27.11.06

Notas pós almoço

Sol – Não tem feito muito de facto. Mas, antes que se levantem vozes a dizer “Ah, a chuva faz muita falta” quero desde já dizer que não tenho nada contra ela. Simplesmente, o que me tem feito confusão é que apesar de estarmos quase em Dezembro as temperaturas ainda continuam a rondar os 20 graus.
Por isso, vestir roupa de Inverno só se tivermos com saudades de uma boa sauna, vestir roupa de Verão só se quisermos sair à rua para aquelas cenas à filme romântico em que alguém corre pelas ruas encharcado até aos ossos em tshirt em busca da sua amada ou, numa versão mais prática, de um autocarro. A complicar o esquema, só a malta que controla os ares condicionados nos locais de trabalho, locais público tipo centro comercial, que na minha modesta opinião não conhece a palavra intermédio. Para eles o maniqueísmo é que está a dar: ou estamos em Oslo ou em Mombassa, não há cá temperaturas médias.

Si – És oficialmente adulto, pronto maturo, admitamos velho, a partir do momento em que as pessoas usam mais o si do que o ti ao te abordarem. Não me refiro aquelas regras básicas da boa educação, mas ao facto do “Podes dizer-me as horas se faz favor” passar a um “Pode dizer-me as horas se faz favor” numa abordagem instintiva de alguém que não vos conheça. Tudo bem que o ambiente profissional e familiar pode condicionar as coisas, havendo gente que trata os filhos de três anos por você, mas o facto é que quando chegas à idade da 3ª pessoa do singular, passaste uma barreira na tua vida. Pode ser vantajoso se é para ir ao banco tratar de assuntos, mas desastroso se a miúda que andas a tentar impressionar te trata por senhor e não na vertente kinky, mas sim no trato formal. Eu cá, resolvo sempre as coisas com cabeça, quem lida comigo usando a 3ª pessoa do singular de forma abusiva é logo uma cabeçada para ver quem é adulto. Mai nada...

Notas matinais

Dó – Tenho ouvido um spot de rádio logo pela manhã, creio que para a Avis, em que alguém pede, em êxtase, um autógrafo ao Luís Esparteiro. Eu gostaria de conhecer alguém, que não da família do dito senhor ou na dependência financeira do mesmo, que efectivamente quisesse um autógrafo do jovem...Tenham dó senhores.

Ré – Segundo o que li no site do Jornal de Notícias, em Coimbra uma jovem de 23 anos andou a pilhar casas e automóveis, actuando a solo. Se se derem ao trabalho de ler a história, ajudem-me a perceber o que era mais absurdo. A jovem roubava artigos e depois carros, aproveitando distracções das pessoas, como por exemplo chaves na ignição. Tendo em conta que é acusada de dezenas de furtos, devo pressupor que em Coimbra, boa parte da população acredita na bondade do próximo. O que até nem é mal pensado, porque pelos vistos depois de transportar os artigos roubados, a jovem devolvia os carros...Porque carga de água? Da fama e proveito de ladra não se safa, só se for mesmo porque com o preço da gasolina não compensa sequer roubar carros. Finalmente, daquilo que li, um dos primeiros furtos foi de um jipe de criança movido a bateria, um artigo que pelo que sei é altamente procurado no mercado negro e que deve ter compensado largamente ter roubado (e devolvido) um carro para o transportar, tirando no entanto a piada de ver a autora do furto em fuga no dito jipe...

Fá – Lembrei-me este fim de semana, ao ver um livro de publicidade dos anos 60, 70 e 80 do saudoso anúncio de champô em que uma jovem descascada fazia as delícias da rapaziada mais rebarbada. Em Portugal, foi dos primeiro que me lembro que, explorando a menina, usava a lógica dos contrários, muito utilizada também em anúncios de perfumes. Eu sei que a lógica é aspiracional e que se espera que as pessoas se revejam no retratado, e que no caso dos perfume uma boa parte das compras são para oferta e, como tal, muita menina oferece por exemplo um Armani ao seu mais que tudo, esperando que ao fechar os olhos possa imaginar o jovem mocetão do anúncio e no caso inverso um qualquer rapazote possa ter a sua parceira a cheirar como a Scarlett Johansson.
Mas, no caso deste mítico champô, sempre tive algumas dúvidas: será que as senhoras o compravam revendo-se na moça, muitas delas confiando talvez em propriedades mágicas da espuma e quantos gajos não terão levado na cabeça (talvez literalmente) ao presentear as caras metade com um belo champô Fá...

