3.10.06

O síndrome do “eu até tenho jeitinho para isso”



Existem os habituais clichés deste síndrome, como o do gajo que tem a mania que, apesar da sua formação em contabilidade, tem estofo de grande electricista e nem o facto de já ter provocado dois incêndios em casa e uma quebra de energia no Beato o demove, ou da moça que não desiste do seu jeito nato para a nouvelle cuisine apesar de já ter levado doze amigas a fazerem atraentes lavagens ao estômago depois de um jantar mal digerido, ter feito com que o seu namorado se tenha convertido ao islamismo para que pelo menos durante um mês tenha a desculpa do Ramadão ou levado a que os bombeiros fossem a sua casa (depois de virem da do contabilista) para resolver um flambée um pouco mais tórrido.
No entanto, embora com o devido enquadramento, considero que é mais grave a presença do dito síndrome nos meandros profssionais, do que propriamente nos eventos de trazer por casa (embora a morte profissional seja ligeiramente menos grave do que a morte do artista, literalmente).
É que, para quem trabalha numa área, em que a escrita e a criatividade são supostamente componentes importantes (tanto que até pagam para isso), não é raro e por vezes até é frequente ver o freguês ou caramelo da mesma estirpe, que gosta de mudar coisas ou sugerir potentes alternativas (viáveis apenas na sua cabeça), porque sempre teve jeito para escrever os postais de casamento, até é ele que inventa sempre umas coisas para o aniversário dos filhos e sente que a sua veia criativa tem sido reprimida ao longo dos anos.
Caro/a amigo/a, se é esse o seu caso, e neste caso deixe-me dizer-lhe antes de mais que neste texto não toca, por muito que ache que em vez de síndrome se calhar tique até era mais giro ou que a referência religiosa do primeiro parágrafo não será a mais indicada, porventura fazendo mais sentido colocar uma piada à Malucos do Riso.
Quando vai ao médico, certamente que não sugere um tratamento diferente daquele que o Dr. lhe indicou, nem altera as receitas para pôr umas que goste mais, pois não? No pior dos cenários, quanto muito vai pedir uma 2ª opinião talvez, mas se não tiver um curso de medicina dificilmente será a sua suponho...
Mas sei que, lá bem dentro de si, o bichinho continua a morder e vai passar a ferro este texto com a mesma facilidade com que um macaco descasca uma banana, sem menosprezo pela banana é claro.
Vendo que hoje, actores e actrizes, nascem debaixo de cada pedra e rapidamente voltam para debaixo delas, que hoje ler um livro é mais difícil que escrever um livro ou que hoje quem não tem curso universitário é olhado de lado no centro de (des)emprego, a malta que “até tem um jeitinho para isso” até que é um exemplo. Um exemplo de que, apesar da paciência ter limites, a grunhice infelizmente não...

PS – Apesar do ressabiadismo latente neste post, ele não é fruto de um desabafo extemporâneo, mas sim de uma reflexão profunda sobre a matéria, coisa para qual sempre achei que até tinha jeitinho...

3 comentários:

  1. "Sabemos que vocês criativos são engraçados e têm umas ideias boas, mas não gosto nada do azul dos bonecos. Quero antes amarelo, de acordo com o brand-review-key-visual-seven-layer-pyramid da nossa marca."

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  2. Tomara que o seu patrão não leia isto, ou ainda vai ser olhado de lado para o centro do (des)emprego juntamente com a minha pessoa. E olhe que apesar de ainda não o ter feito por acreditar que anos de estudo ainda irão compensar, estar no centro do (des)emprego quer seja sendo olhado de lado, quer de frente, não deve ser nada agradável.
    Espero não ter que ler em breve o post do lambe-botismo.

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  3. Não lerá certamente cara pala e, se por obra do demo, ler aqui algo parecido, não será certamente direccionado às entidades patronais... a não ser que eu tenha levado uma lavagem cerebral e aí é encontrar-me e pôr um fim à minha miséria ;)

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