24.7.07

Se és da 5a Dimensão, dá-me um desconto

É certo que ao longo desta vida, caso não tenham decidido por viver como eremitas isolados do mundo (e neste caso, que fazem a ler este blog seus marotos), estamos destinados a cruzar-nos com pessoas estranhas. Nalguns casos isso fará sentido, porque estamos num país estranho ou no Martim Moniz, noutros casos seremos surpreendidos, pois o que aparentam ser pessoas normais à primeira vista, são na realidade fenómenos do Entroncamento.
Foi a essa experiência que fui submetido, quando depois de um jantar com amigos, onde constavam algumas pessoas que não conhecia tão bem, me vi em pleno Bairro Alto, no meio de uma conversa surreal. Estava perante um jovem amigo de um amigo de um amigo que, apesar do seu ar ligeiramente alucinado, era capaz de manter um discurso coerente, pelo menos foi isso que pensei. Tendo sabido que estava a viver em Londres, arrisquei:
- Então, estás a viver em Londres. A estudar ou a trabalhar?
- Bem... – O jovem olhava para mim como se tivesse dúvidas na resposta a escolher - ...eu trabalho, mas não foi por isso que fui para Londres...
- Ah não? – comecei a imaginar que podia haver gaja/gajo/animal por trás dos seus motivos – Então?
- Epá, eu emigrei por causa das drogas – respondeu com um sorriso de iluminado.

Nesta altura, fiquei à espera de uma punchline, de uma piada com medicamentos, de uma confirmação sentida de uma desintoxicação, mas nada. Nem sequer me surgiu uma resposta pronta, coisa que me é habitual, pois na minha cabeça, estávamos a entrar noutro paralelo dimensional. Vendo o meu ar estupefacto, o jovem avançou:

- Sim pá, foi mesmo por causa das drogas. Tu não imaginas, começas a conhecer os circuitos e, de repente, estás em casa à 2a à noite e estás aborrecido folheias uma revista e tau, já sabes que no Clube X há pastilhas e mais isto e aquilo, que no outro consegues comprar umas gramas mais baratas porque há menos movimento...
- Ahhh... – foi a única coisa sofrida que consegui articular, enquanto procurava um ponto de fuga ou alguém que trouxesse um pouco de sanidade à conversa.
- Mas não penses que passo as noites em clubes – afiançou-me, decerto para que eu não pensasse que estava perante um folião – quando conheces as pessoas certas, quase que nem precisas de sair de casa para teres acesso a drogas.
- Mas...afinal trabalhas em quê? – tentei levar a coisa para uma zona mais real, embora temesse uma resposta do género “Ah, sou prostituto, mas é só um hobbie”.
- Faço uns trabalhos simples, para não gastar a mioleira (qual mioleira?). Cenas que me garantam dinheiro, sem ter que me lixar todo (pois, há coisas mais importantes à espera) – E depois acrescentou, baixando a voz como se o resto da conversa tivesse sido banal – Além disso, tive sorte, a minha vizinha da frente é uma junkie (coisa estranha para ele...) e volta não volta, aparece lá à porta para vender um ipod ou uma televisão ao preço da chuva, que depois vendo na boa com lucro.

O facto de esta última frase ter sido dita com o orgulho de quem se sabe mexer no mundo dos negócios e desconhece a palavra/conceito de escrúpulos, fez-me ver que o meu combustível para viajar na 5a Dimensão estava a acabar. Assim, utilizando um ardil muito comum de “Olha quem está ali, é o Padre Frederico!” e aproveitando a distracção criada para fugir, dei por terminada a minha lição sobre “Drogas e emigração – A way of life”.
Respeito a liberdade pessoal dos outros, desde que a mesma se situe na mesma dimensão que a minha. Por isso, se por acaso nos conhecemos em pessoa e têm histórias desta mesma cepa para partilhar comigo, por favor esperem até eu estar alcoolizado para as divulgarem. É que assim o meu subconsciente, no dia seguinte, pode dizer-me que foi tudo um sonho e estas pessoas não existem, ao passo que assim tenho de viver atormentado por saber que eles estão no meio de nós ou, na melhor das hipóteses, a viver em Londres por causa das drogas.

Clássico do Baú – Dr. Alban – No drugs (pessoalmente, preferia o Hello Africa, mas este era mais adequado).

8 comentários:

  1. que historiazaça, so eu não conheço gente assim tão empolgante!

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  2. Não sabes tu a tua sorte. Tiram-te anos de vida episódios como este...

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  3. Bolas Mak! Estás parte da noite com o Pete Doherty e nem lhe perguntas pela Kate Moss e o motivo da separação desta vez!

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  4. Como passo muitas vezes pela meia-laranja, percebo bem o encanto da droga: tudo malta saudável, bem encarada, feliz, com a vida toda pela frente!

    Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais...

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  5. Caramba... emigrar atrás de drogas... é realmente coisa de 5ª dimensão... e nem tem vergonha de o dizer! Se calhar podia mesmo inventar umas mentirinhas para não parecer mal, tipo, "Fui para Inglaterra atrás de umas gajas, a Maria Joana e a Lúcia (in the Sky with Diamonds)... e em termos de trabalho, pá, compro umas empresas q estavam a abrir falência para depois as vender a outras empresas mais caro." Sei lá... pelo menos não admitia de forma tão gritante "Emigrei para Inglaterra para ser um parasita ainda maior do q já era."
    Mas é assim mesmo... há q ter orgulho naquilo em q nos tornamos.

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  6. Pois eu emigrei para a Finlândia por causa da música dos Monthy Python. E não me desiludiu em nada, é mesmo assim como eles cantam,

    oh the tree tops so high,
    oh the land and the see
    finland finland finland
    is the country for me

    é que aqui não há mesmo mais nada.

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  7. Eu emigrei para Amesterdão mas voltei.
    Dizem que estive lá 7 anos mas não me lembro...
    Só das festas: www.multisexi.nl

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  8. Apanha-se com cada um...:) mas sempre tem a vantagem de a seguir olhares para as tuas manias e veres que afinal estás mais perto da normalidade do que pensavas...;)

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