16.4.14

O avô, o miúdo e o blog

"Não é o tamanho do blog, nem do counter de visitas que conta, é o que está lá dentro"

A criança sorriu e o seu avô, blogger há décadas, continuou.

"Não te preocupes com sucesso, não corras atrás de tendências e outras demências. Faz aquilo que queres, mesmo que isso não seja o que os outros queiram de ti..."

A criança continuou a sorrir.

"E um dia, mesmo que os que te seguem não sejam mais do que os dedos que tens nas mãos, vais perceber que aquilo que tens é teu e não um sonho estranho onde tudo faz sentido apenas porque não é real..."

O facto da criança continuar a sorrir começou a irritar o avô.

"Ouve lá, mas estás a ouvir ou não? Já sabes o que é preciso para ter um blog ou quê?"

A criança parou de sorrir e disse a medo "Avô, tens uma mosca pousada nos óculos...e o que é um blog?"

O avô suspirou, pensando que ainda assim havia esperança, quem sabe o miúdo não se safaria no Instagram ou no Youtube...

15.4.14

Vamos jogar o jogo do "Tired of..."

Vamos pegar nesta musiquinha pós-moderna que eu até aprecio para lançar o tema.



Agora vamos substituir "running" por expressões do meu/vosso agrado. Até porque bem vistas as coisas, os cinco ou seis "sprints" de 1km que fiz pelo meio do treino matinal de hoje, lá para as 7.30 da matina, foram do menos cansativo que tive que enfrentar nas últimas horas.

Preparados?

Eu começo.


Tired of...

#corporatebullshit
#incompetêncialatente
#gentequegritabrutalpordácáaquelapalha
#queixassobrefaltadetempoquandosegastaotempotodocomqueixas


A maldição de ser "chefe"

Um gajo jura um dia que nunca há de querer ser chefe. Sub-chefe ainda é naquela, semi-tranquilo, semi-entalado, mas tudo bem faz-se e ninguém estranha. Até que um dia um gajo descobre, devido a uma sequência de catástrofes naturais, que é chefe por um dia.

E fica com um ar lixado.
E sente-se olhado de lado, mas como a pessoa  em causa é estrábica não há problema.
E começa a sentir-se sozinho.
E vai à farmácia comprar pomada anti-chefe.

É só por um dia e picos, eu sei. Mas dá comichão.




Bela forma de anunciar que ainda há 16 dias de festa.

14.4.14

A sedutora arte de cuspir numa mulher e ser convidado a sair


Na sequência de um nostálgico Agora Escolha versão mitra, eis o episódio escolhido – o dia em que cuspi numa miúda e saí com ela.
 

Filosofia no 12º ano não é mesma coisa que a filosofia de putos que estão no segundo ano. É um estado de semi-adolescência armada ao adulta, em que momentos de grande seriedade se cruzam com a estupidez natural de quem não sabe o que faz.
Numa aula, grupo de trabalho, eu e três donzelas, proporção natural em áreas de Letras. Uma dela gostava de me provocar, brincalhona pensava eu, mas sem o toque sedutor de outras damas na mesma idade. Isso ou então era eu que lhe despertava instintos mais infantis.
Sentada à minha frente, o nosso grupo é convidado a ler umas passagens sobre Kierkegaard, Feuerbach ou um qualquer tipo alemão com teorias morais. Ela lê, mas olha para mim durante as frases e, fingindo ser sopinha de massa, enche-me de “gafanhotos”. A chamada sedução à National Geographic. Eu aparo o golpe, mas faço má cara, digo entredentes “Vá lá, acaba com isso”, sem qualquer resultado. Há uma pausa para debate sobre o que é lido e eu digo “Não voltes a fazer isso, vai dar mau resultado”. A professora manda continuar a ler, ela faz a mesma brincadeira, eu interrompo.

“Se é para cuspir, bem podes fazer isso de uma só vez”.  Vejo tudo negro, mas só porque fecho os olhos no momento em que lhe cuspo para cima. Numa aula de Filosofia. No 12º ano. Com tudo calado.

A professora diz que não tolera. Ela chama-me nomes. Eu abano a cabeça, mais de vergonha do que de arrependimento, se é que isso é possível. Pedem-nos aos dois para nos levantarmos, “Vão lá para fora acalmar-se. Já.” – a porta bate-se nas nossas costas. Olhamos um para o outro, há raiva, depois há riso. Os pedidos de desculpa têm a forma de “És tão estúpido” e “Tu é que és mesmo estúpida”.

