4.8.14

Infelizmente este blog só regressou à vida para falar do oposto

Hoje desapareceu alguém que considero um grande amigo. Digo “considero” porque ainda me recuso a falar do R, no passado e acho que há coisas que transcendem os limites que a vida e a morte criam. E se este blog também nasceu pelas mãos dele, é justo que eu cá venha falar um bocadinho do que significa para mim, mesmo que no momento mais difícil.

Hesito sempre quando se trata de partilhar aquilo que realmente mexe comigo face ao que é a espuma dos dias nas redes sociais. Mas é a escrever que sempre consegui expressar melhor o que me vai na alma e se o faço assim neste caso é porque penso que se a amizade é um valor que devia guiar o que nos liga nestes meandros, então são os verdadeiros amigos que merecem os verdadeiros gestos, mesmo que derradeiros e que não seja possível vê-lo responder aos mesmos com um comentário do género “Com essa prosa de biltre não vais longe puto”.





Conheci-o há mais de 25 anos, crescemos a três prédios e um toque de campainha de distância e se houve coisa que a nossa convivência me ensinou foi que a empatia instantânea é uma espécie de fórmula mágica que não se cria, vive-se. Foi por isso que ao longo dos anos, mesmo que estivéssemos separados semanas ou até meses, bastava uma hora juntos para parecer que a última vez tinha sido no dia anterior. Gostos comuns, parvoíces comuns e um conjunto de ligações que foram crescendo e amadurecendo connosco, temperadas com aquele toque especial de crianças grandes que na realidade sempre fomos. Viessem mais 25 ou 50 anos e eu diria que tudo continuaria assim, como se só uma moldura feita de cabelos brancos e crianças a brincar juntas fossem mudando os contornos à nossa volta.

Uma coisa que sempre reconheci ao R. era daquelas coisas que quem privou com ele sabe que era impossível de fingir, pois a sua intensidade para com aquilo que o apaixonava impressionava desde o primeiro momento. Fosse o Belém, uma discussão sobre cinema, o quiz ou os reflexos maiores dessa faceta, na forma da família e do pequeno grande campeão que é o seu filho.

Por isso e por muito mais, gostava de te poder dar mais um calduço e dizer-te para trabalhares menos e zarpares para casa, pois sei bem que por vezes contavas os minutos até estares com o teu puto e a tua mulher. De te puxar para os projectos que fomos sempre adiando, mas que nunca deixámos de discutir. De te contar mais um trocadilho ou uma piada tosca, só para te ouvir rir, com aquele ar de puto malandro e dizer “És tão estúpido”, sabendo que era disso mesmo que nós gostávamos. Mas tudo isso sou eu, que sou egoísta e sei bem que não precisaria de nada dessas coisas se soubesse que estavas junto dos teus, ocupado a ser feliz e que talvez daqui a uma ou duas semanas me dissesses qualquer coisa. Nunca tivemos horas marcadas, não havia de ser agora que iríamos começar.

Como sempre, escrevi demais e infelizmente já passou demasiado tempo para ainda poder acreditar que se trata de um pesadelo ou da pior piada de mau gosto de todos os tempos. De bom grado gostaria que assim fosse e de o ouvir dizer “Lello, que grande testamento. Não há pachorra para ler uma coisa assim”. E, uma vez mais, terias toda a razão.

25.6.14

Uma pausa para o adeus devido ao verdadeiro Mau




Não sou de voltar atrás com as minhas decisões, embora outro dia isso tivesse dado jeito, quando andei horas perdido no meio da mata armado em Robinson Crusoe dos trails. No entanto, se não viesse cá hoje, não faria justiça ao grande ícone por detrás deste blog, mais precisamente, do personagem que vos escreve. Falo, obviamente, deste senhor.




A notícia do seu desaparecimento, aos 98 anos, não é propriamente um choque ou uma tragédia mas, ainda assim, provocou uma sensação de vazio no meu lado ficcional. Desde a primeira vez que vi em miúdo o filme “O Bom, o Mau e o Vilão” que o seu personagem me transmitiu (porventura ao meu subconsciente) os “valores” que realmente aprecio nos maus da fita.