Seguem as notas pós almoço...

22.11.06

Refogado de emoções

Não me canso de repetir, se gostas de emoções fortes, surpresas sem fim e descobrir novos limites, o Metro e a Carris é que estão a dar. Já me avisaram: “Olha que é arriscado”, “Não te metas nisso”, “Um dia ainda te arrependes”, mas não resisto e todos os dias lá entro num autocarro ou numa carruagem do metro, tal e qual Alice no País das Maravilhas, mas com mais barba.
A minha última surpresa deu-se numa manhã pós festa, em que depois de ter lutado bravamente contra a almofada sedutora e não ter cedido aos encantos de adormecer no duche lá consegui pôr-me a caminho do trabalho.
Pensei, vou a pé e aproveito os 25 minutos de caminho para tentar perceber porque é que ainda não aprendi que as palavras festa, bar aberto e madrugada não combinam com manhãs airosas e produtivas. Mas, passou por mim um 27, ou melhor um moderno 727 e não resisti a nele entrar...
Para quem não sabe, moro perto do início desta simpática carreira e, como tal, é fácil encontrar lugar sentado sem ter que fazer algumas lutas de gladiadores antes. Depois de ter escolhido um lugar onde cegos, deficientes (convencionais e não assumidos) e idosos com maleitas diversas não me importunariam, rapidamente percebi que algo estava errado.
Já me tinha cheirado a mofo, a suor, a urina, a perfume barato, a excesso de perfume caro, a champô e até a fruta num autocarro, mas cozido à portuguesa logo às 9 da manhã foi coisa porque não tinha passado. Olhei em volta e as quatro pessoas que lá estavam para além de mim também olhavam umas para as outras desconfiadas, ao velho estilo dos duelos do faroeste.
Descartei a jovem com ar de tia, porque me parecia tão enjoada como eu e não falo aqui da aptidão natural das tias para parecerem enjoadas. A velhota com ar de simpática avózinha tinha os braços ocultos e um ar de santa que dava para desconfiar, mas defendia-se bem olhando para os outros com ar de quem não percebe o que se passa. A típica senhora das limpezas, muito mais conhecida pelo cheiro a lixívia e desinfectante, essa tinha um ar culpado, mas podia ser porque se lembrou que não tinha preparado o comer para o marido e o cheiro a cozido a fazia lembrar da surra que ia apanhar quando chegasse a casa. Finalmente, o homem do bigode farfalhudo, que embora não sendo mordomo parecia perfeito para levar com as culpas. O jornal “A Bola”, a lancheira, o cinto das calças que, qual Atlas, sustentava uma barriga do tamanho do mundo, tudo isso o apontavam como o homem do cozido matinal.
Mas, as portas a abrirem e fecharem, a entrada de mais pessoas, esbateram um pouco o cheiro enjoativo de carnes cozidas e vegetais, mas o aroma persistia levemente, sem ser possível chegar a conclusões definitivas. Tendo desistido de identificar o culpado, só voltei a pensar nisso quando mergulhado no meu livro, me veio o cheiro a cozido em doses de elefante e agora estava perto e levantei os olhos para o saco de plástico ao lado de mim, preso nas mão de alguém.
Posso quase jurar que a velhota, conforme as portas de saída abriram me lançou uma piscadela de olho, como quem diz “Voltaremos a encontrar-nos jovem incauto e enjoar-te-ei com um novo mega prato matinal de cozinha tradicional portuguesa”.
Num misto de raiva, altivez e estômago embrulhado retorqui com um esgar como quem replica “Maldita sejas velha cozinheira, não me irás apanhar duas vezes desprevenido...”

Tudo bem, a história pode estar exagerada, mas cozido às nove da manhã num autocarro também não é coisa deste mundo.

20.11.06

Pôr a culpa no altar

Em Portugal, muitas vezes se diz que “a culpa morre solteira”, que “ a culpa não pode morrer solteira” e muitas outras derivações desta mesma ideia: a culpa em Portugal tem tendência para morrer solteira.
Esta tendência leva-me a uma de duas conclusões:

1 – A culpa é uma cabra de primeira. Vai com todos, nomeadamente: os do Governo, os da oposição, com os patrões, com os sindicatos, com o árbitro, com o treinador, com os canais de televisão nacionais, com o DJ e com o porteiro da discoteca, com os automobilistas, com os peões e esta é só uma amostra da sua lista de parceiros ocasionais. A verdade é que a culpa roda por todos e não é de ninguém. Com esse feitiozinho, ainda por cima sempre a mandar-se para cima de alguém, não admira que ninguém a queira levar ao altar. É por isso que muitos a possuem no cartório, mas nenhum a leva para a conservatória.