Passam dez minutos. Bato à porta da sala de aula e a professora abre “Posso entrar? Já estou calmo...”. A professora ri-se, “Para rapaz perspicaz estás um bocado lento. Acalmar era figura de estilo, já te marquei falta”. Encolho os ombros e volto as costas. “És tão estúpido” diz ela outra vez.

Anos mais tarde estamos casados e já não cuspimos um no outro, mas ainda vamos tendo vontade de chamar estúpido um ao outro pelos melhores motivos...











ACHAM MESMO? Nunca mais vi a rapariga depois do 12º ano e também nunca mais cuspi em nenhuma mulher. No entanto, continuam a chamar-me estúpido com alguma frequência.

13.4.14

As três cidades da Bauhaus e um hambúrguer


Às vezes chego a domingo à noite e não sei o que fiz no fim de semana. Refraseando, chega domingo à noite e eu tenho de pensar onde é que se meteram as horas todas que o fim de semana era suposto ter para aproveitar em grande.
 

E então começo a fazer contas.

Espécie de quiz/trivial pursuit numa sociedade recreativa no bairro onde cresci, reunindo geeks e amigos a preencher a noite de sexta. Dás por ti a comer pastéis de nata às três da manhã num spot que permite matar a saudade de bolos na madrugada.

Vou dormir, levanto-me que, num sábado em mil, tenho aulas das nove à uma. Acho que dormi, mas não tenho bem a certeza. Tinha combinado um almoço, já são quase duas e meia, não sei se tenho mais fome ou sono, mas em caso de dúvidas ganha o estômago.
Sigo para casa, não sei se consigo dormir à tarde, está bom tempo, se calhar vejo o último do Game of Thrones, que é para ter motivo trendy de conversa na segunda. Olha já vi, olha se calhar adormeci, já é de noite. Um croquete sobreviveu à bicharada, na bancada da cozinha. É milagre. Como o milagre.

Se calhar vou dormir outra vez, olha já acordei, era para ir correr de manhãzinha com um amigo, íamos do Estoril até Belém, se calhar já não vou a tempo de chegar ao Estoril só para voltar, corro duas horas e meia só para despachar a coisa. Duas horas e meia e “despachar” na mesma frase? Sim, devo ser estúpido, mas a companhia era boa. Almoça-se e escreve-se, há que escrever pelos mais diversos motivos, sendo que entre a obrigação e o lazer passam-se horas.

Já sei onde foi parar o tempo.

E afinal, que história é essa da Bauhaus? Foi uma das perguntas que, sabe-se lá porquê sabia, enquanto ninguém se lembrou de Dessau, bem mais escondida que Weimar ou Berlim. Rendeu qualquer coisa, pagou hambúrguer(es), entre nós ou Entre Nós. Coisa simples, mas composta. Dispensava os nomes semi infantis Fafá e Mu, não é qualquer diminutivo meu, são mesmo nomes de pratos. Mas, em sabendo bem, perdoa-se a nomenclatura. E agora, vou andando, que ainda tenho mais tempo a perder.

11.4.14

Pois então descontinuaram o Limbo?

Não há problema, poderemos continuar a encontrar-nos no Hades, ali no cruzamento entre o submundo grego e aqueles lábios carregados de tom cereja e pastilha elástica de melancia que não param de procurar o que o bom senso não alcança.

Live blogging em directo da marquesa

"Señorrrrr Mak, agora vai ficar deitadinho em cima da marquesaaaa..."

(jovem enfermeira espanhola, com sotaque carregado, será alguma adaptação de cinema porno em que sou convidado? Hmmmm...em centros de saúde  nacionais, a única coisa pornográfica costumam ser alguns tempos de espera, é melhor não ir por aí...)

"Señorrrrr Mak, como ficou assim? Espero que não tenha sido luchandoooo"
"Nada disso, foi a jogar basket. Levei um autógrafo com um cotovelo..."
"Pois, o señorrrr no es pequeñooo..."

(eis que entra um puto de bata. Agora é que eu espero mesmo que não haja cá cenas porno...)

"Renatooo...sabes tirar puntos?"

(não é um bom prenúncio quando se pergunta a alguém se sabe fazer algo que mexe com a nossa pele)

"Sim, claro"

"Então trata de Señorrrr Mak, que tengo que ir ali tratar de algo"


(sai a enfermeira mas, na sala ao lado, oiço-a falar das suas prioridades)

"Hola, pede-me uma meia de leche escura e um pan de leche com queso, por favor"
(Belas prioridades tia...)