É certo que a estrela da companhia é Clint Eastwood, com os méritos do herói duro e silencioso que faz as coisas acontecerem com o menor número de falas possível e que Lee Van Cleef é o verdadeiro vilão, um antagonista cruel e frio, mas é Eli Wallach enquanto Tuco (vilão só na tradução em português) que é porventura o espelho dos bons malandros que, por mais trafulhas que sejam, têm sempre os gestos e a postura sacano-adorável que torna quase impossível não gostarmos deles, mesmo quando é previsível que o final não lhes seja favorável.





História do filme à parte e apesar de só o ter visto pela primeira vez para aí 30 anos depois do seu lançamento, Tuco Ramirez – o Mau, veio mais tarde a revelar-se a inspiração perfeita para a minha expressão deste blog. Não porque seja na realidade um pistoleiro trafulha dos tempos modernos, mas porque o meu estilo (a ter um) talvez possa ser uma mistura de humor, irritação, defeitos mascarados de virtudes e a capacidade de gerar surpresas em cada esquina, mesmo que nem sempre seja com intenções virtuosas.



Da sabedoria mitra de Tuco ainda hoje retiro ensinamentos, como é o caso desta cena.





“When you have to shoot, shoot, don’t talk” é algo que tenho em conta e que já me relembrou várias vezes que, se é para fazer as coisas é para fazer, em vez de ficar apenas a falar sobre elas. E isto é para o bem e para o mal, digo eu aviando duas peras no procrastinador que vive em mim.



A longa carreira de Eli Wallach vai muito para além deste personagem, incluindo vários filmes do meu agrado, creio que no cinema deverei tê-lo visto pela última vez no The Ghost Writer. Apesar de nunca ter ganho um Óscar pelos seus filmes, em 2010 a Academia reconheceu o seu valor com um Óscar pela carreira, destacando uma das suas capacidades maiores – o talento “camaleónico” para dar vida e sensação de realidade aos personagens que interpretou.




Foi-se o Eli, o Tuco vive para sempre e os bons bandidos à sua imagem continuam um pouco por todo o lado. Como tentei que fosse o caso por aqui. E agora chega de conversa por aqui, não queremos que fiquem mal habituados.

2.5.14

Obrigado por terem vindo, adeus e até à próxima



Sonhei que tinha ido a uma festa de despedida, daquelas onde mesmo quando a lua já vai alta não há horas perdidas. Podem pensar que tenho macaquinhos no sotão mas às vezes as coisas são mesmo assim, um desassossego constante, esteja acordado ou a dormir.


A essa festa fui de fato de treino mas esse facto não me impediu de debater livros com quem deles percebe, mesmo com o ruído surdo da música que transforma toda a conversa numa festa numa sequência de gritos bem intencionados. Também falei de futebol, mesmo que por vezes pareça coxo na matéria, há sempre alguém que escuta e isso é bom. Mesmo durante um sonho não seria uma festa se não fossem servidos acepipes, embora quando um tipo se apresenta ao meu estilo não pode desconfiar quando lhe servem pipocas de todos os gostos e feitios e o empregado, fã de gourmet, diz que se reparar, machos e fêmeas da espécie têm sabor diferente. Felizmente, para o povo, também havia caju, amendoim e refrigerantes com gás, para sermos todos muita malucos.


Não faltaram figuras históricas, algumas grandes e com raízes na Macedónia do lado da mãe e houve até quem me pedisse desculpa por se apresentar à paisana, coisa que perdoei na hora, visto que na festa havia quem se apresentasse em roupa interior rosa ou até de saltos altos. Apenas de saltos altos acrescente-se. E não me estou a referir ao meu irmão gémeo, que esse é sacana, mas não chega a esse extremo.


Piratas também foram avistados, tal como outras criaturas míticas, ao exemplo de trolls e outros seres que, perdidos pela cidade, vieram ter ao sonho mais badalado do dia. Certamente não eram alérgicos a feno, porque comeram toda a decoração feita desse material e não ficaram com febre o que, por momentos, me levou a querer gritar “Oh my dog!!”. Felizmente, não sou uma lady e também não me comeram o cão, o que foi uma vantagem, porque é de loiça.


Muitos dos que vieram preferiram manter o anonimato, brindei com eles à mesma, porque essas pequenas coisas não estragam grandes momentos. No sonho estavam mulheres, homens de vários tipos, incluindo D. Havia quem corresse para ver a próxima animação e quem corresse só porque sim, até porque nos sonhos se tudo fizer sentido a coisa não tem tanta piada.