2 – A culpa em Portugal é gay – esta é fácil, legalizem o casamento homossexual e verão que a coitadinha vai poder unir-se aqueles que com ela partilham a vida há muitos anos, em vez de serem obrigados a manter a sua relação na obscuridade.


PS – E, para terminar esta pequena reflexão sem culpas, fica este apontamento: se quando uma relação acaba, na maior parte das vezes alguém tem culpa, porque raio é que o culpado não aproveita e casa com ela, agora que está disponível e é óbvio que já eram íntimos antes...

15.11.06

Bloco de veste

Era tão anti-comunista que não vestia roupa escura com medo que ficasse russa.

13.11.06

Dependentes da moda da dependência



Hoje em dia não faltam aí dependências para a malta depender a seu bel prazer e à fartazana. Obviamente, alguns dirão, isso depende. Exacto, isso depende, aquilo depende e tudo depende de alguma coisa, até mesmo os independentes, que pelos vistos dependem só de si.
Que dependamos de coisas essenciais como a água, o oxigénio aceita-se, até porque não temos outro remédio, que por falar nisso é uma expressão muito utilizada pelos que dependem da droga.
Falando em expressões, essa é outra trend ao nível de dependências, sempre acompanhada pela dependência de expressões estrangeiras para justificar tudo de A a Z. Ainda bem que falei em andar acompanhado, porque há quem dependa sempre de alguém e não consiga fazer nada sozinho, o que mais do que um estado de espírito é um espírito de Estado. E, haverá melhor sinónimo de dependência do que o Estado, o paraíso dos dependentes.
No Estado, não há nada que não dependa de tudo. Do subsídio que depende sempre de algo ao dependente do subsídio, da malta que depende de funcionários até para o mais insignificante ao mais insignificante dos funcionários que depende sempre de algo nem que seja para lixar a malta que passou uma manhã à espera em pé, porque arranjar lugar sentado depende da vontade de guerrear os velhotes e pessoas doentes que também dependem do Estado.
Quem fala em lugar sentado, fala em bancos, curiosamente também o nome de uma instituição da qual grande parte dos portugueses dependem. Haverá melhor nome para os seus agentes no terreno do que o que têm actualmente– Dependências Bancárias? Se depender de mim, não.
Os bancos vivem das nossas dependências, celebradas muitas vezes nas dependências deles. Do telemóvel ao carro, à casa, do futuro dos filhos à reforma dos pais, tudo passa cada vez mais por lá e, se depender deles, muito mais passará.
Se são daqueles que dependem de soluções milagrosas e do conselho dos outros para se orientarem, esqueçam este post e apaguem este blog. É que embora não dependa nem do tabaco, do álcool, nem sequer de drogas, dependo deste azedume crónico para manter o meu optimismo.
Mas, já que insistem, fica o seguinte: é impossível não depender de nada e, sendo assim, façam variar as vossas dependências como um guarda roupa varia com a época:

Sentem-se selvagens? Dependam de sexo, drogas e rock n roll.
Sentem-se cultos? Dependam do King, da Fnac e de alegres tertúlias.
Sentem-se burros? Dependam da Floribella, da Carris e de qualquer Governo.
Sentem-se carentes? Dependam de alguém, de chocolates ou qualquer arma de fogo
Sentem-se indecisos? Dependam do tempo, da disposição, da companhia.
Sentem-se azarados? Dependam do Euromilhões, do destino, de superstições.
Sentem-se fartos? Depende do blog que consultam e com este, é natural...

8.11.06

Last night a DJ fried my mind

Em dias pós festa, todo o delírio é lícito.

1 - Era um tipo tão divertido, que mesmo depois de morto continuou a ser a alma da festa.

2 - Era tão amigo dos seus clientes, que teve de fechar o bar por abusar do bar aberto.

3 - Era tão conhecido por fazer festas, que todos que lhe queriam passar a mão pelo pêlo.

