3.8.06

Puta Vida Merda Cagalhões

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Do grande Nel chega-nos esta magnífica, sumptuosa e lapidar canção que decidi eleger como a nova melodia deste blog por tempo indeterminado, com ênfase em indeterminado. Como não podia deixar de ser, foi através do Portal Pimba que descobri esta autêntica pérola. É, sem dúvida nenhuma, uma canção que consegue, com uma clareza e meticulosidade avassaladoras, elevar o género muitas vezes esquecido e injustiçado da música popular a novos píncaros nunca antes almejados, nem mesmo pelo fautor desta fabulosa composição poética, Nel Monteiro.

Puta Vida Merda Cagalhões

Por não ter condições de vida
E ver sinais de mal a pior
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
É muito duro ser pobre
E mais duro é com certeza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

A Expo 98
Tanta nota ali perdida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
Não é defeito não ter
Nem para cagar, um penico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Estádios de futebol
Oferta de mão beijada
A quem já ganha milhões
E milhões sem ganhar nada
Ser pobre não é defeito
E ser rico também não
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Aquela Casa da Música
Que não tem nada no Porto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Os vintes e dois mil milhões
Todos sabem para onde vão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Quando o homem se convencer que a modernização do mundo terá de começar por acabar com a pobreza, aí sim, teremos um mundo melhor.

(Letra e Música de Nel Monteiro)

Vou agora, propositadamente, deixar cinco ou seis linhas de intervalo para reflexão antes de proceder à análise desta música, pois, como melómano incorrigível que sou, estou a sentir um turbihão de emoções semelhantes às que perpassaram Pelé quando lhe deram a primeira bola.







Agora que estou um pouco mais recomposto, confesso que nem sei por onde começar. Talvez pelo título. Puta Vida Merda Cagalhões. Um título apoteótico, mesmo tendo em conta o género musical em que se insere a composição. Reconheço que nunca pensei que o para mim competente e por vezes inspirado Nel Monteiro fosse capaz de uma tão singular pedrada no charco do nacional cançonetismo. É certo que em temas como Toca o Bicho, uma das maiores apologias de sempre da masturbação e hino de todos os onanistas via webcam, o Nel já vinha evidenciando ser um autor capaz de trazer maior maturidade às suas canções, mas nunca esperei nada como este Puta Vida Merda Cagalhões. Reparem nas quatro palavras agregadas neste insuperável título: temos puta, temos vida, temos merda e, viva o pleonasmo, temos também cagalhões.

Nesta altura, uma pergunta se impõe: Quem é Nel Monteiro? Antes da composição deste tema, julgo que nem o próprio saberia responder cabalmente a tão premente questão. Depois de o ter composto, o Nel é, com todo o rigor, o maior crítico da actual conjuntura portuguesa e o mais acintoso denunciante das injustiças sociais e das desigualdades económicas. Atrevo-me ainda a dizer que, doravante, e à semelhança de um pré e um pós 25 de Abril, a História recente portuguesa será também compartida num pré e num pós Puta Vida Merda Cagalhões. O homem responsável? Nel Monteiro, viseense e, a avaliar pela fotografia, anacrónico no que concerne a questões mundanas e de somenos importância como a moda e os penteados. O que este blog e, mais em particular, este vosso interlocutor deseja ver esclarecidas são as condições que propiciaram que este homem, que nas entrevistas fala ajim e usa um caniche na cabeça, se tornasse no maior compositor português de todos os tempos, título que ainda há bem pouco havíamos atribuído a Amadeu Mota.

Talvez tenha sido quem escreve no Portal Pimba a melhor definir o Nel relativamente à sua caracterização espaço-temporal na música portuguesa, quando referiu nesse blog que o Nel está para a música popular como o Ozzy Osbourne para o heavy metal. Nova pausa de cinco ou seis linhas para descompressão.





Ok, já chega. Agora atentem neste pequeno trecho da letra de War Pigs, dos Black Sabbath:

Politicians hide themselves away
They only started the war
Why should they go out to fight?
They leave that role to the poor

Ah, pois! Afinal parece que a comparação não é de todo descabida. À semelhança do Ozzy, também o Nel desmascara os políticos que causam todos os males do mundo e afundam os países na pobreza. No entanto, o Nel não é diletante como o Ozzy e leva a sua crítica muito mais longe, qual Robin Hood secundado por um frei Tuck quiçá na figura de um Graciano Saga. Aliás, se bom senso houvesse naquela estação de televisão ali para os lados da Barcarena, há muito que o Nel teria substituído o Miguel Sousa Tavares no Jornal Nacional. Nada escapa ao seu dedo acusador, começando nas derrapagens financeiras da Expo 98, passando pela anedota em que redunda a Casa da Música, acabando com as actuais e muito em voga polémicas da Ota e do TGV. Com Nel comem todos da mesma maneira, sejam do PS ou do PSD. Mas o que mais irrita e confrange o Nel são as desigualdades económicas: uns com tanto e outros com tão pouco. Haver gente capaz de passar por um pobre e não ser capaz de lhe dar um tostão. E atenção, muitos deles não são patos que usem cartola e polainas nem tampouco se chamam Tio Patinhas. Enfim.

Como nota final, reforço a ideia que, não obstante a bela harmonia musical deste tema, 99% do seu vigor reside na letra que se reveste de uma lucidez invejável a muitos dos pseudo-artistas do nosso panorama musical e que, a manter-se o presente estado de coisas neste país, temo bem que permanecerá actual por muitos e longos anos.

5 comentários:

  1. Não pondo em causa o papel do Nel na evolução cultural e musical em solo português, que com certeza será no mínimo higiénico, reforço apenas uma questão:

    Se tivesses posto a foto do Nel no post anterior será que alguém teria notado a diferença?

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  2. Peço desculpa mas não consigo comentar, ainda estou a rir!

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  3. AH GRANDA NEL!!!! (E reparem no enfase dado pelo caps ligado!!)

    É de psssoaass c'mó Nel c'agente precisa!

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  4. Ainda não estou em mim, tão bom que tive de desligar o som, não estou preparada para ascender a tão altos planos. Genial.

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