A minha única angústia, ao longo de todo o sonho, foi saber que haveria sempre gente na festa que eu quereria cumprimentar e me havia de esquecer ou não conseguir chegar até elas. Portanto, projectei um raio de sol a partir da minha testa, aproveitando o facto de ter comprado o Pack Sonho Mirabolante e agradeci-lhes por terem vindo. Espero que soubessem ler, senão foi dinheiro mal gasto, que aquilo estava escrito em gótico flamejante.


Ainda assim, fiquei sempre com a certeza que este era daqueles sonhos que dava para editar, se houvesse necessidade, até porque sonhos recorrentes é coisa que dá para conversa de bar e de sofá de psicanálise. Acenei para a multidão e disse-lhes para experimentarem enviar-me mails se lhes apetecesse para ver se o servidor do subconsciente estava a funcionar. Pensei em soltar uma lagriminha, mas o pack mirabolante não inclui finais dramático-sensíveis.


E, sendo assim, depois acordei e fui-me embora.

1.5.14

As pequenas coisas do meu eu



Acredito que não nascemos para saber tudo, porque se assim fosse seríamos sempre absolutamente e aborrecidamente confiantes e, pior do que isso, teríamos boas razões para isso. No entanto, há a tendência para que me esqueça regularmente dessa crença quando dou por mim a pensar que sei tudo sobre determinado assunto.

Sou expansivo, mas defensivo, algo que é natural porque também acredito que não devemos presumir que as pessoas são boas até prova em contrário. Prefiro a teoria da tábua neutra, em que o comportamento e atitude das pessoas ditará o lado da fronteira para que irão. Perderei um pouco por ser assim, ganharei outro tanto, faz parte do jogo.

Quando corro, sou o meu maior apoiante e o meu maior adversário. Faz parte da minha natureza competitiva, mas também do reconhecimento das minhas falhas. Ainda assim, sempre preferi desportos de equipas, por achar fascinante que partes que não são as melhores individualmente podem superar a soma do seu valor quando actuam juntas.

Plantação de árvores à parte, ainda não escrevi um livro nem tive um filho. Como tenho a mania dos épicos, se calhar tento fazer as duas coisas num só dia. Nos entretantos, fiz outras coisas que nem toda a gente se pode gabar. Mas não me vou gabar disso, para não ser como toda a gente. Modéstia, eis outra das minha virtudes.

Não gosto de dizer que antes é que era. Prefiro acreditar que amanhã é que vai ser. Assim, pelo menos fico com o dia de hoje livre. E ainda são uns belos 10 minutos.


Hoje é o último de festa mas nada bate uma despedida ao jeito de ressaca do dia seguinte.
 

Idiossincrasia galopante

No dia em que um gajo está para correr daqui para fora, começa por ir lá fora correr e vem falar disso cá dentro.

Nada bate uma corrida do 1º de Maio, para andar a correr pelo meio de Lisboa a destilar com o calor e continuar a achar tão refrescante a raiva alucinada que tanta gente tem para com esses demónios que correm e lhes fecham as ruas, não deixando que os seus popós circulem livremente durante umas horitas.

30.4.14

Why don't you do right, like some other men do

Hoje, a Jessica veste de preto.



Adeuzinho Bob, o Roger manda saudades.

(não tenho nenhuma citação ou experiência de vida mais sapiente para partilhar. Estou a guardá-las para o Morgan Freeman e o Tenzin Gyatso)

Racismo, bananas, bananas racistas e outras coisas que mexem comigo









Vistas bem as coisas, para além do que é sempre positivo numa campanha que fala contra algo que continua a minar a sociedade, aprendi duas coisas:



A)

O racismo continua a merecer derrota pesada, mas a espontaneidade viu um golo anulado:



1-0 para algo muito bem aproveitado e com um fim útil

0-1 para quem ainda acredita cegamente na espontaneidade das coisas







B) Posso estar a alucinar mas há parecenças entre o Daniel Alves e o Robbie Williams








Contudo, ao nível de racismo, para um tipo que como eu é fã de basket, esta foi a notícia que deu o exemplo de como, às vezes, os americanos sabem como tratar das coisas:





- No final da semana passada o dono de uma equipa da NBA foi apanhado ao telefone a fazer comentários extremamente racistas, pedindo à namorada para não trazer "pretos" aos jogos da equipa dele and so on. A juntar a isso, o senhor já tem um passado conturbado na matéria.



