19.6.06

Amadeu Mota: A análise de um melómano

A letra original:

There's a light
A certain kind of light
That never shone on me
I want my life to be lived with you
Lived with you
There's a way everybody say
To do each and every little thing
But what does it bring
If I ain't got you, ain't got ?
You don't know what it's like, baby
You don't know what it's like
To love somebody
To love somebody
To love somebody
The way I love you
In my brain
I see your face again
I know my frame of mind
You ain't got to be so blind
And I'm blind, so very blind
I'm a man, can't you see
What I am
I live and breathe for you
But what good does it do
If I ain't got you, ain't got ?
You don't know what it's like, baby
You don't know what it's like
To love somebody
To love somebody
To love somebody
The way I love you

A fantástica interpretação da letra por Amadeu Mota:

They say Lays
A sut ago aiiiiis
That's never shine on me
I want my life to lived with you
Lived with you
There's a way everybody say
To lift el' all to sing
But what does it bring
If I ain't got you, heim gó?
You don't know what it's lái, baby
You don't know what it's lái
To love somebody
To love somebody
To love somebody
The way I love you
In my way
I see your face again
I know my friends are mice
You ain't got to be so blind
And I'm blind, so so so blind
I'm a man, can't you saw
I am
I live on the b(l)each for you
But what does it do
If I ain't got you, heim gó?
You don't know what it's lái, baby
You don't know what it's lái
To love somebody
To love somebody
To love somebody
The way I love you

Começando logo no início da letra: Por que é que eles dizem Lays? O que os leva a gritar bem alto uma marca de batatas fritas? Será que gritam mesmo Lays? Talvez afinal gritem lies e, nesse caso, não passam de ignóbeis pantomineiros que Amadeu Mota decerto desmascarará. Prossigamos. A sut ago aiis. Sut não sei o que quer dizer. Pode ser algo que tenha ocorrido recentemente e, nesse caso, deve ter sido doloroso pois tinha aiis a acompanhar. Muitos aiis mesmo. Faz-me lembrar o Euro 2004 e os menos ais. Aqui são mais, no entanto. That's never shine on me. A língua inglesa, porto de abrigo de sempre da composição musical pop-rock, caminha vertiginosamente para o Ragnarok e contornam-se assim todas as regras gramaticais, cortesia de Amadeu Mota, que também já havia desafiado de forma impune a gramática portuguesa. That never shone on me é para mariquinhas. That's never shine, ui, isso só alguns se poderão abalançar a gritar bem alto. Tal como To do each and every little thing. Não há tempo para isso. O ritmo frenético da nossa sociedade ocidental não se compadece com essas merdas. Mas quem é que tem tempo e pachorra para fazer todas as pequenas coisas? Ninguém, muito menos o Amadeu. É melhor Lift el' all to sing, ou seja levantá-los a eles todos para cantarem, que o tempo é de alegria. Rejubilem e cantem, recos. Got passa a gó e like passa a lái. É mais audível e prazenteiro para os melómanos inveterados. I know my frame of mind, isto é, conheço o meu estado de espírito passa a ser I Know my friends are mice, ou seja, sei que os meus amigos são ratos. Pungente e ao mesmo tempo revoltante. Confesso que não consegui deixar de verter uma lágrima. A revolta de Amadeu que troca o conhecimento interior do seu estado de espírito pela revelação desabrida de que os seus amigos são ratos. Talvez o tenham atraiçoado e não tenham tido a coragem de o salvar, preferindo refugiar-se na vida simples dos cobardes e conformistas. Talvez sejam os mentirosos que passam por batatas fritas, que ele jurou perseguir e desmascarar. Um homem que tem a coragem de tão despudoradamente revelar os seus sentimentos mais profundos tem, obrigatoriamente, de ser um dos maiores génios musicais de toda a História. Mas continuemos pois estamos a chegar ao momento mais alto e messiânico de To Love Somebody: I Live and Breathe for you passa a I Live on The Beach for you ou talvez até a I Live On The Bleach for you. Em vez de viver e respirar pela pessoa a quem dedica a balada, o Amadeu opta pela dualidade e pela dicotomia. Por um lado parece querer, depois de uma vida de sacrifícios, viver na praia e beber água de coco, desfrutando assim os prazeres da vida. Por outro, parece não conseguir escapar da espiral de violência e sofrimento que caracteriza o seu passado, preferindo viver na lixívia, num contante torpor de auto-flagelação. Viver na lixívia por alguém é o mais poderoso de todos os sacrifícios pela humanidade desde que Jesus esteve na cruz. Confesso não conseguir analisar mais nada. Isto é demais para mim e a violência emocional que senti ao escrever estas breves linhas pode ter-me deixado traumatizado para sempre. Obrigado, Amadeu, por existires e nos mostrares que a vida tem mais do que se lhe diga.

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