5.12.05

Se é português não dá cara...

Na passada fui almoçar a esse entrecosto de culturas que é o Chimarrão. Sendo moderadamente alarve, escapei a uma instituição que fascina os portugueses chamada rodízio e dirigi-me à zona de "Prato Cheio", onde mais difícil do que decidir se se leva um prato grande ou pequeno, é conseguir encontrar um prato limpo ou até mesmo um empregado português, o que me leva ao assunto desta dissertação.
Depois de ter confirmado junto de um empregado que não dava para baixar o som da música brasileira de intérprete desconhecido que soava altíssima junto à minha mesa, pelo simples facto de, infelizmente, esse mesmo intérprete estar a actuar ao vivo no andar de baixo, peguei no meu prato e fui enfrentar o grill.
Chegado lá e depois de ter hesitado na panóplia de acompanhamentos disponíveis, escolhi apenas tomate e arroz branco, os únicos que não pareciam ter saído do estômago de um cliente anterior.
Chegado à zona das carnes, o empregado pareceu-me algo familiar e não me refiro ao facto de ele tratar todos por "Amigão". Enquanto ele colocava questões profundas às pessoas que me antecediam na fila, como por exemplo "Maminha senhor?" "Picanha?" ou até "Cupim?", algo não batia certo na minha cabeça, para além do habitual. O sotaque brasileiro confundia-me, porque eu reconhecia aquela cara atrás dos espetos, mas não me lembrava de onde, já que não tenho grandes amizades entre o staff do Chimarrão, nem na comunidade brasileira em Portugal.
Quando chegou a minha vez, fez-se luz, possivelmente porque a sala estava pouco iluminada em dia cinzento, e vendo melhor a cara do indivíduo foi aí que me lembrei: aquele gajo costumava estar sempre a jogar basket no Estádio Universitário, no tempo em que eu passava lá a vida a fazer o mesmo. E não era brasileiro...
Foi aí que ele, sem olhar para mim começou com um "Boa tardjiii senhoooôrrr..." que interrompeu prontamente quando me reconheceu e, falando em tom baixo me disse:
- Então, tudo bem contigo? Olha que a picanha hoje está muito boa - num português de fazer inveja a Edite Estrela.
Fiquei estupefacto com aquela camuflagem linguística e só tive a capacidade de lhe dizer com frontalidade:
- Tudo bem, podem ser dois pedaços então, ah e duas salsichas.

Depois desta reencontro emotivo dirigi-me à mesa, ainda a pensar. Se o gajo é português, das duas uma: ou inebriado pelos fumos da grelha de carnes brasileiras e da música em altos berros não conseguiu resistir ao "açucar" do linguajar indígena ou a administração do Chimarrão tem uma política de restrição em relação a empregados portugueses, o que se pegar moda pode ser um pau de dois bicos, senão vejamos três exemplos:

- As lojas de chineses deixarão de empregar brasileiros como já o fazem, acabando com um foco de confusão para os idosos, que no exterior viam um pagode e no interior ouviam pagode, perdendo referências geográficas e contexto cultural.

- Assistiremos ao regresso do referenciado empregado chico-esperto às pastelarias nacionais, combatendo o desaparecimento de uma figura mítica nacional.

- As empregadas domésticas serão obrigadas a falar português, tornando-as compreensíveis, mas que por outro lado implica que sermos obrigados a perceber do que falam.

Como se vê, não faltam exemplos e agora que se aproxima o Natal, seria interessante aproveitar o tempo que se vai perder nas filas para pagar os presentes, para pensar em assuntos tão vitais como este.

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