verdade que uma boa maquilhagem pode “dar o tempero certo” a uma mulher, desfiles de bolos de anos na cara por toda a parte não têm o mesmo efeito.

- Medir as distâncias. Suponham que moram em Lisboa, mas têm amigos em Coimbra e gostavam de ir lá sair à noite ou de convidá-los para jantar, apesar de eles não terem carro. Entre Alfas e Expressos, não apanhar um autocarro ou um comboio à hora pretendida manda tudo às malvas, para não falar que viajar depois da meia noite, só se for nas traseiras de um Camião TIR. Londres e Oxford distam pouco mais de uma hora e meia. Há pelo menos duas companhias de autocarros que têm partidas de 15 em 15 minutos, dia e noite. E cumprem horários, traço geral. E se comprares ida e volta o desconto é tipo de 50% e não de 1€ a menos. Comboios nem vi, mas sei que há.

Resumindo o que daria uma Bíblia, o custo de vida lá é caro? É, mas é uma realidade diferente e o que têm para justificar esse custo, justifica perfeitamente a factura a pagar, parece-me. O problema do nosso burgo é que pagamos muito pelo pouco que nos dão e tentam fazer-nos acreditar no contrário.
Mas, idealistas como somos, continuamos a acreditar que isto pode mudar, que aquilo temos e vai para além do material e palpável nos torna um país único onde vale a pena viver.
Estupidez utópica ou o mistério científico de gostar de ser português?
Enquanto não percebo qual é a melhor resposta, defendo um misto dos dois: Gostar estupidamente de ser português, mas ponderar fazer digressões internacionais para divulgar o conceito.

Soando em background – Iggy Pop – The Passenger

2 comentários:

  1. adoro o cinismo.
    também tanho a mania de criticar tudo e todos. e ainda acho que sou construtiva.

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  2. o mais bonito é que quando em conversas sobre o nosso belo país nos damos conta que de facto temos muito menos para oferecer do que aquilo que imaginávamos ter, já que até nos vinhos mais de 50% dos melhores do mundo säo franceses, por muito que isso me custe a admitir, entäo, tal qual um puto sem argumento que diz sem vergonha na cara "quem diz é quem é", atiramos-lhes com o belo do tempo.

    "AH é! Mas a última vez que olhei para o teu termometro estavam -30. TOMA!" e com esta volta o velho orgulho de ser pobre, às vezes um pouco embrutecido, mas acima de tudo Português.

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