22.1.07

E viveram felizes para sempre, tirando os terceiros sábados de cada mês



Gosto de finais inesperados, de conclusões imprevistas, de desfechos imprevisíveis e de muitos outros sinónimos destas expressões. Daí o facto de não ir à bola com os chamados finais felizes, não porque tenha alguma coisa contra a felicidade, mas porque para além de serem excessivamente melosos, não são finais porque se arrastam indefinidadmente e são, muito possivelmente, falsos.
Não me vou pôr aqui a divagar sobre casos reais, porque na realidade é tão fácil comprovar a minha teoria que nem sequer vale a pena o esforço. A não ser que me peçam a opinião sobre as pessoas que dizem viver um conto de fadas. É que eu acredito plenamente nisso, mas só na dimensão em que penso ser possível que existam burros que falam e monstros de anorak vermelho que comem criancinhas.
O que me leva até ao que me interessa: a descontextualização dos contos de fadas tradicionais em relação à sociedade actual. Se queremos entreter as crianças, também temos que as educar e dar-lhes uma perspectiva do que é o mundo real. Se não o fizermos, das duas uma: ou criamos tótós ingénuos que vão levar bordoada até aprenderem ou fazemos com que cresçam ressabiados e que, lá mais à frente, nos façam pagar por isso.
Deste modo, deixo aqui uma proposta de alteração para um dos principais contos de fadas de todos os tempos, a Branca de Neve:

Depois de uma fase inicial do casamento em que tudo correu bem, Branca de Neve começou a sentir-se sozinha, pois o príncipe passava os dias em viagens diplomáticas, corridas de cavalos e jogos de pólo. Caiu em tentação e seduziu um anão e depois outro e outro, até ter a caderneta dos sete completa. Mas, corroída pelo remorso procurou o príncipe num dos dias em que ele estava nos estábulos reais, para lhe contar a verdade e pedir perdão.
Foi com choque e amargura que descobriu que ele andava envolvido com um moço de estrebaria, pelo que afogou a sua mágoa na comida, mais propriamente em tartes de maçã, um gosto que lhe tinha ficado desde os tempos em que tinha sido envenenada.
Algumas tartes de maçã e muitos quilos depois, Branca de Neve calhou a descobrir o espelho mágico que tinha sido de sua madrasta. Colocando a pergunta “Espelho, espelho meu, há alguém mais bela do que eu?” por pouco não partiu o espelho com a fúria, pois este teve um genuíno ataque de riso e respondeu-lhe “De facto, não conheço baleia mais formosa do que tu”.
Apesar de um humor de fazer inveja ao Fernando Rocha, o espelho teve o condão de acordar Branca de Neve para a vida. Era ainda jovem e queria recuperar a forma. Por isso, com uma dieta a que chamou “Dieta do espelho” e o apoio de um personal trainer, com o qual também se envolveu romanticamente assim que deixou de haver o perigo de ele sufocar com o peso dela, Branca de Neve voltou às formas voluptuosas que a tinham celebrizado.
Vendeu o livro de dietas com o seu caso, ganhou independência financeira, processou o príncipe por danos morais e exaustão emocional e este, embevecido como estava por Chico Selas, moço de estrebaria, rapidamente resolveu a questão com um acordo financeiro cujos dados não foram revelados.
Hoje em dia, Branca de Neve vive na Lapa com o seu personal trainer, anão por sinal, um gosto que lhe tinha ficado desde os seus tempos tórridos na floresta e, apesar de uma ou outra quebra por causa de um strudel de maçã, pretende viver feliz até se engasgar com outro fruto qualquer. Já o Príncipe não continuou com o Chico muito tempo, devido à dependência que este tinha em relação às drogas e à Floribella. No entanto, vive feliz no Príncipe Real, onde abriu um bar, o Realmente, muito em voga entre a comunidade gay.
Quanto ao espelho, criou um programa de humor “O Espelho Pestilento” e granjeou sucesso, estando até nomeado para o top dos dez melhores espelhos mágicos de sempre, uma iniciativa organizada por Joaquim de Almeida, que curiosamente nunca precisou de espelho mágico, pois responde ele próprio às questões que põe “Sim, és o maior”, “Melhor que tu, não há de certeza”, “Estás cada vez mais pujante, Joaquim”.

4 comentários:

  1. Só lhe falta mesmo a frase final...
    "E viveram relativamente felizes, até ao próximo drama."

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  2. Grande drama...
    Por falar em tartes de maca...just got one
    Should I go run to the mirror?

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  3. ...e dizias tu que não gostavas de finais felizes...

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  4. Ainda bem que falas nisto pois nem toda a gente sabe do fim trágico do Pinóquio, que foi morto à paulada, e que a mãe do Bambi afinal não morreu mas sim fugiu com o melhor amigo dele, 20 anos mais novo...

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