27.9.06

Estereótipos


Antes de mais queria clarificar uma coisa: apesar da imagem enganadora, este post não trata daqueles aparelhos que os médicos usam para nos auscultar, isso são – estetoscópios, mas achei oportuno começar com uma piada gráfica. Depois deste esclarecimento de interesse público, voltemos ao tema central.
Sou contra estereótipos, mais por ser do contra do que por ter um espírito rebelde e inconformista. Por isso, para contrariar a ideia de que só gente intelectual e bem é que vai ao teatro, resolvi ir ver uma peça. Como de inteligente tenho pouco e de bem ainda menos pensei que o truque estava feito.
Comecei por me esquivar ao estereótipo do mecenas das artes, ao entrar sem pagar. Mas, sem saber como já tinha entrado no estereótipo do português que só vai ao teatro quando saca convites. Ok, o mundo não é perfeito e nessa lógica eu opto pelo esterótipo que me pesa menos na carteira.
Era uma comédia, o que em si já me colocava num novo estereótipo: o gajo que diz que só vai ao teatro ver peças para rir, porque para desgraças já basta a vida. Resolvi a questão, decidindo-me por rir apenas nas partes que tivessem piada, distinguindo-me assim dos entusiastas que riem do primeiro ao último minuto, sem pausa para respirar. Mas, ao fazê-lo caí no estereótipo do snob que olha de lado as pessoas de humor fácil, problema que resolvi olhando-as de frente.
Para não me evidenciar dentro da multidão, resolvi dizer no fim da peça as tradicionais frases “Ah, é engraçado, pena o preço dos bilhetes”, apesar de não ter pago, o que me encaixou do perfil do gajo que nunca está contente, agravado pelo facto de ter ficado a dar graxa a quem me arranjou os convites para não secar a fonte.
Fazendo um balanço ao chegar a casa, não sem antes cair no lugar comum que é o dos gajos que tentam sempre fazer balanços do dia a dia, resolvi deixar de querer ir contra os estereótipos, o que me encaixa exactamente no do derrotista, algo em que não me revejo, mas por isso mesmo me encaixa também no da malta que entra constatemente em negação.
Antes de dormir, resolvi apenas mais uma coisa em relação a esta matéria: que nunca iria escrever sobre temas tão estúpidos como estereótipos, para não correr o risco de cair numa de gajo incoerente ou daquele tipo de pessoas que faz de tudo uma piada...

10 comentários:

  1. O que é que esperas para te redimires e ires ver o Começar a Acabar à sala Estúdio do D Maria. Como não dizes não pergunto, mas adivilho o nome da peça que foste ver...

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  2. Diz que o ser humano estereotipa pq é preguiçoso e lida muito mal com o imprevisto... E sim, tb acho que estou a estereotipar... :)Gostei do teu post... :)

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  3. Eu fiz pior. Quis pertencer a um grupo de teatro mas quis fugir ao estereótipo da adolescente que quer ser actriz em parte porque por muita vontade que tivesse aquilo nunca iria dar certo. Entrei para o grupo de teatro mas como não era actriz passei a fazer parte do estereótipo da adolescente nerd que por ser feia não é actriz e faz cenários. Já que estava no grupo nerd, deixei-me ficar por lá e comecei a ir ver peças de teatro, mas por não ter muito dinheiro entrei num outro estereótipo que é o dos tipos que por não terem dinheiro para peças de jeito vão ver merdas experimentais e desculpam-se que aquilo é que é giro, mesmo que o giro seja uma gaja, que é cantora de ópera moderna, conceito em si já idiota porque se é moderno não é ópera, mas talvez seja porque ela farta-se de berrar, e brinca com uma arma, e dança com uma arma, e passeia-se no palco com a arma e um vestido ridículo, e ameaça matar-se e ao fim de 15 dos 40 min que aquela merda vai durar, tu só tens vontade de gritar "Se não vais usar essa arma para te matares, por favor, usa-a comigo."

    Desculpa sou capaz de ter exagerado, mas traumas na adolescência são sempre os que fazem mais estragos.

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  4. Pala Pala, concordo contigo. Se há coisa que me estraga o dia é ir ver um teatro pseudo-intelectual, feito à conta do subsídio da Cultura, em que a única coisa que percebo no fim da peça é que é o meu dinheiro que a ajuda a pagar.

    Se faz favor Mak, diz lá qual foi a peça!!

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  5. Renovo o pedido Mak - eu sei que os bilhetes foram grátis, e que és um rapaz cheio de pudor -, mas diz lá, qual foi a peça? Foi a do Villaret, não foi? (Ou terá sido uma das do Maria Matos?) Aposto na 1a!

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  6. A pedido de mtas famílias eu confirmo, foi de facto o "Dois Amores", em exibição no Teatro Villaret.

    A peça é engraçada, mas não de riso contínuo como vi muita gente a demonstrar. Os actores, estão bem orientados para aquele tipo de conteúdos, mas é um registo que a malta já se habituou.
    O meu lamento maior vai para o facto de, em vez de haver gente a produzir conteúdos para teatro ao nível de comédia, a solução mais fácil continue a ser ir ver alguma coisa gira lá fora, comprar direitos e adaptar diálogos. Tem o seu valor, mas...não é produção original...

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  8. Não me digam que a peça é sobre o Marco Paulo?

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  9. Nop, a vida de João Simão n é chamada à baila durante a peça...

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  10. Obrigada, curiosidade satisfeita! O pior, é o cheiro a mofo que o Villaret tem...
    A pior peça que já tive o desprazer de ver foi, sem dúvida, (quase me envergonho de o dizer, mas cá vai) as "Confissões de Mulheres de 30". Saí do teatro a odiar a minha geração e a achar que há peças que deviam trazer o aviso "Peças para Galinhas"
    Ainda voltando à dupla do Villaret, que saudades de " O que diz Molero", uma produção inteiramente nacional e cheia de humor. O que dizes é verdade Mak, importar sucessos sai mais barato e é fácil, mas há casos bem sucedidos (As Obras Completas de Shakespeare em 96 minutos, por exemplo).

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