5.4.06

O conto do velho e do pombo

Lisboa (para não dizer Portugal) tem pelo menos duas pragas: pombos e velhos. Se em relação aos primeiros o consenso é quase geral, certamente que no que toca aos segundos, a afirmação é polémica. Mas eu provo que as duas estão ligadas.
Os pombos são imunes a quase tudo o que é doença, algo com que a maior parte dos velhos sonha. Além disso, os pombos cagam em tudo quanto é sítio, algo com que muitos velhos se identificam.
E vai daí os velhos fazem um culto aos pombos. Possivelmente tentando absorver deles a imunidade ou o dom de voar para ir ter com os anjinhos, toca de descarregar sacos de migalhas, milho, esfarelar pão, etc, em qualquer parte da cidade onde possa estar um desses seres cinzentos que para além de servirem de alvo em movimento não se lhes reconhece qualquer outra utilidade.
E se alguém comenta “Não vê que ao dar de comer a um pássaro que até beatas come, está a contribuir para o prolongar de uma coisa má?”, o velho que porventura sente nisso uma ameaça a si mesmo, sai-se logo com uma tirada que se podia aplicar a ele próprio “Coitadinhos, não vê que não fazem mal a ninguém?”. E a história repete-se, num ciclo vicioso...
É que o problema dos velhos que não têm onde cair mortos é exactamente esse, não têm onde cair mortos.
A medicina evoluiu, as condições de vida evoluíram (mesmo que em muitos casos sejam ainda pré-históricas), mas o conceito de família e de sociedade também e ninguém guardou lugar para eles, os velhos. Enquanto houver pombos para alimentar, jardins para jogar cartas e afins, o mal vai sendo esbatido “Coitadinhos, não fazem mal a ninguém”. É que os que podem vão para “lares de idosos” (na maior parte das vezes equivalentes a uma estadia no corredor da morte), os que não podem vão dar de comer aos pombos até um dia...
Envelhecer é bonito mas não é para todos. Em Portugal para muitos é uma maldição e não há pombo que a quebre.


Uma ressalva, o termo velho é usado intencionalmente, porque pretendo separá-lo do politicamente correcto cidadãos seniores - aqueles que efectivamente ainda fazem parte do mundo dos vivos, especialmente a nível mental e que arranjam formas produtivas de ocupar o seu tempo e não se deixam sucumbir pela idade. Se isto soa mal? Soa. Se não pretendo contribuir para a solução? Para acabar com os pombos tenho umas ideias, para tratar dos velhos nem por isso...

4 comentários:

  1. Eu gosto de passar por cima dos pombos quando ando de carro. É uma alegria ver aquelas penas todas a voar quando olhamos pelo retrovisor! Infelizmente quando tentei fazer o mesmo com um velho, a merda do andarilho rebentou-me a panela de escape e não deu para ver nada pelo espelho.

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  2. É assim a vida... nuns dias és o pombo, noutro dia és a estátua.

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  3. E os pombinhos? Não metem nojo também? ;)

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  4. Os jovens de hoje serão os velhos de amanhã. É simples fazer comparações mas dificil fugir à realidade futura.

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