- Em poucos dias, com a sua equipa envolvida nos playoff (onde do treinador a 90% da equipa é tudo black), a coisa espalhou-se de tal forma que até o Obama comentou e condenou a situação.



- Ontem, menos de uma semana depois, a NBA já se pronunciou sobre o assunto, banindo-o para a vida de qualquer associação/presença em eventos/jogos da liga, incluindo os da equipa de que é dono. E toma lá mais 2,5milhões de multa, que revertem para associações de combate ao preconceito/racismo. E, se tudo correr como previsto, será tomada uma decisão no sentido de o forçar por vias legais a vender a equipa.



Justiça célere e eficaz numa matéria sempre complicada. Ora aí está algo que, desta vez em bom, também se pode dizer "Só na América"...



Para quem como foi o meu caso teve uma boa carga académica de ciências sociais, acaba por ser triste ver que a realidade continua muito separada do campo teórico, em que ciências baseadas em desigualdades raciais se extinguiram pelo facto do seu próprio campo de acção não existir tirando na cabeça de quem os defendia. O problema é que a realidade está longe de ser científica e o racismo continua vivo em todos os corações e cabeças que acreditam que é o exterior que diferencia as pessoas e não o que vai lá dentro. Seja na América ou muitas vezes, numa sala onde estamos rodeados de gente que pensamos conhecer.

29.4.14

Por um futuro menos gourmet



Lembro-me de em tempos ter recebido um briefing para um trabalho em que se posicionava uma dada marca se posicionava como “Fashion, trendy e sofisticada” e isso, só por si, causou-me azia. É difícil acreditar em valores auto-reconhecidos a partir de factores que são atribuídos por terceiros. Quanto mais projectados, mais cheira a snobismo de trazer por casa.

Não é à toa que é comum a teoria que diz que uma marca/serviço/personalidade não é aquilo que ela diz ser, mas sim o que o Google diz que ela é.

Partindo daí, mesmo que ele exista, já não consigo conceber mercado para mais uma hamburgaria gourmet, para mais um quiosque que tem algo que é “o melhor do mundo”, mas que é feito da forma mais tosca possível e um qualquer conceito que já foi replicado mais vezes que a Academia de Polícia.

Gourmet e Tradicional já rodaram mais que certas veteranas ali na zona do Técnico mas, enquanto a clientela for encostando, porquê parar?

Fico à espera dos toques originais que vão quebrando o marasmo. Mesmo que já só faltem três dias de festa trendy, salpicada de laivos gourmet em cama de sofisticação rústico-tradicional.

Sou alérgico a diminutivos e à loucura da roupa técnica


Creio que já referi que não tenho segundo nome, nem no BI nem na versão blogger. Portanto, é natural que não me chamem Mak Manuel ou Mak Alexandre ou até mesmo Mak Maria, isto em versão blogger beto.
Acrescentando outra informação, tenho uma certa aversão a diminutivos, não é trauma de infância nem desgosto amoroso recalcado, é mesmo uma reacção alérgica. Portanto, qual não é o meu espanto quando hoje, depois de correr, retiro a minha tshirt técnica (mais sobre isto adiante) e vejo isto...



É basicamente o destino a roçar-se na minha pele e a gozar comigo. Lidarei com isto com calma e com uma tesoura. Makito é coisa de urso de peluche, não de corredor barbudo.

Quanto à roupa técnica, como em tudo em que há especialização, a loucura apresenta-se como uma opção óbvia. Vi ontem à venda um corta vento todo kitado para a chuva. Segundo os senhores da marca que se fazia cobrar, tinha uma técnica de impermeabilidade inovadora, uma leveza extraordinária e um interior criado para aumentar a circulação do ar. Ah e custava 129€. Resumindo, excelente texto sobre vantagens teóricas condensado na etiqueta, péssimo preço para a carteira. Se há vontade de correr à chuva, investir em grande para evitar a máxima “Quem anda à chuva molha-se” parece-me um desperdício.

Ainda por cima a etiqueta nem sequer tinha um diminutivo...