19.5.05

Diz que disse

Há coisas que eu me metem nojo. Erros ortugárficos por exemplo, mas acima de tudo o "diz que disse". Haverá maleita maior na sociedade portuguesa (tirando as novelas da TVI é claro)? É impressionante como as histórias perdem toda a sua veracidade à medida que vão passando de boca em boca.

Exemplo:

Aqui há umas semanas, vinha no autocarro (um clássico) e duas simpáticas velhotas descorriam sobre a morte do filho de um ex-futebolista do Benfica, que na sequência de uma discussão qualquer ao volante foi baleado mortalmente numa bomba de gasolina.

"Ai, eu até conheço o tio dele, o miúdo era uma jóia, não fazia mal a ninguém..."
"Pois, acho que tinha tido uns problemas com a justiça, mas acho que já eram águas passadas"
"Olhe que não sei, ouvi falar em coisas de drogas, se calhar foi toxicodependente durante uns tempos..."
"Acho que não tomava disso, era mais vender pelo que me constou..."
"Pois, só querem fazer dinheiro fácil, trabalhar que é bom nada!"
"Sim, que isso da droga dá muito dinheiro, mas meu Deus nunca acaba bem"
"Viu-se, veja lá o que lhe aconteceu..."

Em cinco minutos, o pobre infeliz passou de "ser uma jóia", para "traficante que teve o fim que merecia", sem intermediários nem factos comprovados...é triste este panoramas, mas é a mais pura das realidades. No entanto, o mais chato disto tudo é ele ter morrido antes de me entregar umas gramas de coca que eu já tinha pago, a pedido de um amigo meu. Enfim, tristezas!

Mas, também eu já suportei na pele a infâmia do boato e do "diz que disse". Soube, por intermédio da minha mãe, que a porteira do prédio onde ela mora até há bem pouco tempo pensava que eu era futebolista...Santíssimo, que amargura!

Primeiro, pensei: "Ora, se eu nem costumo coçar ostensivamente os testículos em público, não falo de mim na terceira pessoa, a minha namorada não é loira e não tenho madeixas da moda...porque raio pensará ela semelhante coisa..."

Depois, o meu ego veio ao de cima, "Deve ser do porte atlético, ou a altivez com que carrego os saquinhos do lixo quando a encontro à noite..."

A minha mãe deu-me o toque da realidade "Não, é porque andas muitas vezes com o saco de desporto e com a barba por fazer..."

Bem, resignei-me, podia ser pior, podia pensar que era duma juventude partidária de esquerda ou técnico municipal de saneamento (vulgo, Almeida). Aceitei o destino e foi assim que o Sérgio começou a falar de si na terceira pessoa...

Despeço-me com amizade e com a certeza de que dou o melhor que tenho todas as semanas para satisfazer o público, mas estas decisões não me cabem a mim, eu estou aqui é para escrever e para merecer a confiança do público...

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