7.11.06

E se hoje, em vez do metro, fosse a hipocrisia a fazer greve

Convenhamos, a dada altura todos já fomos hipócritas. Podem vir com a história das mentiras piedosas, do ser cortês ou de evitar conflitos, mas palavreado à parte, a hipocrisia está lá e poucos, para não dizer nenhuns, são os que nunca a utilizaram mesmo de forma inconsciente.
Mas, imaginemos que a hipocrisia, farta de ser explorada a torto e a direito, sem ganhar reconhecimento por isso e ainda por cima ser negada por tudo e por todos, dissesse: Basta!
Pois se não presto, se ninguém me reconhece o valor e ainda por cima abusam dos meus serviços, que experimentem passar um dia sem mim – diria a hipocrisia num comunicado à imprensa, que a TVI aproveitaria logo para fazer uma reportagem junto de uma família de desgraçadinhos que vive isolada em Cornucópias de Cima, sem acesso a hipocrisias há mais de 20 anos.
Na sequência da greve de hipocrisia, muito teriam que tirar a verdade e a sinceridade em bruto do baú, com muita gente a procurar um manual de instruções para as mesmas, tal é a falta de uso dada às mesmas.
Os engarrafamentos emocionais, com milhares de conversas a ficarem entupidas devido a incapacidade de escoamento de tanta verdade acumulada e as consequências sociais da greve da hipocrisia causariam danos irreparáveis, só comparáveis ao espanto causado pelo facto de durante o dia terem sido avistados diversos políticos a dizer a verdade.
Ao fim do dia, o primeiro abaixo assinado unânime da população portuguesa seria entregue junto do Sindicato da hipocrisia, mostrando uma vontade honesta de reconhecer as vantagens e méritos da mesma, à qual seriam pagos retroactivos de anos de exploração e ainda concedidos benefícios específicos, como direito a férias parlamentares e um tribunal de arbitragem em questões em que estivesse pouco claro se o crédito devia ser dado à hipocrisia ou à aldrabice.
Como é óbvio, no dia seguinte à greve, tudo voltará ao normal, o acordo seria declarado nulo, seria lançada um Comissão Parlamentar hipócrita para esclarecer os privilégios concedidos a algo que na realidade não existe. Várias pessoas acorreriam em massa a hospitais e igrejas, clamando terem estado possuídas no dia anterior, já que não acreditavam ter sido possível terem andado a dizer as coisas que disseram. A TVI faria nova reportagem, desta vez em Escafandros de Baixo, junto de uma família de desgraçadinhos que devido a um surto de hipocrisia se tinha isolado do mundo.
Entretanto, a hipocrisia encolheria os ombros e fazendo um sorriso forçado diria “Eu já sabia que ia acabar assim. Eu até gosto deles como são.”, enquanto planeava ir convencer com palavrinhas mansas o Espírito do Desenrasca e o Pessimismo a juntarem-se a ela numa greve para então sim, lixar este país de vez...

4 comentários:

  1. Aviso já aqui, eu sou um hipócrita de primeira, só assim se justifica um post destes a armar ao paladino da verdade e dos bons costumes...

    ResponderEliminar
  2. Não, a morte já negociou com as funerárias e creio que não se prevêem manifestações e alterações de programa para breve...

    ResponderEliminar
  3. Não creio que viesse a ser assim tão grave. A Honestidade, a Competência e o Optimismo foram fazer companhia ao Rock n' Roll à imenso tempo e não me parece que tenha sido um drama assim tão grande. Concerteza que arranjaríamos logo um ou dois "ismos" para substituir o novos desempregados no mundo das atitudes. Ou então venderíamos as acções ao Grupo de Hipocrisias espanhol e eles viriam resolver o problema.

    Acho que em breve deixarei de poder comentar este blog. A cada dia custa-me mais reconhecer as letrinhas que me premitem "postar" o meu comentário. Sinceramente não compreendo o que é que o símbolo da acessibilidade faz ao lado desta caixa.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.