19.10.07

Censo Comum

Prosseguindo nesta fase muito humana da minha verve, debruço-me hoje sobre o facto da maior parte das pessoas que sofre do mal de ter (ou pensar que tem) amigos, ter nesse mesmo lote alguém que trabalha no INE.
Enquanto se questionam se eu já nasci assim ou fui vítima de grave acidente, deixem-me esclarecer: o amigo do INE, que já estão a negar à partida conhecer, não é necessariamente um funcionário dessa nobre instituição dedicada às artes estatísticas, apenas se comporta como tal. Caramba meu biltre, muito gostas tu de metáforas de cariz duvidoso, replicam vocês, insistindo em não ficar calados ao ler os meus textos. Antes metáforas do que mulheres desse género, avanço eu sem grande mestria, tentando voltar ao tema.
O amigo do INE é aquele que disseca a nossa/vossa vida, sem que tal seja sinónimo de preocupação pela mesma, mas sim de uma curiosidade mórbida por factos e dados específicos, essencialmente sobre bens materiais. É aquele personagem que troca o “Olá tudo bem”, “Que é feito de ti?”, “Vamos beber um copo?” ou “Como é que estão os teus pais?”, por coisas simples e amistosas logo de entrada, como por exemplo: “Então estás a trabalhar onde? Ganhas quanto, limpo?, “Já compraste casa? Quanto pagas, por quanto tempo?”, “Vives sozinho ou com a tua namorada? Possuem carro próprio? Cada um?” (esta, há provas que a pergunta foi literalmente feita assim a uma dada pessoa, não é invenção pura) e muito, muito mais.
Embora defensor acérrimo do materialismo, visto não ter muito a esperar da vida em termos de espiritualidade, este tipo de abordagem melindra-me um bocado o sistema, especialmente porque tendo-se na conta de “nossos amigos”, muitas vezes esta gente dispensa os rodeios de nem sequer se disfarçar a avidez de informação.
“Tens quantos ténis de marca?”, “Essas férias ficaram-te por quanto?”, “Os implantes de silicone da tua irmã foram feitos onde e por que verba?” são temas naturais e essenciais para o amigo do INE, sempre abordados com um sorriso nos lábios. Para mim não colam. As pessoas que fui dado a conhecer, e que faziam deste registo uma constante, posso dizer que hoje não constam do meu cardápio de contactos regulares.
A título de dica da semana, eis algumas respostas para acabar com esse questionar constantemente, sobre matérias semelhantes. Depois de rebater as perguntas: “Esse relógio foi comprado cá?” e “Então, quanto costumas pagar em média por um corte de cabelo?”, avancem com algo como:

- Olha, dá-me o teu email lá do INE, que eu quando tiver mais tempo respondo-te ao questionário. (se não a tiver já de modo natural, a cara de parvo do interlocutor tem valor acrescentado)
- Desculpa, podes repetir as perguntas? O barulho da calculadora na tua cabeça não me deixou percebê-las.
- Jovem, e se para varia fosse eu a fazer-te uma pergunta. E que tal se fosses ser chato para o c....? (menos elegante e, até certo ponto, pleonástica, esta resposta garante no entanto a paz eterna, no que a este caso específico diz respeito.)

PS – Para mostrar que também sou um gajo atento ao mundo actual, despeço-me com um facto sobre o “Tratado de Lisboa”, ao que parece acertado ontem à noite. Porque é que tenho a ideia que Portugal é tipo um empregado de mesa que está muito contente pelos elogios feitos à ementa do restaurante, pensando que sem ele o sucesso do mesmo era impossível. Pode ser que nos dêem gorjeta...

On air - Thievery Corporation - Richest Man in Babylon

7 comentários:

  1. A mim nunca me passou ninguém deste calibre pela máquina registadora da minha vida...

    Eu acho que estes amigos não são do INE mas sim meros contabilistas que preconizam "Diz-me o que tens, dir-te-ei o quanto vales".

    ResponderEliminar
  2. Mak, tu não tens amigos, tens prestadores de serviços! (e do sis). Estou a gostar destes posts mais "introspectivos" e com música excelente. Por mim já ganhaste o beer award!

    ResponderEliminar
  3. Eu ando é com muitas dificuldades em distinguir o amigo do Alheio, do amigo da Onça. Não é fácil...

    ResponderEliminar
  4. (isto do beer award é só para ser socialmente aceite. quem me conhece sabe que não bebo cerveja, mas pela Super Bock estou disposto a começar)

    @maryana - A diferença está no bafo, o do Alheio não tem, o outro...

    ResponderEliminar
  5. AMOR ao dinheiro e algo que nao me sai da cabeca! afinal ee isso que faz girar o mundo.

    interesseiras ros ha muitos! so que nao precisa nao eee interesseiro

    AL

    ResponderEliminar
  6. Pronto, já cá faltava!!...

    ResponderEliminar
  7. Mak, mal por mal, organismo público por organismo público, antes um amigo do INE que te faça essas perguntas todas, do que um amigo das finanças que te obriga a dizer-lhe tudo e ainda te fica com o dinheiro...;)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.