17.8.06

Isso é do caralho...

A palavra caralho é, como todos sabem, um dos mais poderosos artifícios que se podem usar para enfatizar alguma coisa. Em termos de distâncias, então, está na boca de toda a gente (salvo seja). Foda-se isso é mais longe que o caralho. Isso fica lá para trás do caralho. Ou ainda, por exemplo, isso fica ali para a Bobadela ou Rinchoa ou lá o que é, que no fundo é o mesmo que dizer caralho. Assim como que expondo uma ordem de grandeza, em termos de distância, não há melhor que o caralho. Temos o cu de judas (que já é longe para caralho), temos aquele sítio onde o diabo perdeu as botas (que fica no caralho mais longe) e ainda temos o corolário das ultra-maratonas que é caracterizado pela expressão já referida do mais longe que o caralho. Não há nada mais versátil que um bom caralho. Serve para tudo, incluindo o óbvio. Especialmente para as coisas que são agradáveis, aquelas coisas de que gostamos. Isso é giro, pá! Eis uma expressão usada por alguns dos mais atrevidos jovens portugueses durante o Estado Novo, quando queriam exprimir admiração por algo que lhes agradava. Mais tarde, com as cabeleiras e as barbas e o descurar da higiene pessoal, e sem os asseclas da Pide à espreita, começaram a ser mais arrojados e aqui nesta fase houve uma cisão na verve da juventude portuguesa: por um lado, temos aqueles jovens que, como bons portugueses que são, recorreram obviamente ao caralho. Isso é do caralho! Ena cum caralho! Ai o meu caralho, cum caralho! Por outro lado, temos aquelas pessoas, que hoje em dia administram as maiores empresas do país, mas que na altura gostavam era de se roçarem uns nos outros, ver filmes do Pasolini e acreditar em tretas difundidas pelo MRPP. Esses jovens, apesar da rebeldia exterior, não conseguiam encontrar dentro de si as forças para enunciar convenientemente a palavra caralho. No fundo, não valiam um caralho. Quando queriam apodos para exprimir admiração pelo que quer que fosse recorriam frequentemente a anglicanismos como o nice ou a outras expressões muito abichanadas como o baril. No fundo ainda não tinham encontrado as virtudes do caralho. E tiveram uma vida muito mais triste que os outros, que conheciam o caralho de lés a lés. Tinham uma aparência exterior rebelde à la Keith Richards mas a sua alma era a de um Artur Agostinho. Usavam o caralho apenas para uma coisa. Para exprimir dor. Para a outra coisa que vocês estão a pensar, utilizavam o pénis. Por vezes, quando passavam por baixo de uma arcada e lhes caía um piano de cauda em cima dos cornos, consta que lá saía um caralho digno de se ouvir. Do género: Foda-se, cum caralho! E depois morriam. Adiante. Mais tarde, com o aparecimento de uma verdadeira indústria do sexo nas televisões, como os primeiros filmes de queca e tal, começaram a ouvir-se novas expressões nas bocas da juventude portuguesa. Foda-se, que grande caralho que aquele caralho tem! Aquela gaja é do caralho! A melhor de todas: que caralho do caralho. Fazia-lhe um pijama de saliva, cum caralho! Noutro âmbito, com as transmissões televisivas de futebol, o caralho passou por momentos conturbados, quando começou a ser utilizado de forma pejorativa, normalmente associado a jogadores como Secretário, Nelo, Bobó, etc. Aquele preto não joga um caralho! Chulo, não vales um caralho! Foda-se, que aquele gajo é burro como o caralho! E por aí fora. Mas, para acabar em grande uma volta ao mundo do caralho e como paradigma de que o bom filho à casa torna, tenho para mim que os momentos mais bonitos em que usamos o caralho são aqueles que realmente têm a ver com o caralho, isto é, aqueles em que o caralho se acerca da sua verdadeira essência. Por exemplo, quando uma moça grita: dá-me caralho, foda-se! É deveras singelo. Ou ainda: tenho o caralho em carne viva de tanto chavascal! Ou por exemplo, aquelas expressões que resvalam para a nobre área da medicina: isso é capaz de ser uma micose, Sr. Silva. Onde é que tem andado a meter o caralho? Um caralho inferiorizado: sr. Doutor, não me consegue acrescentar uns seis centímetros ao caralho? É que a minha mulher anda a encornar-me pra caralho, pá! E eis-nos chegados ao fim desta dissertação do caralho, para o caralho e sobre o caralho, caralho!

3 comentários:

  1. Que é que comeste ao almoço, caralho?

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  2. Caralhos ma fodam. Não percebi um caralho!

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  3. Muitíssimo bem observado! Em especial as singularidades, não de qualquer loura que por aí ande, mas de uma juventude que, ao que parece, não foi a sua...

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