24.10.06

Deficiências arquitectónicas



Trabalho há alguns meses num daqueles edifícios modernos que me irritam um bocado onde, tirando os gajos que o desenharam e uma boa dose dos que lá trabalham, tudo é inteligente. Ele há escritórios onde o acesso é feito com cartão magnético, ele há outros onde até código secreto e impressão digital são necessários para entrar (ao que parece é um secretíssimo call center) e nalguns andares haverá com certeza outros mais evoluídos, onde um teste de ADN e o timbre certo a cantar temas da Floribella devem ser requisitos para conseguir entrar.
Os elevadores misturam grandes clássicos do mundo do ascensorismo com música trendy e fashion, o que me faz pensar que ou há DJ’s residentes ou a malta que escolheu as cassetes sofria de personalidade dupla. Para aqueles que beneficiam de lugares no parque subterrâneo, um discreto quadro óptico no painel do elevador anseia por um bom esfreganço num cartão magnético para lhes dar o prazer de aceder às suas profundezas.
Já as entradas são patrulhadas por seguranças/vigias/malta que precisava de um trabalho e este foi o que se arranjou, que olham sempre com alguma desconfiança para a malta (como eu) que acede aos elevadores de prédio tão ilustre sem o fato que a ocasião parecia exigir. Só o hábito e um ar decidido superam esta renitência inicial...
No entanto, para além de toda a parafernália de pormenores que poderia utilizar para vos maçar, vou apenas destacar mais um, aquele que me levou a este pequeno apontamento: as casas de banho (que são partilhadas com as empresas de cada andar), mais especificamente, a casa de banho para deficientes.
Não há muito a dizer sobre as casas de banho normais, pois até têm até um ar tradicional, cuidado e funcional, tirando o pormenor que na casa de banho dos homens se ouve facilmente a conversa na casa de banho das mulheres e vice versa, o que pode ser bastante interessante para aqueles dias mais mortos em que não há muito que fazer. Todas são também munidas do interessante mecanismo da luz que se desliga ao fim de x tempo de imobilidade, o que tem dinamizado em muitos WC’s do país a chamada “Hola mexicana dos sanitários” derivada da tradicional onda, que tantos eventos desportivos pelo mundo fora tem animado.
A casa de banho de deficientes, essa sim vale a pena visitar. Uma grande porta com amplitude suficiente para deixar passar uma cadeira de rodas abre-nos um espaço muito particular, onde podemos tirar algumas ilações.
Primeiro, os deficientes, tal como os vampiros, não têm reflexo. Isso justifica que por cima do lavatório não haja espelho, como há em todos os outros WC’s. Pode também ser que a pessoa que desenhou o espaço pensou, imbuída do espírito de Madre Teresa “Coitaditos, são deficientes, não devem ter brio nenhum, não vou ainda por cima humilhá-los com um espelho”.
Segundo, os deficientes desconhecem o uso da evoluída tecnologia do doseador de sabonete. Enquanto nas casas de banho tradicionais o doseador está embutido na bancada, aqui nem um pequenito descartável há, sendo o sabonete colocado em copos de plástico ou garrafas de água vazias, para não terem assim que afixar um complexo manual de instruções do doseador. Até me surpreende como é que há autoclismo e não um balde de água e um secador de pressão e não uma fogueira no canto da casa de banho.
Que não pensem aqueles que por esta altura ainda não estão a ver o Clube Morangos, que não reconheço que o facto de haver casa de banho para deficientes é positivo. Simplesmente, acho que as coisas quando são feitas devem ser bem feitas ou então soa sempre ao “teve de ser, por isso é que é assim” e ao tradicional desenrasca, o que nos leva ao último pormenor.
É que uma coisa que me deixou estupefacto quando visitei esta casa de banho foi o facto de por cima da grande porta da casa de banho para deficientes, do lado de dentro, haver um daqueles letreiros luminosos a indicar uma saída de emergência. A porta é única, a casa de banho não tem janelas e a saída pelo ralo do lavatório, da sanita ou do tubo do secador não me parece muito viável.
Portanto, ou partimos do princípio que em caso de emergência o deficiente pode desorientar-se e não encontrar a única e grande porta de uma divisão de dimensões reduzidas e precisar do letreito para se orientar. Ou então, aquilo inicialmente não era uma casa de banho e foi adaptada. Se assim é, justifica muita coisa, mas não se perdia nada em tirar o neón a tão prestigiada instalação, se não é, então é uma prova de estupidez arquitectónica ao melhor nível (ou de normas comunitárias, se tal for o caso).

A finalizar, responderei à pergunta que andará na cabeça de algumas das pessoas mal intencionadas que param por estas bandas: “Que fazes tu a passear pela casa de banho dos deficientes, já que apesar de deficitário em muitas matérias ainda não te enquadras nesse escalão?”
É simples, numa casa de banho comum, partilhada por duas ou três empresas num mesmo andar, só os mais fortes sobrevivem e a hora de ponta não é um conceito que se aplica apenas ao trânsito...

8 comentários:

  1. Eu compreendi de imediato a tua visita à casa de banho "acessível". Também o faço em muitas ocasiões e também tiro sempre grandes lições das vistas a esses espaços. Por exemplo, no país onde eu vivi recentemente, normalmente a casa de banho das senhoras era sempre também a casa de banho dos deficientes, o que a mim me fazia muita impressão porque sendo que todas nós levamos horas na casa de banho, uma pessoa que precisava de a ter sempre acessível, não ficava em muitos bons lençóis. Depois lembro-me de numa das que mais frequentava, ou seja, a do meu bar favorito havia doseador para o sabonete e toalhas de papel para secar as mãos, ambos a alturas que eu em bicos de pés via-me grega para alcançar. É verdade que eu não sou nenhum exemplo de altura e elegância, mas ainda a viver na Finlândia achava que de pé conseguia ser mais alta que os que eram obrigados a locomover-se sentados.

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  2. Poderia contar-te que já trabalhei num sítio onde as portas de emergência abrem ao contrário e onde o WC dos deficientes, com letreiro da Sinalux e tudo, se encontra no 2º andar sem elevador e sem rampa (apenas com acesso por escadas para pessoas normais e para deficientes mentais e não locomotores)...mas não quero estragar-te o post e retirar-lhe protagonismo...

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  3. mas isso não estraga nada, Se faz favor, porque esse já é o exemplo típico da lógica do desenrasca e quem não gosta de episódios de BTT e downhill urbano em cadeira de rodas :S.
    A mim, irrita-me mais o típico pseudo top modernismo de tudo é mega uau e ultra avançando e teoricamente funcional e depois tem os seus "buracos negros" onde a lógica e tudo o mais não existe...

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  4. Eu sempre soube que tu eras muito defeciente.

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  5. repararam como o kinder é brilhante? escreveu defeciente em vez de deficiente numa tentativa de fazer uma chalaça como quem diz: se escrever mal a palavra, pois defeciente tem deficiência, ainda parece mais que ele é deficiente...

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  6. e isso no kinder já não é surpresa...

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  7. obrigado, mas mesmo assim assumo mesmo o erro, a gralha, a deficiência na escrita. A língua e os dedos também servem para isso.

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  8. Caro Mak
    Trabalho num sítio onde o conceito de WCs para deficientes nem sequer existe, o que ao menos é concomitante com o facto de nenhum deficiente poder sequer entrar no edifício, pois não há infra estruturas (apenas muitas escadas enceradas que já provocaram algumas deficiências nos seus utilizadores)
    Para terminar: Define hora de ponta, por favor.

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