16.4.07

Quem conta um conto, ao menos que valha a porra de um ponto

Sofro de um mal a que alguns chamam gostar de ler. Surgiu-me desde petiz e, por mais voltas que dê, não desaparece. Já tentei curas de Floribella, de Playstation, de desvarios nocturnos, mas nada resulta e mal me apanho com tempo, lá vai mais um livrinho.
Como já percebi que mais depressa deixo crescer um bigode do que deixo de ler, já desisti de tentar ser um português tradicional, lendo apenas “as gordas” do jornal, metade de um gratuito e, ocasionalmente, comprando um livro bonito para ter na estante lá em casa.
Um género de livros que ultimamente tenho consumido, têm sido os livros de contos, tanto porque me interessa o tipo de escrita dos mesmos, como procurava assim umas coisas diferentes, tanto ao nível de autores, como de temáticas.
Até agora, depois de uns quantos exemplares, tenho ficado algo desiludido, sendo que um deles “Idiotas” de seu nome (não confundir com “O Idiota” e, por sua vez, não confundir comigo), me deixou amargurado por só ter percebido no fim que o título se referia aos monos que compravam o livro.
Para além das inúmeras edições de reciclados/restos de obras de grandes autores, que são compilados no formato de livro de contos, dos quais se aproveita uma escassa percentagem (tenho lá dois em espera, pode ser que me engane), tenho notado que não há por aí muita oferta sedutora na área. Nalguns, as temáticas são boas, mas os contos escolhidos pecam no enredo ou na conclusão, noutros a escrita é boa mas falta ali qualquer coisa que não faça a coisa parecer que estamos a comer daquelas fatias de queijo envolvidas em celofane. Sim, tirar o celofane ajuda, mas o queijo continuará a ser pouco saboroso e com ar falso.
Creio que, focando no panorama nacional, fazem falta pessoas que saibam contar pequenas histórias interessantes, sobre temas diferentes e que prendam as pessoas, sem serem épicos teatrais, histórias para crianças ou literatura light, isto é, verdadeiras short stories. Também podia falar em argumentistas, mas isso iria ser outro rosário...
Por isso, se até lês umas coisas e gostas de opinar, recomenda-me livros de contos e, se tiverem qualidade, sou gajo para te ficar em dívida eternamente (é uma maneira simpática de dizer nunca te vou pagar, caso tenhas delírios de grandeza).

16 comentários:

  1. ha uma antologia de contos publicada pela cotovia que dá pelo nome de "fotografia de grupo", estão lá compilados contos de Jacinto Lucas Pires, Luísa Costa Gomes...eu gosto bastante..mas também não conheço os seus gostos. fica a sugestão.

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  2. O objectivo é mesmo esse, que não conheçam os meus gostos, assim propõem coisas diferentes e não são "enviezados".
    Por isso, muito obrigado e siga para bingo.

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  3. Dantes gostava bastante dos contos de reis...

    Ps- deram-me os "Pezinhos de Coentrada" da Alice Vieira mas ainda não li, está em lista de espera. Depois Conto-te!

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  4. estou a ler "a varanda de Julieta" de Pinheiro Chagas... a linguagem é um pouco arcaica, ainda com "phs", mas vale a pena :)

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  5. uma última sugestão..a antologia de contos do Tchekhov...deu-me muito trabalhinho na faculdade, mas vale a pena!

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  6. ó se faz favor, um livro que me podias emprestar era o de cheques, de preferência assinado sem dedicatória :p

    Isso é q iam ser contos atrás de contos a passarem de mãos...

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  7. Com a cobertura que tenho, era mais um conto do vigário...

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  8. V. Nabokov tem varios livros de contos, bastante distintos uns dos outros por isso algum deve interessar.Houve um editado há mais ou menos 2 anos... (capa dura, fotog. a preto e branco do autor em capa côr-de-laranja)

    Miguel Torga tem pelo menos o clássico " Bichos" e " Novos contos da montanha". Os ambientes retratados são quase sempre a aldeia, em finais do sec.XIX e início do sec.XX, num Portugal profundo.

    Eu gostei dos dois...

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  9. Quais foram os contos que andaste a ler?

    **Curiosidade...

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  10. O livro "O Belo Adormecido" que reúne 6 contos da Lídia Jorge. Eu gostei, mas tb é verdade que o li antes de a ver histérica no prós e contras da RTP...

