28.1.05

Transportes Salazar

Sou um daqueles resistentes e fortes de esprito que dia após dia vai utilizando os transportes da Carris. É uma forma de conhecer novas espécies e também de expiar alguns pecados.
Nas paragens de autocarros, vê-se e ouve-se de tudo (por vezes mais do que se quer). Contudo, há um lamento vindo das bocas de muitos idosos que fez disparar o meu espírito de empresário
Tal como numa experiência científica, quando sujeitos a frio e ao mau tempo e/ou períodos de espera prolongada (um nobre esforço da Carris para promover a camaradagem social entre utentes, é certo e sabido que há um velhote que vai começar um discurso semelhante a este:
- Isto é uma pouca vergonha. Eles fazem o que querem, ele é greves, mais dinheiro, trabalhar é que não. Isto no tempo de Salazar não era assim.

Incitados pelo cheiro a sangue, logo surgem vozes de apoio:
- Diziam mal do homem, mandaram-no embora mas com ele não era esta vergonha e ninguém fazia farinha. Ah meu rico Salazar, comparado a esta rebaldaria de agora…

Este discurso é um mero exemplo, um comportamento geral digamos, mas a ideia central é sempre a mesma. Com Salazar a mandar, os transportes eram de fiar.
Tendo este conceito em mente, desde já lanço um desafio aos descendentes do mítico António de Oliveira (não confundir com o presidente do Penafiel): Para quando um concorrente da Carris, vocacionado para os idosos?
Preços convidativos, autocarros decorados com fotos de Amália e Eusébio, fado como música ambiente, admissão proibida a todos aqueles que não sejam portugueses de gema, horários de precisão mecânica e simpáticos chóferes de bigode e sotaque beirão.
Para atrair ainda mais esta clientela, seriam efectuados sorteios regulares entre os utentes (através de protocolo com o Governo cabo-verdiano) para viagens de turismo senior ao Tarrafal, para que pudessem matar saudades daquela estância termal que tantos portugueses “doentes” voltou a pôr no bom caminho.

Com ideias destas continuo a interrogar-me porque não fui convidado como orador para aquele grande evento que foi o Compromisso Portugal ou coisa que o valha.

Mak, o Mau

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.