2.7.07

Soestorvamus - Os profetas do apocaleunãotedisse



Existe uma expressão que define, em traços gerais, o que é ser português. São quatro palavrinhas curtinhas que, se alguém me disser que nunca as ouviu, eu só acredito se isso me for dito em linguagem gestual. Traduzem-se elas na mítica expressão “Eu não te disse”.
Estas quatro palavras são como que uma simbologia cósmica que no nosso Portugal, tal como um bom vinho, vão bem com tudo, bastando variar o tipo de expressão facial, como acompanhamento (reprovador, carinhoso, professoral, amargurado, etc).
Há algo dentro de nós, não no sentido do filme Alien, que nos faz tentar ser proféticos e capazes de prever o futuro, maioritariamente de forma pessimista, de longe em longe dados a alegrias exacerbadas (tipo montanha russa emocional), mas sempre desdenhando dos que efectivamente dizer ser profissionais do ramo da profecia ou equivalentes, lote onde se incluem personagens como o Oráculo de Bellini, a Abelha Maya, a vetusta Alcina Lameiras ou o Paulo Cardoso, isto para não falar no Professor Bambo e no vasto colégio de doutores e professores africanos.
É certo que por vezes há a tendência para camuflar esta expressão com variantes, “Eu já sabia”, “Eu vi logo” ou “Não é nada que eu não estivesse a ver”, mas a génese é a mesma, nós conhecíamos o futuro e, ou optámos por só o revelar depois de ele acontecer, certamente para não chocar almas mais sensíveis, ou como dizemos sempre o mesmo já ninguém nos liga, por isso toma lá um “Eu não te disse” só para aprenderes.
O que eu gosto nesta faceta profética, não é apenas o aspecto camaleónico que a torna válida tanto para o lado sentimental, como para o lado profissional ou outro lado qualquer desde que envolva duas pessoas e pelo menos uma dela tenha a mania que é esperta. O que eu gosto mesmo é o facto de as pessoas, hoje em dia, já nem sequer se darem ao trabalho de dizerem o que é suposto dizer, para que depois faça sentido dizerem “Eu não te disse”. Confuso? Talvez, mas se fossem pessoas iluminadas, também não andavam aqui a fazer nada...
É que dantes as pessoas ainda faziam um esforço para depois poderem pôr a cerejinha no topo do bolo, que é virarem-se para alguém que não está nos seus melhores dias e dizerem “Eu não te disse”, só para ouvirem “Sim, é verdade tu disseste-me”. Esse sim, é gozo supremo do profeta de ocasião, a confirmação dos seus dotes mediúnicos, nem que seja no facto de o bife não ser uma melhor escolha que o arroz de gambas. Mas, com a falta de tempo e a abundância de superficialidade, hoje é mais fácil dizer apenas “Eu não te disse”, mesmo que na realidade não se tenha dito porra nenhuma. As hipóteses de ouvir “Não, não me disseste” são reduzidas, porque quando alguma coisa corre mal, as pessoas querem, na sua maior parte, colinho e festinhas e é mais provável tê-lo de um profeta satisfeito do que alguém irado por lhe dizerem que é tão normal como outra pessoa qualquer e não a Allison Dubois ali da esquina.
Por isso, os três que ainda não desistiram de ler isto até aqui, para depois poderem dizer “Eu não disse que este gajo tem problemas graves” que evitem andar por aí a repetir frases deste género junto daqueles com quem convivem. Acreditem, vão ser certamente menos odiosos e não me vão dar o gozo supremo de, cada vez que disserem “Eu não te disse”, terem a certeza que algures eu vou estar a dizer o mesmo sobre o facto de não irem conseguir evitar dizê-lo.

8 comentários:

  1. Bom, dps do post!!!...lá se foram o colinho e as festinhas

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  2. A ultima frase estraga o post todo. Eu nao digo "eu não te disse" muito pelo contrario digo "ta descansada(o) que nao te vou dizer que nao te avisei"

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  3. A mim nunca ninguém me diz nada!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Também podes usar noutro contexto. Por exemplo: Eu não te disse que era melhor largar as drogas? ;)

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  6. @ ch - Eu já sabia...

    @ fausto -se for só o último parágrafo a estragar não é mau, eu tinha a noção q era tudo para o horrível ;)

    @ eu digo, mas palavra que não é para levar à letra

    @ bem visto - fiquei agarrado nessas palavras

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  7. Então e a Linda Reis e o Alexandrino (firme e hirto como a vassoura).
    Eu nem me dou ao trabalho de o dizer o quer que seja.
    Faço a minha cara 36 com ar de gozo...
    Vale mais do que mil palavras!

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  8. De facto tens razão...vou mudar as minhas 4 para:

    "Toma lá, vai buscar"

    ^_^

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