4.5.07

Deitar contas à vida

Não se pense que este título se refere a uma reflexão profunda sobre o rumo da minha existência. Sei bem para onde ela se dirige e, tal como qualquer motorista de um autocarro para a Falagueira, já me resignei. Também não é o 2º capítulo da saga atrás descrita, essa continuará a seu tempo, já que os astros não estão em posição favorável para que o faça.
O que me traz aqui hoje é um fenómeno que tem interessado milhões de pessoas pelo mundo inteiro, nem que seja apenas na altura de pagar impostos – a contabilidade.
Esqueçam cálculos pormenorizados, teorias refinadas de fuga aos impostos ou até o facto do departamento mais criativo de qualquer empresa (mesmo de publicidade) ser o financeiro/contabilidade. O que me chocou meus caros, foi o que vi ao passar ontem às portas do ISCAL, em teoria o templo de formação de futuros escribas contabilísticos e afins.
Nem um tipo com pinta de nerd vi eu, nem uma jovem vestida como a sua avó, com uns óculos cujas lentes encheriam um vidrão de uma só vez. Rapazes precocemente carecas, camisas xadrez abotoadas até aos ouvidos – nada. Colunas deformadas pelo excesso de livros de balanço para treinar ou intenso cheiro a naftalina em blazers old school – rien.
O que eu vi foi gente com ar modernaço (ou pseudo modernaço), gente que me pareceu perfeitamente integrada na sociedade e não destoando da mesma, o que é mau, para não dizer péssimo. Como será o futuro das empresas, com contabilistas que saem à noite sem ser para passear o cão dos pais, contabilistas que têm amigos fora do ramo e vão para a praia no Verão?
Será o caos é o que vos digo, pois ninguém vai dar credibilidade a esses contabilistas. Por exemplo, as autoridades quando virem um tipo destes a dizer-lhes que a empresa tem prejuízo há cinco anos seguidos e que o Ferrari do patrão foi uma herança de família alguma vez vão acreditar numa pessoa que parece normal e, desse modo, com alto potencial de desonestidade? Não me parece.
Isso para não falar nos chefes que não vão poder pressionar o contabilista a não ir a casa no fim de semana porque os registos têm de ficar falsificados a tempo, tudo isto porque agora correm o risco de ouvir que têm coisas combinadas com os amigos ou até mesmo com a namorada/o. Contabilista com vida pessoal é a ruína da falcatrua empresarial.
A minhas única esperança é que aquela gente que vi, sejam aqueles que desistam, ou que queriam entrar para Antropologia e não conseguiram, até porque aspirante a singrar no mundo da contabilidade não anda às três da tarde a apanhar Sol na rua. Está sim a pedir um estágio numa qualquer instituição bancária ou empresarial de renome para aprender trafulhice com quem realmente sabe do ofício.
É que a ser verdade, vai ser o fim de Portugal tal como o conhecemos, porque o país ainda não está preparado para uma vaga de gente normal que se quer fazer passar por contabilistas.

1 comentário:

  1. escrito isto assim eu até pensaria q estavas a pensar contabilista colorida(o) para dar outra cor aos recibos verdes...

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