22.11.06

Refogado de emoções

Não me canso de repetir, se gostas de emoções fortes, surpresas sem fim e descobrir novos limites, o Metro e a Carris é que estão a dar. Já me avisaram: “Olha que é arriscado”, “Não te metas nisso”, “Um dia ainda te arrependes”, mas não resisto e todos os dias lá entro num autocarro ou numa carruagem do metro, tal e qual Alice no País das Maravilhas, mas com mais barba.
A minha última surpresa deu-se numa manhã pós festa, em que depois de ter lutado bravamente contra a almofada sedutora e não ter cedido aos encantos de adormecer no duche lá consegui pôr-me a caminho do trabalho.
Pensei, vou a pé e aproveito os 25 minutos de caminho para tentar perceber porque é que ainda não aprendi que as palavras festa, bar aberto e madrugada não combinam com manhãs airosas e produtivas. Mas, passou por mim um 27, ou melhor um moderno 727 e não resisti a nele entrar...
Para quem não sabe, moro perto do início desta simpática carreira e, como tal, é fácil encontrar lugar sentado sem ter que fazer algumas lutas de gladiadores antes. Depois de ter escolhido um lugar onde cegos, deficientes (convencionais e não assumidos) e idosos com maleitas diversas não me importunariam, rapidamente percebi que algo estava errado.
Já me tinha cheirado a mofo, a suor, a urina, a perfume barato, a excesso de perfume caro, a champô e até a fruta num autocarro, mas cozido à portuguesa logo às 9 da manhã foi coisa porque não tinha passado. Olhei em volta e as quatro pessoas que lá estavam para além de mim também olhavam umas para as outras desconfiadas, ao velho estilo dos duelos do faroeste.
Descartei a jovem com ar de tia, porque me parecia tão enjoada como eu e não falo aqui da aptidão natural das tias para parecerem enjoadas. A velhota com ar de simpática avózinha tinha os braços ocultos e um ar de santa que dava para desconfiar, mas defendia-se bem olhando para os outros com ar de quem não percebe o que se passa. A típica senhora das limpezas, muito mais conhecida pelo cheiro a lixívia e desinfectante, essa tinha um ar culpado, mas podia ser porque se lembrou que não tinha preparado o comer para o marido e o cheiro a cozido a fazia lembrar da surra que ia apanhar quando chegasse a casa. Finalmente, o homem do bigode farfalhudo, que embora não sendo mordomo parecia perfeito para levar com as culpas. O jornal “A Bola”, a lancheira, o cinto das calças que, qual Atlas, sustentava uma barriga do tamanho do mundo, tudo isso o apontavam como o homem do cozido matinal.
Mas, as portas a abrirem e fecharem, a entrada de mais pessoas, esbateram um pouco o cheiro enjoativo de carnes cozidas e vegetais, mas o aroma persistia levemente, sem ser possível chegar a conclusões definitivas. Tendo desistido de identificar o culpado, só voltei a pensar nisso quando mergulhado no meu livro, me veio o cheiro a cozido em doses de elefante e agora estava perto e levantei os olhos para o saco de plástico ao lado de mim, preso nas mão de alguém.
Posso quase jurar que a velhota, conforme as portas de saída abriram me lançou uma piscadela de olho, como quem diz “Voltaremos a encontrar-nos jovem incauto e enjoar-te-ei com um novo mega prato matinal de cozinha tradicional portuguesa”.
Num misto de raiva, altivez e estômago embrulhado retorqui com um esgar como quem replica “Maldita sejas velha cozinheira, não me irás apanhar duas vezes desprevenido...”

Tudo bem, a história pode estar exagerada, mas cozido às nove da manhã num autocarro também não é coisa deste mundo.

7 comentários:

  1. A comida, tal como o autocarro, tem hora!

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  2. Eh eh eh, foste comido pela velhota!

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  3. lololololol
    Então mas cozidinho é tão bom!Hum?Não?

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  4. Mark, podes fazer as piadas que quiseres, apesar de "blog interessante", a sua autora tem sentido de humor :) Abraço

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  5. Ao mesmo nível do cozido, a ideia mental formada pelo comentário "Foste comido pela velhota" deu-me a volta ao estômago.

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  6. Tenta a linha de Sintra...Adrenalina levada ao máximo, principalmente quando em plena luz do dia és assaltado de esticão- empurrão melhor dizendo- e onde vem sempre alguém a comer laranjas!

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  7. Noitadas de farra, é no que dá.
    Até se sonham com cozidos pela manha...

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