13.3.07

O campino e o cigano - Parte II

Chegamos hoje à conclusão de uma fábula que tem encantado gente por todos os lados, nomeadamente dois reformados no Beato, um empregado de mesa em Algés e dois fiscais da Emel na zona das Avenidas Novas.
Deixámos o campino, vulgo eu e o cigano, vulgo Zorro, na zona do Rato a dirigirem-se para as Amoreiras à hora de almoço, uma zona pouco movimentada onde um campino e um Zorro passam despercebidos, especialmente a interagirem com a malta como era suposto fazermos.
Com a minha resposta pronta, paciência de santo e o facto de na altura telemóveis com máquina fotográfica serem uma raridade, pensei que não ia haver problema e aquela hora ia passar num instante. Daí que bitaites como “Ó campino, perdeste o cavalo?” eram respondidos entredentes com “Sim, foi dar uma volta com a vaca da tua mãe” ou “Onde é que eu posso comprar uns calções de cetim como esses?” com um simpático “No mesmo sítio onde adquiriste essa cara de parvo” e a coisa ia sendo suportada.
Contudo, quando vi o cigano, vulgo Zorro, que estava 50 metros a minha frente a esconder-se no meio de alguns ciganos dos verdadeiros numa paragem de autocarro, calculei que vinha aí problema. Não me enganei, já que cinco segundos depois vi surgir caminhando na minha direcção um par de miúdas lá da universidade, daquelas cujas alcunhas poderiam ser claramente “Correio da Manhã” e “24 Horas”, tal era a rapidez com que espalhavam notícias.
Pensei como um campino e resolvi enfrentar a lide que me aguardava, não sem antes enterrar o barrete até perto do nariz. Como o melhor truque para passar despercebido, mesmo naqueles preparos, é não fugir, aguardei que as jovens passassem, olhando para mim de lado, presenteando-as com um convite e deixando-as seguir. Até aí tudo bem, mas uma delas vira-se para trás de repente, no preciso momento em que eu ajeitava as minhas meias de renda. Eh lá, isto não augura nada de bom, pensei eu, mas disfarcei e a coisa passou-se.
3000 Bocas, 200 sensações de desconforto e dois elogios depois, a tarefa estava concluída e regressámos à base com o dinheiro no bolso e a ideia de que se calhar vender o corpinho a idosas possivelmente não era uma alternativa assim tão descabida.
A prova final veio no dia seguinte, na faculdade. Uma das raparigas com quem tinha tido o encontro imediato campino de 3º grau, a tal que se tinha voltado para trás, vem ter comigo e pergunta:
- Ouve lá, quais são as hipóteses de eu te ter visto vestido de campino à porta das Amoreiras ontem?
- Completamente verdade, mas hoje entrei no programa espacial da Nasa por isso tive de abdicar do posto de campino. Mas tu drogas-te é?
- Ahhhh, desculpa ....eu ia jurar que...se calhar confundi...
- Pois é, e eu fico ofendido com essas barbaridades. Mas tudo tem solução, pagas-me o almoço e está feito.
- Pronto, está bem.

E assim ganhei um almoço, contrariando a teoria de que não há almoços grátis, tudo isto graças ao dia em que fui campino. Moral da história, o Zorro pode ser confundido com um cigano, mas não há cigano maior do que um campino de aluguer, vulgo eu.

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