Renato está a rir-se para mim e pede-me para fechar os olhos. Porque raio fui eu pensar em cenas porno...






Nota: Correu tudo bem e, se continuar a correr tudo bem, não restará grande marca. Caso contrário, sai uma cicatriz semi-mitra, semi-sexy na sobrancelha esquerda. Renato, és o maior, sem deixares de ser gentil, por mais abichanado que isto soe.

10.4.14

Um "Agora Escolha" altamente mitra



Imaginem que agora está aqui a Vera Roquette e que, ao terem feito um clique errado, em vez de entrarem num blog de quinta categoria, entraram numa máquina do tempo de igual categoria, o que será basicamente uma espécie de máquina de lavar com barulhos estranhos. Afinal de contas, o que se pode esperar de uma máquina do tempo que só usa palavras para descrever eventos.



De repente, estamos numa espécie de Agora Escolha, diferente do Você Decide em que Dona Guilhermina varreu o chef francês na luta pelo vosso abastecimento eterno de colesterol e felicidade num só prato. É diferente porque ao falar em Agora Escolha vocês pensaram logo nas séries que gostavam de ver nesse programa, isto se forem desse tempo, se não forem possivelmente estão a pensar “Mas que blog de trampa”, o que vem comprovar a teoria científica que alerta para o facto das pessoas que viam o Agora Escolha poderem ter um raciocínio mais lento na forma como se apercebem das coisas dos blogs.

Surge então a primeira desilusão do Agora Escolha, a programação do dia é uma trampa e, muito possivelmente estão reduzidos a escolher pelo mal menor. É que hoje os “programas” à disposição são todos sobre mim, em belos episódios do passado.

Programa A – Comédia sobre o dia em que Mak cuspiu numa mulher e foi convidado a sair com ela.
Programa B – Acção com Mak a entregar relógios de luxo num bairro complicado e a suar do bigode ao perceber que tem perto de 25 mil Euros em material num saco do Pingo Doce.
Programa C – Romance/Drama – Mak faz de Cupido e acaba a noite a ver cenas hardcore em cima de uma máquina de flippers.

Podem votar se quiserem, mas isto vai acontecer como na realidade, quando o programa em que votaram ia cinco votos à frente e, num instante mágico, o que estava em segundo somava dez votos, o vosso somava dois e a votação desaparecia, restando aguardar a Vera com os resultados e um sorriso sempre prazenteiro, como se não tivessem acabado de nos gamar à bruta.
A diferença é que os resultados são de hoje para amanhã.

E não se queixem que não têm direito a desenhos animados. Estes, de tão adulto e lixado que por vezes era o enredo, eram dos meus favoritos.




9.4.14

Mães controladoras de filhinhos


Elas sempre existiram, muito mas muito antes de alguma vez termos ouvido falar do Psycho. Simplesmente agora existem muito mais ferramentas, quer para tentar controlar, quer para tentar não ser controlado.


É uma batalha eterna, por mais que milhões jurem ser excepções.



Quanto ao resto, não é nada de creepy, é pura e simplesmente criatividade Old Spice.

Duelos nos passeios de Lisboa


Sou um gajo que anda a pé pela cidade e, pelo que vejo numa dedução brilhante, não sou o único. É certo que tenho o privilégio de, quando tal é viável, conseguir fazer o percurso casa-emprego e vice-versa dessa forma, mas há quem também faça o mesmo e não sinta a necessidade de escrever sobre a matéria.



No entanto, mais interessante descobrir do que descobrir as motivações das pessoas para andar, o que eu gosto mesmo é de duelos não oficiais de peões. Imaginem-se com a Avenida da República toda pela frente, lado a lado com uma tipa de perna longa – não pode estar de saltos, isso é desvantagem para ela, mas pode tentar. Será que tem passada larga? Será que aguenta até ao Saldanha? O primeiro a curvar perde?



Não é raro eu fazer isto, escolher uma pessoa/grupo que se desloca no mesmo passeio que eu e tornar a coisa numa corrida não oficial. Se corres, estás fora. Se aceleras de forma anormal, estás fora. Se me tentas vender timesharing, fazer inquéritos ou dar folhetos sobre a vida do Senhor, não só estás fora como te rosno. A partida pode ser o arranque num semáforo, alguns passos a par ou a largada que vem do Metro – quando alguém curva, entra num prédio, resolve dançar breakdance ou algo similar, o duelo acaba.



