27.4.07

Fora da Jogada

Há coisas que não percebo, umas porque sou efectivamente limitado em certas matérias, outras porque estou nitidamente fora da jogada. O que é chato, porque sendo eu refinadamente curioso em fenómenos sociais, gosto de estar a par das jogadas, nem que seja apenas a vê-las das bancadas.
O episódio que a seguir descrevo passou-se ontem à noite no Metro, mais precisamente pelas 23h, na Linha Verde, conhecida por recolher tudo quanto é escumalha, do Cais Sodré a Telheiras, com paragem nalgumas estações nobres, numa das quais eu saio, não porque more aí mas para dar essa impressão, fazendo o resto do caminho a pé.
Mas, o interessante da questão passou-se antes, logo no início da jornada. Entra um trio, que não o Odemira, composto por um mitras nacional e duas franciús. O mitras, tinha tudo o que define um mitras jovem, tipo 18 anos. Ourivesaria suficiente para fazer frente às reservas de alguns países mais pequenos, ténis modernaços com amortecedores a condizer com os do carro tuning do seu irmão mais velho. A patilha com a espessura de um palito, possivelmente combinando com a densidade cerebral e aquele toque cool que só mastigar uma pastilha elástica a verem-se os pulmões confere.
Elas, francófonas, vinte e poucos, com ar de quem bebeu meio copo de cerveja e sente a cabeça a andar à volta. Ar de turista, não verifiquei a questão do pelito no sovaco (aliás mentalizei-me para não o fazer) e falando mais alto do que um grupo de entusiastas do violão que iam fazendo um mini concerto no banco ao lado.

Cenário: O mitras ia agarrado à maiorzinha como se ela fosse uma boia de salvação e ele se estivesse a afogar (creio até que era por isso que ela de vez em quando lhe fazia respiração boca a boca). As duas francesas iam falando entre elas, no seu dialecto local, percebendo eu que o mitras percebia tanto de francês como eu de física nuclear. Dizia a que não ia atracada, pelo que deduzi dos meus extensos conhecimentos do linguajar, que vão pouco além do croissant, baton, merci, rien ne va plus ou ils sont fous ces romains :

- Este gajo é um estúpido.
- Pois é, mas é giro – respondia a Miss do Mitras
- Que é que essa anormal diz? – perguntava o mitras
- Di que tu est stupid, mas elle avez inveja – arranhava a Miss do Mitras em tuga
- Ah é...vaca – retorquia o Mitras, pontapeando a invejosa tal e qual Ronaldo de Chelas.
- Vai pra merrda – retorquia a pontapeada fazendo lhe um gesto internacional que implica um dedo do meio.
- Vou é comer a tua irmã e tu a olhares – disse mais entredentes o mitras, rindo-se depois a bom som.
- Que foi? – perguntou Miss do Mitras que não deve ter percebido bem.
- A tua irmã é uma chata do c....lho é o q é
- Deixe la estar, trata é de mim – O mitras deve ter se sentido mal, porque a sua Miss tentou nessa altura tirar-lhe algo que lhe bloqueava a respiração com a língua.

Como é óbvio, os poucos livros que estavam a ser lidos na carruagem, os violões que tocavam lindas baladas e os leitores de mp3 ligados, há muito que tinham parado, para assistir a este 1º acto do “Mitras das Dames de Paris”.
No entanto, não se soube como ia acabar este lindo triunvirato, já que por alturas da Alameda, esta troupe lá saiu, com o Mitras a dar caldos à irmã, a irmã a chamar-lhe algo que de certeza não era Napoleão Bonaparte e a Miss a mostrar que a lapa não é apenas um molusco exclusivo de Portugal.
No final, só não percebi quem estava a enganar quem, quem iria rir no fim e se alguma delas viria a ser sopeira em Portugal, se o Mitras chegaria a trolha em frança ou se há um grupo de teatro urbano com um conceito surpreendente.

6 comentários:

  1. Muito bom. Como não sou de dar palmadinhas nas costas, reproduzo o pontapé da dama irmã do mitra.

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  2. Os mitras são da pior escumalha que para ai anda, uns tristes!

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  3. olhe maria passei pelo porto ontem e vi que por la tb ha mt mitra. mas houve coisas de que gostei, gostei de saber que todas as linhas do metro do porto vao dar ao dragao, e nao estou a ser ironica. quanto a estoria, espero que sejam um grupo de teatro urbano, embora o palco escolhido torne tudo demasiado real para ser ficcao.

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  4. amo fenómenos sociais. Chego a apanhar-m de boca meio aberta a soletrar em silencio e a dizer que sim e que não com a cabeça. Pareço uma anormal!

    Essa é uma das poucas razões pelas quais tenho saudades de andar de transportes!

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  5. Tens que te juntar ao ouvidoporacaso.blogspot.com...:)

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  6. Eu vou pelo "grupo de teatro urbano com um conceito surpreendente".
    Tiveste uma demonstração grátis.

    Histórias do metro são relíquias.

    ^_^

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