1.4.06

Vai mamar, ó Paulo

Se há coisa que me irrita profundamente, mais ainda que o penteado do Santana Lopes e o ar intelectual que o Luís Costa Branco arvora naquele programa da SIC Mulher em que gajos falam sobre gajas, é a obra literária do Paulo Coelho. Confesso que as capas dos livros dele até me pareceram apelativas em determinada altura da minha vida - aquela mesma fase em que achamos que por já termos vida sexual somos adultos. Nessa época, uma prima minha, que possui um acervo literário interessante, emprestou-me o Alquimista. Li aquilo em dois dias, se bem me lembro. Na altura, também por falta de bases de compração, não consegui discernir completamente acerca da valia do autor. Faltava-me ler mais qualquer coisa. Passados um ano ou dois, li o Nas Margens do Rio Piedra blá blá blá e o Maktub. Nessa mesma altura iniciei o desenvolvimento de uma profunda aversão ao Paulinho. Por momentos pensei que o problema era meu: Tu és pouco espiritual, pá! Noutras ocasiões: Tens a sensibilidade de uma rocha! Nalgumas outras: Pára de coçar a tomatada em público! Deixei a coisa andar. Li outras coisas. Li muita literatura russa. Dostoievski e tal. Li utopias e distopias. Li muitos comics da Marvel. Li Kafka, Steinbeck, Boris Vian. Li autores portugueses também. Passados muitos anos, uma tia ofereceu-me no meu aniversário o Monte Cinco. Apesar de torcer o nariz, não lhe fiz a desfeita de ignorar por completo a oferenda e abalançei-me à tarefa de ler aquilo. Só li vinte ou trinta páginas. Neste momento posso concluir que o Paulo já não tem nada para me oferecer. Aquilo é mesmo mau. Não é só mau. É pior. É uma merda. Por outro lado, compreendo o Paulo, à luz da nossa sociedade de hoje em dia. Eu também não me importava de ser o autor de língua portuguesa mais vendido de sempre. Aquilo é formulaico, gira o disco e toca o mesmo, e deve-se fazer uma vida simpática à custa de pessoas inseguras. Existem milhões de pessoas no mundo inteiro que pensam da seguinte forma: Epá, eu não sou católico não sou nada, mas acredito que existe qualquer coisa que nos transcende a todos. Como hei de fazer para comunicar melhor comigo mesmo? Já sei, vou ler um épico do Paulo! Há uns bons vinte anos atrás, com o advento em Portugal das IURDS e outras que tais, as pessoas eram enganadas mas acreditavam mesmo em qualquer coisa. Hoje em dia o McDonald's Espiritual apresenta-se-nos através das tretas que o Paulo Coelho escreve. Independentemente dos credos, muita gente no mundo inteiro lê o Paulo Coelho. O atrasado mental do Russel Crowe, quando não está a partir a tromba a nenhum funcionário de hotel mais zeloso, não perde uma obra do Paulo. Ainda se admiram de cada vez menos gente ir à missa. Eu por mim, e independentemente da minha educação católica, deixei de ir à missa há muito tempo. Às vezes estou em paz, outras não. É a vida. Não sou nenhum acintoso defensor ou atacante das igrejas, religiões ou da espiritualidade de cada um. O que me custa profundamente é que o monsieur Lapin continue a enganar tanta gente. Só uma sugestão: se se sentirem bem convosco, têm tudo o que precisam. Não têm de ir à Igreja, à Mesquita ou ao raio que vos parta. Muito menos precisam de ir à FNAC encher os bolsos de um gajo que andou a ser internado em hospícios e a levar choques eléctricos quando era puto.

6 comentários:

  1. Ora aí está um post 5 estrelas, concordo plenamente!


    Paulinho para a forca já!!!

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  2. Fosga-se, tu leste 5 livros do Paulo Coelho? Por um lado admiro essa coragem de olhar para o perigo em cada página, pondo a vida em riso a cada palavra, ao arriscar a sanidade a cada letra. Por outro lado não consigo perceber como é que, a partir do primeiro livro, continuaste a dar dinheiro a um pulha que só fala de velinhas e de incensos.

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  3. Eu por acaso sou grande apreciador dos livros do Paulo Coelho, apesar de apenas ter lido metade de um. Para além de serem óptimos suportes para mesas com uma perna mais curta, acho que o segredo todo da espiritualidade dos mesmos está na capa...

