24.4.07

Crimes de circunstância

Não sou gajo de fretes. Faço as maiores parvoíces de livre vontade, com ânimo e alegria, mas assim que noto a palavra “obrigação”, mesmo que disfarçada por termos como “favor”, “tem de ser”, “vais ter que ir” ou “aguardente de medronho”, custa-me muito aceitar ou fazer o que quer que seja.
O mesmo se aplica em relação às chamadas conversas de circunstância, que para mim equiivalem a preciosos minutos de vida desperdiçados em coisas que não levam a lado nenhum. As pessoas, traço geral, têm medo do silêncio, especialmente quando não estão à vontade. Sentem-se na necessidade de dizer o que quer que seja, para “criar ambiente”, mesmo quando tal não é necessário, acabando por torná-lo mais vazio do que se estivessem caladinhas. Nunca se ouviu dizer, “Epá vim agora de um elevador onde o ambiente e a conversa estavam fantásticos” ou “Caramba, nunca me diverti tanto, como nos dois minutos de conversa que tive na paragem de autocarro antes de chegar ao emprego”. Já o contrário...isso já é bem mais real.
Mas, quem diz conversas de circunstância com desconhecidos, diz também com “conhecidos de circunstância”. Estes espécimes são para mim aquelas pessoas que, em dado momento das nossas vidas (escola, residência, trabalho, outros) partilharam um espaço físico connosco, do qual derivou uma convivência, mesmo que reduzida a quatro ou cinco palavras diárias.
Não ficaram nossos amigos, não partilhámos mais que duas conversas coerentes, nem sequer pasta de dentes na casa de banho, mas por alguma razão, quando essas pessoas por vezes nos encontram noutro contexto, são de repente grandes parceiros de conversa. “Como estás?”, “Que é feito”, “Já casaste / tiveste filhos / foste a Fátima de joelhos”, “Tens visto o/a/os/as”, “Lembras-te de...”, Nunca mais viste/estiveste/foste/fumaste...” são perguntas clássicas deste tipo de encontros, em que um parece uma hiena ávida de informação e o outro o Bruce Lee, tal é a rapidez com que se desvia dos golpes.
São minutos de tortura, às vezes para ambos, já que começaram por cortesia e agora estão presos nas malhas da conversa da tanga, sem se conseguirem soltar enquanto não surge uma desculpa tão plausível como “Olha, esqueci-me da pinça para aparar os pêlos do nariz em casa, tenho de ir, depois (estilo no dia em que nevar no Inferno) falamos.
Facilito a vida a todos os que me conhecem, nem que seja de vista. Se não têm mesmo vontade de falar comigo (admite-se repulsa) e se desconfiam que eu sou gajo para pensar o mesmo de vocês, não se sintam obrigados a fazê-lo. Eu até agradeço e, pelo menos para mim, o mundo será um sítio melhor para viver.

PS – Morreu o Ieltsin. Cá para mim os tipos do KGB misturaram-lhe água no vodka. É pena, era um russo até à última gota.

PSS – O Eusébio foi operado e parece que a coisa correu bem, o que é de saudar. No estado em que o Benfica anda, não sei se não é melhor deixarem a cama do hospital de prevenção.

8 comentários:

  1. Este post merece um minuto de silêncio. O pior é que há pessoas que são inocentes suficientes para gostarem da conversa de circunstância e, nessas alturas, a cabra (moi même) sente-se mal por ter sido perseguida, ter fingido que estava sem lentes (quando entretanto foi operada à miopia)e não ter tido a coragem de dizer: Olha lá, se eu já mal olhava para ti quando te tinha de ver todos os dias, por que raio achas que te quero rever (Só se for para ter a certeza que tenho sorte em estes encontros fortuitos serem tão improváveis!)Falta esta catarse na minha vida, confesso, mas ando a tratar disso. (Ando a fazer uma pós graduação em "como ser cabra em voz alta!")

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  2. A mim falta-me só a graduação, mas é mesmo por preguiça de ir trocar de lentes...

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  3. Eu acho sempre tão interessante falar do tempo! ....

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  4. (uma pessoa até quer estar "calada" mas o sistema não aceita comentários em branco...)

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  5. A mim acontece-me, não isso, mas cumprimentar frequentemente pessoas que não conheço. Por ex: uma pessoa que mora na mesma rua que eu, 7 prédios acima, com quem eu nunca falei na vida, nem quero. Se a encontro numa loja no estrangeiro, parece-me que me sinto na obrigação...não é?

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  6. Depende da loja sff. Se for na sex shop de Oxford street, ou numa coffee shop de Amsterdão, é melhor colocar os óculos de sol e desatar a falar em francês. Se for em Camden é blasé, se for no topo da torre Eiffel é piroso, se for numa praia na Bahía é descontraído qb, se for no MOMA em Nova Iorque, aí sim... É o máximo, e podemos dizer um casual "Olá! Sou sua vizinha na Lapa, pelos vistos aqui também não se consegue estacionar. Já viu a exposição temporária?"

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  7. O menino já dava um passeiozinho até à Estónia ou mesmo certos recantos da Rússia, Finlândia ou Suécia para saber que é muito possível nevar no Inferno. Na II Guerra a Lapónia ardeu, contudo tinha neve, ardeu e tinha neve. Inferno? Sem dúvida. Olha uma árvore, olha uma rena, ah uma árvore, ah uma rena. árvore, rena. Pedacinho de Inferno gelado.

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  8. Senti-me atingida ao ler este post. :) Vi-te no outro dia e fiz essa tal conversa de circunstância. Não te conheço assim tão bem mas acho estúpido passar por uma pessoa com a qual se conviveu durante algum tempo e fingir que não se conhece de lado algum.

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