7.11.06

E se hoje, em vez do metro, fosse a hipocrisia a fazer greve

Convenhamos, a dada altura todos já fomos hipócritas. Podem vir com a história das mentiras piedosas, do ser cortês ou de evitar conflitos, mas palavreado à parte, a hipocrisia está lá e poucos, para não dizer nenhuns, são os que nunca a utilizaram mesmo de forma inconsciente.
Mas, imaginemos que a hipocrisia, farta de ser explorada a torto e a direito, sem ganhar reconhecimento por isso e ainda por cima ser negada por tudo e por todos, dissesse: Basta!
Pois se não presto, se ninguém me reconhece o valor e ainda por cima abusam dos meus serviços, que experimentem passar um dia sem mim – diria a hipocrisia num comunicado à imprensa, que a TVI aproveitaria logo para fazer uma reportagem junto de uma família de desgraçadinhos que vive isolada em Cornucópias de Cima, sem acesso a hipocrisias há mais de 20 anos.
Na sequência da greve de hipocrisia, muito teriam que tirar a verdade e a sinceridade em bruto do baú, com muita gente a procurar um manual de instruções para as mesmas, tal é a falta de uso dada às mesmas.
Os engarrafamentos emocionais, com milhares de conversas a ficarem entupidas devido a incapacidade de escoamento de tanta verdade acumulada e as consequências sociais da greve da hipocrisia causariam danos irreparáveis, só comparáveis ao espanto causado pelo facto de durante o dia terem sido avistados diversos políticos a dizer a verdade.
Ao fim do dia, o primeiro abaixo assinado unânime da população portuguesa seria entregue junto do Sindicato da hipocrisia, mostrando uma vontade honesta de reconhecer as vantagens e méritos da mesma, à qual seriam pagos retroactivos de anos de exploração e ainda concedidos benefícios específicos, como direito a férias parlamentares e um tribunal de arbitragem em questões em que estivesse pouco claro se o crédito devia ser dado à hipocrisia ou à aldrabice.
Como é óbvio, no dia seguinte à greve, tudo voltará ao normal, o acordo seria declarado nulo, seria lançada um Comissão Parlamentar hipócrita para esclarecer os privilégios concedidos a algo que na realidade não existe. Várias pessoas acorreriam em massa a hospitais e igrejas, clamando terem estado possuídas no dia anterior, já que não acreditavam ter sido possível terem andado a dizer as coisas que disseram. A TVI faria nova reportagem, desta vez em Escafandros de Baixo, junto de uma família de desgraçadinhos que devido a um surto de hipocrisia se tinha isolado do mundo.
Entretanto, a hipocrisia encolheria os ombros e fazendo um sorriso forçado diria “Eu já sabia que ia acabar assim. Eu até gosto deles como são.”, enquanto planeava ir convencer com palavrinhas mansas o Espírito do Desenrasca e o Pessimismo a juntarem-se a ela numa greve para então sim, lixar este país de vez...

2.11.06

Vida de tempo



Muita gente se preocupa com o tempo de vida, com a melhoria da sua qualidade, dos problemas e dilemas que a longevidade (vulgo, os velhos) causa no nosso país e muitos outros assuntos importantes. Mas, como neste espaço o que é importante fica lá fora, aqui abordamos a vida de tempo ou seja, até que ponto o tempo condiciona a vida de cada um.
Sejamos honestos, vivemos obcecados com ele, desde os primórdios do tempo (lá está). Tudo o que fazemos tem inerente o tempo. Há quem tenha tempo para tudo, há quem não tenha tempo para nada, há quem passe o tempo em passatempos, há quem perca tempo a ganhar tempo ou simplesmente a ler este texto.
O facto é que para além do tempo latente, aquele que passamos a fazer coisas sem pensar no tempo, existem inúmeras marcas que o tempo deixa na nossa vida, para não nos esquecermos dele, mas sempre com o ar vago que só tempo tem. “Não achas que já é tempo de cresceres?”, “Já está na hora de começares a trabalhar/de casares/de teres filhos/de assumir a tua homossexualidade/de cortares esse cabelo, etc”. Tudo tem o seu tempo e o tempo toma conta de tudo.
Não querendo percorrer mais estes caminhos filosóficos, que para além de serem uma grande viagem, constituem uma perda de tempo, vamos a uma questão pertinente:

Porque é que, para além de tudo o que nos é imposto pelo tempo ainda há gente que consegue exagerar, como por exemplo as pessoas que jantam sempre às oito porque é hora de jantar, mesmo que não tenham fome ou que vestem camisolões e gorros assim que o calendário marca o fim do Verão, apesar de estarem 23 graus e ser possível aquecer refeições dentro de uma camisola de lã com este tempo?

A resposta pode não ser fácil, mas a razão de ser deste texto é óbvia: falta de tempo para fazer um melhor...