19.1.06

Beleza fatal

Tânia sentia-se confiante, sabia que era atraente e hoje isso iria ser mais importante do que nunca. Tomou um banho de espuma relaxante, colocou os cremes que transformavam o seu corpo torneado numa capa de sedução natural e foi até ao quarto. Escolheu uma lingerie sexy, mas com classe e o vestido que deixou correr pelas suas costas abaixo torná-la-ia o centro das atenções onde quer que fosse. Penteou o cabelo de forma a ficar com aquele look naturalmente rebelde, que ela gostava tanto de disfarçar com uma expressão dócil e inocente. O momento estava a chegar, resolveu ir ver-se ao espelho.
Ao contemplar-se, Tânia apercebeu-se que possivelmente nunca iria ser tão bela e desejável como nesse preciso momento. Estava portanto na altura, foi até ao seu armário, pegou na caçadeira de canos serrados que tinha comprado e desfez a sua cara num só disparo. Obviamente morreu, tal como era suposto. Afinal, ela era linda de morrer.

Nem numa história imbecil como a anterior, a expressão “linda de morrer” faz sentido. Na vida real muito menos.
Sendo o português uma língua frutuosa em expressões idiotas, com esta eu embirro particularmente. Tirando na cabeça de poetas desfazados e os 3 gajos que ainda acreditam no amor platônico, a ideia de “linda de morrer” não faz sentido.
Se considerarmos alguém tão bonito, vamos estar dispostos a morrer por isso? Claro que não, a não ser que soframos de graves perturbações mentais e aí até um amendoim nos pode fazer querer morrer.
É porque se for alguém que consideramos lindo/a mas que é inalcançável, então porque é que queremos morrer? Certamente não deve ser para ficarmos mais perto dela, já que depois do Ghost foram proibidos tipos de contactos do além enquanto se faz porcelana, por motivos de saúde pública...
Se é alguém lindo ao nosso alcance, também não é mortos que vamos ficar mais perto...
Já se for de objectos lindos de morrer ou de algo figurado que falem, então é porque muito possivelmente são fúteis ou aventesmas. Nesse caso a vossa morte, se bem que pelos motivos errados é um bónus para o mundo.
Finalmente, se estiverem a falar de vocês próprios, aí sim, devem realmente morrer, não por causa da vossa beleza, mas sim porque ninguém gosta de gente com ego insuportável.

6 comentários:

  1. Guida R. Pinto19/01/06, 17:44

    És um grande escritor jovem. A última parte estava um tanto ou quanto confusa, imperceptível até em certos pontos. Apesar disso, revelas nos primeiros parágrafos ser possuidor de uma escrita inteligente e apelativa. Continua!

    ResponderEliminar
  2. Nunca percebi essa expressão. Linda de morrer? Não pode estar correcto. Já conto 24 anos... ;)

    ResponderEliminar
  3. não está fácil.... :-)
    não entendo tantas expressões de Português que chega a ser assustador. "Linda de morrer" é uma delas. Gosto da palavra "aventesma".

    ResponderEliminar
  4. "Podre de boa" também mete cá um nojinho...

    ResponderEliminar
  5. Pois, também tinha nas minhas cogitações (palavra de 7$50 nº1) essa do "podre de boa" e a de "boa a dar com um pau" (que excluí por ser demasiado gráfica e por ser possível no caso da jovem ser praticante de kendo).

    ResponderEliminar
  6. A língua portuguesa tem destas coisas. Por exemplo a palavra burrié repugna me e ao mesmo tempo atrai me ao nível do fétiche.
    X

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.