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  11. As opiniões, claro, são como as vaginas, mas cá vá mais uma (opinião).
    No topo colocava Ficções, de Borges, e em seguida passar para o Aleph. Para ficar por aqueles lado, Juan Rulfo, editado pela Cavalo de Ferro, também se recomenda.
    Noutra onda, para quem gosta de contos fantásticos ou quer conhecer Auguste Dupin, precursor de Sherlock Holmes, Poe é uma boa aposta.
    Os russos, alguns aqui já referidos, são bons contistas (Tchekov, Nabokov, Pushkin), mas para mim ganha Gogol: quem lê o Nariz ou o Capote fica fã para a vida.
    Em Portugal acho que não há grande tradição de conto: Sá-Carneiro tem bons contos, e gosto p.e. do Banqueiro Anarquista do Pessoa ou do conto da ilha desconhecida do Saramago. Ah, e claro os (pequeníssimos) contos do gin-tonic, do Mário Henrique Leiria, que acabei de ver reeditados pela Estampa.
    Neste momento estou a começar Um homem bom é difícil de encontrar (Flannery O'connor), de que me dizem maravilhas.
    Entretanto, não sei se conheces mas recomendo a revista de contos Ficções, agora da Caminho.
    Falta só dizer que o conceito de conto é um bocado lato: alguns destes cabem na definição tradicional de se poderem ler numa ida ao WC, enquanto outros são um pouco mais longos. Ao contrário, os do gin-tonic, por exemplo, dão apenas para uma mijita.
    E bem, já chega...

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  12. Muito obrigado pelos inputs, já tenho aqui matéria para me entreter, para quem perguntou, neste momento tenho em "observação (vulgo ler), "Contos Satíricos" de Mark Twain e outro de pequenas histórias do Dostoievsky.

    Mas, há sempre espaço para mais sugestões, por isso não se acanhem.

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  13. Mark Twain é um óptima escolha. Muito bons os diários de adão e eva, por exemplo..

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  14. Uma recomendação basilar: em tempos de crise, refúgio no canónico.

    Já foram aqui referidos alguns dos essenciais. Reforço as recomendações do Rui Dantas: Borges e Gogol são indispensáveis; pessoalmente, sou um feroz adepto do Vladimir "A minha posição no mundo das letras? É linda a vista aqui de cima" Nabokov e de Twain. Mas há uma excelente tradição de contistas no mundo cristão: a começar por, exemplo, em Boccaccio - o teu azar é um excelente sintoma dos malefícios democratistas da modernidade. E a revista Ficções, claro.

    Entrando em escolhas mais pessoais, uma recomendação do mais subestimado contista da história das letras: P. G. Wodehouse, um digno sucessor de Twain (na minha pessoalíssima opinião, superou-o), mas inglês. Na linha do humor britânico do princípio do secúlo, abunda a excelência (e.g. Jerome K. Jerome); ou, do outro lado do Atlântico, O. Henry, o gajo que inventou o conto moderno e o James Thurber.

    Ainda mais fora do cânone, mas dentro do meu campo de visão, há um livrinho interessante, de um grego chamado Panos Karnezis - da Cavalo de Ferro, como o Rulfo. Se calhar, é abusivo dizer que são contos: em rigor, trata-se de um romance em formato de short-stories unidas por um fio de condutor, mas para quem gostar do estilo - uma espécie de fantástico sul-americano temperado pelo formalismo anglo-saxónico escrito por um grego -, o que não é exactamente o meu caso, é muito bom. Se quiseres, amanhã levo-o.(Ou os do Borges, esse tem de ser, um gajo, para se dar ao respeito, tem de ler Borges, pá, as ruínas circulares e isso).

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  15. Ah, o panorama nacional, esqueci-me disso. Eu não gosto dos gin-tonic e opto, quase sempre, por confiar nos antologistas da Ficções. Saiu há pouco tempo uma antologia de contos portugueses, em vários volumes, que também te posso emprestar, mas que é um bocado desequilibrada. Há as clássicas edições da Afrodite nos anos 60 (a do conto fantástico é muito boa). Se gostas de narrativas tradicionais, as Estórias de Portugal do Fernando-António Almeida valem a pena. Na secção génios: O Banqueiro Anarquista é uma obra prima, o Singularidades de uma Rapariga Loura do Eça não é tanto mas recomenda-se, do Camilo há pelo menos uma dezena deles que nenhum pecador merece ler.

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  16. Caramba, vou ter de digerir tanta info de embarda com alguma calma. Parecem-me haver aí sugestões válidas a ter em conta, agora é uma questão de escolher armas para duelo, para ver o que mais se adequa.

    Uma vez mais, saudações e agradecimentos, não necessariamente por essa ordem.

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