Dentro disto, existem duas nuances curiosas – os telemóveis vieram baralhar os duelos – grandes atletas do passeio podem ver a sua performance arruinada por um telefonema inoportuno ou beleza do duelo ir às malvas por via de um nível de Candy Crush jogado em andamento. Um poste ou um duelo em direcção oposta podem causar acidentes não propriamente espectaculares, mas socialmente divertidos.



O outro aspecto é um certo desconforto latente que algumas pessoas demonstram quando notam que alguém anda ao lado delas, ao mesmo ritmo, num passeio. Talvez seja inconsciente, talvez desconfiem de uma intencionalidade que pode não existir, talvez seja uma espécie de invasão subjectiva de um ritual habitual. Não sei, mas é uma boa razão para começar um duelo.

Vão dizer que são pessoas normais e nunca fizeram isto? Ou são apenas pequenos pulhas burgueses que não andam pelos passeios da vida?
 



Enquanto pensam nisso, querem saber o melhor deste post? Descobrir que há gajos a pensar como eu que fazem vídeos catitas para ilustrar isto mesmo.


T -22 dias

8.4.14

Vão fazer brochuras a cavalos

Nunca venham com ar paternalista e me ponham nas mãos uma brochura dizendo "Temos de procurar manter uma linguagem premium, cuidada e ecléctica. Deixo-te aqui um exemplo para te guiares".

Não sou o gajo mais arrogante do mundo, mas sei bem que carimbos tipo "premium" por norma pressupõem meio quilo de linguagem de bullshit e adjectivação rebuscada para encher o olho e fazer bocejar o leitor mais atento.

Ainda assim, decido-me a ler atentamente tão iluminado material de referência.

Cinco minutos nisto e já me deparei com pérolas como "ir de encontro aos nossos objectivos", assassínios de concordâncias, massacre de redundâncias e por aí em diante. Vai ser um bonito premium das barracas ao que parece...

Letterman, bons anfitriões e uma banda que não é de cera



Sou fã de Conan O’Brien acima de tudo porque tem aquele jeito nonsense semi-idiota que tanto me agrada. Gosto do Jimmy Fallon e do Jimmy Kimmel porque creio que compreendem muito bem a ligação entre um anfitrião, os seus convidados e a melhor forma de gerar conteúdos / “entertainment” não só no seu meio televisivo, mas aproveitando cada vez mais a Internet.


É claro que há equipas dedicadas a trabalhar atrás destes senhores, mas são eles o foco principal.

Isso leva-me à notícia sobre o anúncio da retirada de David Letterman, algures em 2015. É certo que por cá sempre tivemos mais acesso ao outro peso pesado da sua geração, Jay Leno (que acho piada como comediante, especialmente no seu início, mas menos como “anfitrião”), mas sempre tive mais alguma afeição pelo Letterman. Não sei se será por ver nele alguma coisa do meu pai (embora o Sr. Mak não seja tão dado ao humor) ou detectar ali sempre um certo sarcasmo, ironia, misturados com frontalidade. Talvez por isso tenha gostado bastante de ler o extenso artigo que refiro atrás em link sobre o anunciar da sua retirada.


E foi assim que cheguei aos Future Island, uma banda que ficou em destaque depois da sua prestação show do Letterman (Em termos musicais, quem tenha pachorra que leia a história de Letterman e de Warren Zevon, um músico muitas vezes convidado do programa que, depois de se saber que tinha um cancro terminal, foi convidado único e especial desse mesmo programa, mas sem o teor lamechas a que estamos tão habituados).


Já tinha ouvido falar de Future Island, mas nunca tinha ouvido. Depois de ouvir, apesar de gostar do tema em si, o que apreciei foi a persona muito pouco convencional do vocalista. É todo um case study mas é também delicioso ver alguém que não é o típico boneco cool da banda moderna. A performance é toda um misto de sensações e, depois de a ver, voltei a vê-la três ou quatro vezes de seguida, percebendo também pela reacção do Letterman que ele também vibrou.



E, pelos vistos, não fomos os únicos.



Não tenho muita pachorra para bandas fotocópia e gente ali a morrer de coolismo agudo atrás de um microfone. Prefiro um cruzamento de Tom Jones, Marlon Brando, pugilista turco com grande escala vocal, por mais assustador que isso possa parecer.