29.6.07

Grates, Grates, Grates - Ou a razão porque ser de graça não tem muita piada

Não sou um idiota puritano com a mania da superioridade, pois não possuo a amplitude mental para desempenhar tantos papeis ao mesmo tempo, por isso contento-me em ser idiota. Talvez por isso, ao contrário de multidões que todas as manhãs vejo a caminho do estaminé profissional, fujo da panóplia de ofertas grátis gratuitas que a malta dos gratuitos faz o favor de distribuir pelas massas.
Para além dos quase acidentes de trânsitos que os Bio-Activias, as barrinhas de cereais ou os sumos de fruta causam regularmente, nada me deprime mais do que ver magotes a rodear os distribuidores de mãozinha esticada e ar ansioso. Para além do ar por vezes assustado que quem distribui tem, bastava pôr um helicoptero ao fundo e tirar os saquinhos da marmita a uns quantos figurantes e podia perfeitamente ser um cenário do Dharfour ou coisa semelhante.
O cenário terá batido no fundo quando outro dia alguém me aborda com um caixote na mão e, em vez de ver qualquer bem comestível de borla oferecido gratuitamente (por dois segundos antes de ser subjugado pela multidão), me tentam dar dois livros, medonhos por sinal (em termos de conteúdo). Comecei logo a observar a envolvência para ver a reacção dos seguidores da Ordem dos Fãs de Cenas Grátis. O entusiasmo inicial mantinha-se, a abordagem qual ave de rapina aos senhores da distribuição era idêntica, mas depois de ver o bem em questão, o circuito quebrava-se.
Vi gente a tentar comer o livro com ar incrédulo, a descascá-lo em procura do verdadeiro artigo grátis e a folheá-lo em busca duma verdadeira razão para uma oferta grátis isenta de custos. O entusiasmo era substituído pelo sofrimento, especialmente quando uma senhora com umas latas de refrigerante se aproximou do gajo dos livros. As mãozinhas que se agitavam tinham agora livros numa das mãos, malas e mochilas na outra e os saquinhos de marmita já estavam presos nos dentes. O caos imperava e não fosse eu ter que ir fingir que trabalho e teriam sido uns minutos gloriosos de observação social memorável. Assim é apenas um post mediano num blog medíocre.
Fica o aviso, para além do desejo de pôr o gajo que teve a ideia das borlas matinais numa camioneta frigorífica rumo ao fundo do rio (onde já está outra com o tipo que se lembrou de pôr gente do Citybank em superfícies comerciais, razão pela qual ando com a barba por fazer e me visto mal, já que assim não sou abordado). Não dêem livros à multidão, especialmente se são maus e sabem mal. O pessoal não gosta, atrapalha a recepção de outras ofertas e, para os poucos que os tentarem ler, podem causar lesões cerebrais que os impedirão de tentar ler livros de verdade.

PS – Este conselho não é de borla, já pagaram com o vosso tempo e paciência para aqui chegarem, enquanto bebem uma Cola zero diluída num Actimel mergulhado num Bio Activia com barrinhas de cereais, que calhou a vir para às vossas mãos.

5 comentários:

  1. Diz-me ó grande Mak: Quais eram os livros? Ontem, por acaso, aconteceu-me algo parecido: estive a promover um estabelecimento de ensino, oferecendo folhetos grátis de novos cursos. Assim que liam as palavras "Ciências Humanas" alimentavam logo o 1o caixote que encontravam. Quando os folhetos ameaçavam acabar, fomos ao caixote e recomeçámos. Conta quem lá ficou, até às duas da manhã, que destribuímos os mesmos cem folhetos quinhentas vezes e, no final, sobraram 99 prontos para distribuir esta noite. (Confesso que trouxe um comigo!)

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  2. Bem, a coincidência é tanta que, mesmo correndo o risco de parecer forçado, devo dizer que depois da amnhã de hoje disse: tenho de escrever um post sobre isto! Em jeito exagerado, saí e levei logo com um "Meia Hora" na garagem, o Destak no meio da estrada, o folheto recusado da Garagem que faz alinhamento de direcção com 25% de desconto, o porta-chave de fita e o sampling de um novo produto no local de trabalho. Isto tudo num trajecto de 6 minutos. Obrigada Mak por me teres poupado...

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  3. Ah, e a brochura da nova urbanização da Alta de Lisboa...

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  4. já agora gostava de saber que livro era... de qualquer das formas gostei da prosa :)

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  5. @ Interessados nos livros - O meu consciente bloqueou os nomes das ditas obras, mas não sendo de Margarida Rebelo Pinto, pareceram competir qualitativamente com a mesma...

    @ sff - eu já preconizei em tempos que pouco faltaria para ficarmos com o Expresso, se juntarmos os gratuitos todos que nos dão, senão vejamos Metro, Destak, Diário Desportivo, Meia Hora, Oje (e isto foi sem prensar mt...), junta-lhe uns folhetos publicitários e...voilá

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