10.5.07

De cortar à faca




Depois de uma noite bem passada, coroada pelo engraçadíssimo pormenor de chegar à porta de casa à uma e tal da manhã e perceber que me tinha esquecido da chave no trabalho e portanto ter de lá voltar com um sorriso nos lábios (ou seria um esgar?).
Encontradas e amaldiçoadas as chaves, aproveitei o regresso para matar saudades de um desporto que evito quase sempre que posso: andar de táxi. E, visto que felizmente o senhor de farta bigodaça ao volante não era do género comunicativo, pudemos ambos concentrar-nos no essencial do programa de rádio que ocupou a minha vida durante 5/7 minutos e a dele possivelmente a semana inteira...
Para grande surpresa minha, ainda existe aquele tipo de programas em que uma senhora com voz misto de cama e de mãe, atende telefonemas de almas penadas durante a madrugada inteira. Pensando eu que, no máximo, já só haveriam alguns programas de discos pedidos, mais algumas coisas semelhantes em rádios locais, eis que oiço este grande estilo clássico radiofónico a entrar-me pelos ouvidos .
A surpresa inicial rapidamente deu lugar a um ambiente de cortar à faca, não porque surgisse algum debate entre mim e o taxista sobre o tema, mas porque a vontade de cortar os pulsos aumentou exponencialmente.
Não se pense que esta vontade de trinchar as veias como se de um perú se tratassem se limitava à minha pessoa. O senhor que falava no ar na altura, usava tudo quanto era pretexto para evitar terminar a chamada, possivelmente com o telefone numa mão e uma Faca Ginsu na outra. A senhora com voz de cama/mãe, apesar de todo o carinho meloso e ligeiramente enfastiado com que tratava o seu ouvinte, possivelmente segurava uma faca de abrir correio numa mão, amaldiçoando o dia em que disse querer fazer um programa mais intimista. Já o taxista, hesitava entre cortar os pulsos ou a minha garganta, pois gajo que o tire de uma praça de táxis para uma viagem de três euros e meio não merece viver.
Quando saí do táxi ainda a senhora tentava que João desligasse, enquanto este dizia que qualquer dia aparecia lá na rádio para fazer uma visita e a senhora, se bem que hesitante acrescentava que as portas estavam sempre abertas (ao mesmo tempo que passava os dados do João ao segurança do prédio, não fosse este aparecer mesmo).
Sei que estes programas servem como catalizador para muita gente solitária que por aí anda. Mas, solitários, se me estão a ler, pensem no seguinte: estes programas são como anestésicos, não curam, só adormecem (positivo apenas para quem sofre de insónias). Além disso, por cada programa destes, há uma forte probabilidade de haver gente saudável a cortar os pulsos depois de os ouvir. E, meus amigos, quanto menos gente houver mais solitários ficam...

4 comentários:

  1. Mak:
    Uma noite bem passada não termina "à uma e tal da manhã", OK? Hoje por acaso, numa estação "Rádio estremoz" ouvi um anúncio a uma loja "Redondo e Camões" que dava um post, mas a minha aparelhagem do carro, infelizmente não tem "rec".

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  2. fosses a fátima e não precisarias de rec...
    podia não ser lá grande coisa de noite. podia até acabar mais cedo.
    mas que dava um belo post, dava...

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