    Aquela cara de avô Lapin Cantigas e aquele sorriso bacoco que derrete qualquer velhinha ou gaja menos atenta, aliada a uma tranquilidade própria de quem sabe que "Bem, mesmo se este não vender já tenho dinheiro que chegue para 2 encarnações".

    Quem resiste a esse charme, que disfarça o vazio etéreo (de éter, não de puro e delicado) do conteúdo dos calhamaços do Mr. Myagi da literatura? Só nós, os fieis leitores dessa diva da literatura, a Margarida Rebelo Pinto...

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  4. Com este post apercebi-me que a adolescência portuguesa guiou-se toda (ou quase toda, 3 em Portugal é já uma multidão) pelos mesmos caminhos.

    Uma educacão católica que deu - em nada, três livros do Paulo Coelho que deram em suportes de obejctos de design inacabado comprados na feira da ladra.

    Os títulos contudo na minha vida mudaram. Eu iniciei o fim da minha espiritualidade aos 14 quando discuti com o padre da minha paróquia, depois comprei as Valquírias, gostei muito e quase que abri um templo ao Paulinho. Quando fiz 16 li o Alquimista e deixei de acreditar em Deus e por fim li Maktub e voltei a acreditar em Deus.

    Tem com certeza que existir algo acima de nós que controle este tipo de coisas. Algo que goze muito com a nossa cara e nos diga constantemente, 'pois é, este tipo é parvo e não escreve bem mas como podes ver eu a ele apoio-o porque ele anda aqui aos anos e pregar aos peixes e tu que fizeste por mim... nem no teu blog me elogias'

    E depois admiramo-nos que estarmos no metro de londres ao lado de um bêbedo que apoia o Chelsea, que nos pergunta de onde somos e que ao respondermos Portugal ele responde de volta... ah então falas brasileiro. Claro... quem é que vende discos e livros em todo o mundo na língua de Camões. O Coelho... não é com certeza a Pinto.

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  5. Não vou julgar todos os leitores do espiritual Coelho pela mesma balança. Até porque ela está ajustada para pesar droga e isso ia desregular-me o sistema todo.

    Gosto de ler, muito por sinal, e como tal arrisco-me a ler também livros de que não gosto, nem que seja para formar opinião sobre eles. E sobre o citado senhor eu já formei a minha...

    Compreendo, que a religião e a espiritualidade, tal como muitas outras coisas, foram criadas pelo ser humano para explicar aquilo que não consegue explicar de forma racional. Eu próprio ouvia atentamente as palavras de Zandinga procurando ver mais longe no futuro.

    O que acho piada é haver tanta gente que tira lições de vida e oriente a sua fé/espiritualidade pelo que determinado gajo escreve ou diz. Eu cá gosto de fazer a escolha por mim, com base na minha vivência... Os tipos que escreveram a Bíblia também se devem rir das milhentas interpretações diferentes que são feitas a partir dos seus textos, sem que nenhum de nós possa saber efectivamente qual era a verdadeira...

    Tb devem haver mtas pessoas que se sentem tocadas pelos romances de Danielle Steel, que vão buscar aí muita da sua razão de ser emocional, mas isso não me impede de os considerar dignos de qq recicladora de papel.

    É o que se chama de livre arbítrio. Eu não critico quem os lê, por os lerem, Posso criticar o "deixar-se influenciar por" e certamente critico quem explora fórmulas e fragilidades em formato de livro...

    E como é óbvio, isto que disse, pode e deve ser criticado...

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  6. Eu gosto de Paulo Coelho à caçador. Carregadinho de Chumbo.
    Já agora uma curiosidade. O lançamento mundial do último livro de Paulo Coelho foi feito no Irão, esse país democrático, aberto a todas as religiões e muito "espiritualista". Quando pensávamos que era uma mensagem de esperança lançada ao mundo, descobrimos que a razão é simplesmente "mercantilista". A razão é simples. Diz a lei iraniana que se um livro não for publicado primeiro nesse país e em árabe, poderá ser livremente copiado, isto é, vendido legalmente na rua e livrarias sem a autorização do autor. É um flagelo que sofrem todos os escritores internacionais no Irão. A editora de Paulo Coelho estimou a venda não autorizada de 4 milhões de cópias no país desde que o autor publica mundialmente as suas obras. E vai daí convenceu o homem que mais vezes escreve a palavra "espírito" - mais que a Bíblia - a lançar o seu livro em terras onde o "espírito" anda em burcas e carrega explosivos.

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