20.3.07

Alarve a quanto obrigas

Lamento informar a quem pense o contrário, mas cheguei à conclusão que somos todos alarves. Pois que haverá quem deite as mãos à cabeça e que diga que sempre se teve na conta de sensível, ponderado e outras bichanices semelhantes, mas lá no fundo sabe bem que há um alarve dentro de si (junto à moeda que engoliram quando tinham seis anos).
Que não se julgue que apenas só é alarve quem comer duas doses de feijoada, arrotar sonoramente, mascar pastilha elástica de boca aberta ou fizer comentários grosseiros sobre o sexo oposto. Paradoxalmente, há toda uma complexidade em volta do conceito de ser básico (vulgo alarve), que como é natural a maior parte dos alarves não atinge, sendo eu a excepção que confirma a regra.
Pode-se ser alarve em relação ao trabalho: engolindo tudo o nos é imposto sem estrebuchar, pagando miseravelmente e achando que tudo faz sentido desde que se conduza um topo de gama, se façam férias na neve e se trate os filhos por você ou até mesmo tendo um apego alarve a regras e regulamentos, como desculpa para fazer tudo para não fazer nada.
Mas, nem só de trabalho vivem os alarves, pois se há coisa que um alarve gosta de fazer é divertir-se, desde que seja em excesso é claro.
Aí temos o alarve da noite, que considera o dia um hobbie e faz a festa por qualquer motivo, mesmo que seja por nenhum. Temos também o alarve da adrenalina/recreacional, que desde a escalada de postes de electricidade às regatas de mini-caravelas na banheira experimenta tudo o que há para experimentar e, se puder pôr a sua vida em risco e de mais uns quantos, então investe com alarvidade redobrada.
No meio de tanta emoção e actividade, não nos podemos esquecer que um alarve não vive sozinho, tem necessidades emocionais que em cerca de 120% das vezes não consegue gerir decentemente, tornando-se por isso um alarve emocional. Nesta variante, o alarve devora emoções, podendo tanto ser um alarve da instabilidade, fazendo da sua vida uma pista de carrinhos de choque e usando cada impacto para ganhar balanço para o próximo, sem reparar que tanto a pista como a própria Feira Popular podem já ter fechado há uns tempos.
No outro lado do espectro, temos o alarve da estabilidade, da segurança, da constância, que funciona como aqueles alarves que só gostam de um prato, comendo-o incessantemente até ao fim dos seus dias. Basicamente é o tipo bife com batatas fritas.
A alarvidade emocional não se fica pelas relações pessoais, pois as compras, a tecnologia, as viagens, a cultura e tudo o que seja passível de ser consumido, é passivel de ser alarvizado. Basta escolherem uma ou, se forem um alarve supremo, escolher todas. Estes foram meros exemplos, porque a lista é no mínimo do tamanho da dos envolvidos no processo “Apito Dourado”.
Não sendo eu uma “identidade” superior (até sou, mas a modéstia impede-me de dizer isso abertamente), não pretendo referir-me como um “não alarve”, até porque logo a começar por estas alarvidades que escrevo não tenho hipóteses de me auto-excluir.
Mas também fiquem descansados, ninguém se safa, nem sequer os santos (esses alarves da bondade e das boas acções) ou até mesmo Deus e o Diabo (indivíduo que crie o mundo numa semana tem de ser um alarve divinal, tal como um tipo que se diga o responsável por todo o Mal, é um alarve das grandezas).
Por isso, eu desde já me assumo como alarve militante, persistente e displicente. Não sejam vítimas de uma timidez alarve e assumam-se também.

PS – O que tem isto a ver com a mini maratona de domingo? Tudo e se não perceberem porquê, é porque também não percebem nada, daí não precisar de explicar.

7 comentários:

  1. Gostei do uso apropriado da palavra "displicente". Este post, em toda a sua alarvidade contida sublinha a tua faceta de homem dúctil.

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  2. Eu continuo preocupado com a quantidade de texto que este alarve consegue debitar todo o santo dia. Apre que só em teclados, a tua firma deve gastar uma nota preta.

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  3. Em termos de teclados, caro mitra, a minha firma dá me possibilidades inifinitas...

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  4. Eu ia exactamente dizer que só um alarve fazia um post deste tamanho...

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  5. Eu no Verão gosto do Alarve.

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  6. Ups. Só agora é que vi o post abaixo, que raio de noção temporal tem o blogger?!

    A piada pode não ter sido nova, mas teve a sua garça.

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  7. A garça fica sempre bem, nem que seja empalhada junto à lareira ;)

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