30.7.07

A tragédia da comédia

Gosto de rir, principalmente da desgraça alheia, mas não sou dogmático ao ponto de não o conseguir fazer por motivos mais triviais. No entanto, tenho uma deficiência social grave que me impede de rir por obrigação, o que poderia ser muito grave, não fosse eu um hábil manipulador (inserir riso sinistro em background).
Tendo em conta este cenário, e juntando-lhe um sentido de humor altamente egoísta, daqueles que faz com que não me preocupe minimamente se há mais alguém além de mim a achar piada a algo (que outra razão poderia estar na base da sobrevivência deste blog), pode dizer-se que o género comédia é um claro desafio para mim, especialmente no cinema.
Primeiro que tudo, não posso ir ver filme nenhum a pensar que vai ser uma barrigada de riso. Um critério apertado e uma expectativa elevada não correspondida podem dar origem a um ar enfastiado que alguns podem entender como pedante, mas é amargura por ver cinco euricos mandados ao lixo.
Segundo, o melhor é sempre ser surpreendido pelo humor onde não se espera. Rir às bandeiras despregadas em filmes como Philadelphia, Alien ou A Lista de Schindler, mostra-me de facto que sou uma pessoa muito especial, mas também me complica a tarefa de arranjar companhia para ir ao cinema.
Terceiro, tenho alguns atritos com as pessoas (e os seres semelhantes) que como vêem comédia escrito no género do filme, batem recordes de riso, gargalhando copiosamente do apagar da luz ao acender da mesma. Acredito piamente que é possível uma pessoa divertir-se com pouco, quase nada mesmo (não imaginam as horas de diversão que a frase “Gostas do meu corpo” e uma lista de extensões do local de trabalho podem proporcionar), contudo continuo a preferir conviver com pessoas que riam pouco mas com critério do que com gente que ria muito sem critério algum. E esta premissa tanto é válida para o cinema, como para a generalidade das coisas.
Tudo isto para dizer que fui ver os Simpsons, série com que cresci e que sem deificar, sempre apreciei. Não fui ver com a expectativa do El Dorado da risota, mas sim como uma extensão de um episódio, bom para descontrair sem pensar muito (para as pessoas que pensam é claro, doença de que não sofro). O objectivo seria cumprido, não fosse uma família do Entroncamento duas filas abaixo, que não previ quando evitei centros comerciais e outros antros para ir ver o filme.
O fedelho mais novo ria alarvemente, comentando o filme da mesma forma que ria e em volume elevado. Pensei que estaria safo, quando a mãe disse “Cala-te pá”, coisa que ele cumpriu...durante 10 segundos. Nesse intervalo, fui apresentado ao filho mais velho, na fase de mudança de voz, que se ria num timbre que oscilava entre o horrivelmente estridente e aterradoramente ribombante. Visto que aquilo se mantinha constante, pensei que a coisa não poderia piorar, até que aquilo que pensei ser um filho ainda mais velho envergonhado e bem nutrido, deu um ar de sua graça. Já não era uma criança, era um homem, não era um filho, era o pai e, foi fácil perceber a quem saiam os filhos. Eram os deuses que me castigavam, gargalhando na minha presença, com Homer em pano de fundo, dando-me um background dos “Três Terrores em concerto em riso maior”.
Sendo este um dos raros cinemas ainda com intervalo, verifiquei que não era só alucinação minha. Alguns dos outros espectadores já queriam pegar em archotes e barras de ferro, outros mudavam de lugar para se afastarem do Gargalhódromo. Essa parte achei divertida.
O resto do filme manteve a bitola, ah-ah-ah, oh-oh-oh, mesmo quando o ecran estava a negro. Não tivesse eu preguiça e ainda abria uma vaguita para esta família no contentor da semana. Será que esta família era uma personificação dos Simpsons? Terei a resposta quando morrer, visto que do Inferno aquela gente não se safa.
Concluo, apelando ao vosso bom senso, se é que têm algum (haja fé na Humanidade). Da próxima vez que pensarem ir ver uma comédia ao cinema, pensem duas vezes, vão ver um thriller russo de inspiração mongol. Podem arrepender-se, mas pelo menos é só do filme e não da audiência. Se, por outro lado, acham piada a tudo e são cópias chapadas daquela família, também não vão levar a mal se eu disser que são uns atrasados mentais de primeira. Encarem isto como uma cena gira tipo elogio.


Em alta voz: I Started a Joke - versão Faith No More (estive para pôr Bee Gees, mas achei que tanta comédia num só post era demais)

11 comentários:

  1. Quando me perguntarem porque é que não vou ao cinema há mais de 4 anos, dou-lhes este link...

    Folgo em saber que não sou o único com maus (bons) fígados... Misery loves company

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  2. E se à risota, se juntassem baldes de pipocas comidos desalmadamente, fazendo com que as casquinhas do milho voassem e se colassem na cadeira ou na pessoa da frente, em cada gargalhada estridente, e se juntassem também copos gigantes de coca-cola, sorvidos avidamente pelas ruidosas palhinhas até chegar à última gota; e esta última gota teima em não querer sair do copo, e a criança sorve e sorve até ficar sem fôlego, altura em que sai mais umas private-joke americana dos simpsons, que ninguém desta família percebe, mas ri a bom rir, não vão as pessoas pensar que são burros...o cinema é lindo.

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  3. eu acho mais piada à comédia da tragédia. foi por isso que ainda não fui ver o harry poter. tive medo que me pelei da audiência.
    mas voltando a filmes engraçados. se queres rir a bom rir, não há melhor que a simple story do david lynch. AI o que me rio com a cena do veado. é um fartote.

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  4. Compreendo o teu riso fora de tempo (ía escrever extemporâneo, mas tive medo de voltar a afugentar leitores). Também o partilho... Só não partilho a motivação que te leva ao cinema para ver os Simpsons. E o Death Proof, já viste? A cena da trucidação é digna de algumas gargalhadas!

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  5. Foi um momento de nostalgia cara Cuga, raramente vejo os Simpsons na Tv hoje em dia, e deu-me para aquilo, recuerdos de infância. Tb poderia ter dado para ir à Pedreira dos Húngaros, mas já não existe...

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  6. É verdade! Vi ontem o Death Proof e digo-vos que não me ria num cinema há muito tempo! É absolutamente brilhante. Do melhorzinho dos últimos tempos.

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  7. SFF: Por este andar, ainda abrimos uma seita (só que em vez de terços e drogas, vendemos conchas)

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  8. Pode ser de letras, de tomate, de abóbora... Essencialmente estava a ser dúctil tentando trazer alguma intertextualidade para este blog, aproveitando o facto de ser muito visitado...

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  9. Ana Patricia

    Ta demais!! mas a ultima frase achei seca!(um amargo com doce as vezes sabe bem?) nao intendo, devo ser atrasada mental, a piada da letra, tb nao conheço a letra!

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