23.5.05

A minha novela

Nunca gostei de novelas. Mas quando era puto gostava de ver o wrestling e o mítico Tarzan Taborda a comentar. Frases como "Este tipo não passa de um fanfarrão, dominava-o com uma mão atrás das costas" ou "No meu tempo usava muito a dupla patada" eram o ponto de alto de emissões onde lutadores com caparro e fatos de lycra ridículos, fingiam combater e ter ódios de morte.

Quando isso acabou na RTP, deixei cair o entusiasmo pela "modalidade".

Aqui há uns meses, descobri que a SIC Radical estava a dar Wrestling, infelizmente sem o apoio do insubstituível Tarzan, mas com legendas sobre os comentadores originais. Comecei a ver com a curiosidade natural do deixa lá ver se ainda conheço alguém...

A coisa continua falsa como sempre, os fatos elásticos e 100%polyester continuam lá, agora há gajas (com um ar bastante pecaminoso) e enredos com casamentos e engates, há tipos que mais de dez anos depois ainda lá andam e o entretenimento básico continua...

Repito, eu nunca gostei de novelas, mas vejo-me novamente seguidor atento das peripécias do Undertaker, do Shawn Michaels, do Triple H e de outros "fanfarrões"...

Tenho 27 anos, gosto de ler, não bato na minha namorada e tenho uma profissão que se pode considerar interessante. Sofrerei de perturbações mentais?

20.5.05

Festival da Cançao - A Mafia de Leste esta em todo o lado

Eu sempre soube que por detrás da queda da URSS, haveria muito mais do que a história da "Perestroika" e da abertura ao regime ocidental e blá, blá blá. Nos últimos anos a resposta tem-se tornado evidente: o domínio do Festival da Canção. Cansados do folk popular russo e da mítica balalaika, os últimos dirigentes soviéticos há muito que já deviam cobiçar tão apetecível montra de talentos e músicas que ficam para sempre na cabeça, tal como a mancha de Gorbachev.

E com a criação de milhentas repúblicas que vão desde as conhecidas Estónias, Letónias, Ucrânias e afins, aos inenarráveis Turquemenistões, Quirguizistões, Uzbequistões e outros palavrões chatos como os co...(complete consoante a sua formação moral) o plano ficou pronto.

Cada uma dessas repúblicas vota em todas as outras, e por aí em diante, dando origem a uma bola de neve que, possivelmente em esquema de rotatividade, assegura a vitória a um desses representantes da ex-URSS. Como é óbvio, na maior parte dos casos (99,9%) a qualidade musical não interessa até porque, curiosamente, muitas dessas vezes ela pura e simplesmente não existe. Seja o grupo de rockeiros pseudo modernistas, que baseou o seu look nos Scorpions (e infelizmente a sua música também), ou um lote de freaks e bonecas de leste que passam por aqueles palcos, todos eles não passam de fantoches, e como toda a gente sabe, fantoches não cantam...

O que é que isso tem a ver com o facto de, invariavelmente, a prestação portuguesa ser uma grande merda? Rigorosamente nada.

O que é que eu mudaria na participação portuguesa? Apostar no único factor que ao longo dos séculos se manteve como o bastião de qualidade lusitana no Festival da Canção, ou seja, pôr o Eládio Clímaco a cantar. Sim, porque ao menos se poupavam uns trocos e o gajo que relata o evento, cantaria também...O resultado seria provavelmente o mesmo, mas pelo menos o pessoa sempre se ria um bocado.

No entanto, em jeito de despedida, gostaria de deixar uma palavra ao duo lusitano que nos representou ontem e, ao que parece, se esqueceu que o Festival era da Canção e não da Pantomima: Cebolas

19.5.05

Diz que disse

Há coisas que eu me metem nojo. Erros ortugárficos por exemplo, mas acima de tudo o "diz que disse". Haverá maleita maior na sociedade portuguesa (tirando as novelas da TVI é claro)? É impressionante como as histórias perdem toda a sua veracidade à medida que vão passando de boca em boca.

Exemplo:

Aqui há umas semanas, vinha no autocarro (um clássico) e duas simpáticas velhotas descorriam sobre a morte do filho de um ex-futebolista do Benfica, que na sequência de uma discussão qualquer ao volante foi baleado mortalmente numa bomba de gasolina.

"Ai, eu até conheço o tio dele, o miúdo era uma jóia, não fazia mal a ninguém..."
"Pois, acho que tinha tido uns problemas com a justiça, mas acho que já eram águas passadas"
"Olhe que não sei, ouvi falar em coisas de drogas, se calhar foi toxicodependente durante uns tempos..."
"Acho que não tomava disso, era mais vender pelo que me constou..."
"Pois, só querem fazer dinheiro fácil, trabalhar que é bom nada!"
"Sim, que isso da droga dá muito dinheiro, mas meu Deus nunca acaba bem"
"Viu-se, veja lá o que lhe aconteceu..."

Em cinco minutos, o pobre infeliz passou de "ser uma jóia", para "traficante que teve o fim que merecia", sem intermediários nem factos comprovados...é triste este panoramas, mas é a mais pura das realidades. No entanto, o mais chato disto tudo é ele ter morrido antes de me entregar umas gramas de coca que eu já tinha pago, a pedido de um amigo meu. Enfim, tristezas!

Mas, também eu já suportei na pele a infâmia do boato e do "diz que disse". Soube, por intermédio da minha mãe, que a porteira do prédio onde ela mora até há bem pouco tempo pensava que eu era futebolista...Santíssimo, que amargura!

Primeiro, pensei: "Ora, se eu nem costumo coçar ostensivamente os testículos em público, não falo de mim na terceira pessoa, a minha namorada não é loira e não tenho madeixas da moda...porque raio pensará ela semelhante coisa..."

Depois, o meu ego veio ao de cima, "Deve ser do porte atlético, ou a altivez com que carrego os saquinhos do lixo quando a encontro à noite..."

A minha mãe deu-me o toque da realidade "Não, é porque andas muitas vezes com o saco de desporto e com a barba por fazer..."

Bem, resignei-me, podia ser pior, podia pensar que era duma juventude partidária de esquerda ou técnico municipal de saneamento (vulgo, Almeida). Aceitei o destino e foi assim que o Sérgio começou a falar de si na terceira pessoa...

Despeço-me com amizade e com a certeza de que dou o melhor que tenho todas as semanas para satisfazer o público, mas estas decisões não me cabem a mim, eu estou aqui é para escrever e para merecer a confiança do público...